Teatro com Batuque
Entrevista publicada no site Globo Teatro (www.agentesevenoteatro.com.br), em 12 de novembro de 2008.
O diretor Márcio Meirelles fala sobre o Bando de Teatro Olodum, que apresenta “Ó Paí, Ó”, “Cabaré da RRRRaça”, “Áfricas” e “Sonho de uma noite de verão” no Teatro Villa Lobos entre 5 e 21 de dezembro.
COMEÇO
“O Bando começou a partir de uma vontade de colocar em cena a cultura afro-baiana, depois da constatação de que uma cidade com 80% da po pulação negra, não refletia essa densidade no palco. Um país onde o negro é o grande responsável pela identidade cultural não tinha uma dramaturgia, nem grupos que discutissem as questões dessa enorme fatia da população brasileira nos palcos. Então, com um grupo de artistas – entre eles Chica Carelli, que continua na direção do grupo – resolvi criar um projeto para responder a isso. Na época, o Olodum queria também trabalhar com outras linguagens, além da música. Resolvemos fazer uma oficina e a partir daí escolher o grupo. Os principais critérios seriam uma vivência anterior nessa cultura, a vontade de estar no palco e, principalmente, o compromisso com as questões negras. De 80 inscritos, 30 compuseram o primeiro grupo.”
CRESCIMENTO
“Nunca fomos uma atividade a mais do Olodum. Sempre fomos um grupo associado ao Olodum. Fomos nos distanciando à medida que ganhávamos autonomia. Já que os projetos do grupo já eram independentes, dentro do Olodum. Durante a reforma do Pelourinho, logo depois da criação do Bando, em 94 – momento em que eu assumia a direção do Teatro Vila Velha e levava o Bando comigo – nossa posição foi mais radical do que a do Olodum em relação à saída dos moradores. E tínhamos agora um teatro. Já tínhamos criado nossa própria infra-estrutura e agora tínhamos também um teatro para cuidar. Aí a separação foi maior. Quando fizemos ‘Cabaré da Rrrraça’, tivemos a notícia de que apenas 1% do público de teatro em Salvador era negro… Fizemos então uma promoção de meia-entrada para negro. Foi um escândalo nacional, fomos acusados de racismo e o Ministério Público nos advertiu de que poderíamos ser processados por isso. Então, assumimos que todos os baianos são negros e fizemos meia-entrada para todos. O resultado foi que, a partir de então, pelo menos 60% da platéia de nossos espetáculos na Bahia é formada por negros. Entretanto, ao contrário do Ilê Ayê e de outras entidades militantes, o Olodum não nos apoiou, ao revés, em entrevista, a diretoria do grupo disse que não concordava conosco, que isso era exclusão etc.”
ESTOURO
“Vivíamos um processo de criação constante. Tínhamos feito ‘Essa é Nossa Praia’ e criado a maioria dos personagens. Fizemos espetáculos de rua, performances, improvisações, usando esses personagens em várias novas situações. Tínhamos uma pauta num teatro (ainda não tínhamos o Vila, foi em 92) e poucos dias de ensaio. Exatamente seis. O grupo acabou brigando comigo, diziam que eu estava louco de jogar eles assim no palco, sem preparar melhor. Eu tinha certeza de que daria certo, eles e seus personagens tinham musculatura suficiente pra isso. Brigamos, discutimos muito, ficamos os dois últimos ensaios sem falar mais do que o necessário para os ensaios acontecerem e estreamos. ‘Ó Paí, Ó’ foi um grande sucesso!”
LÁZARO
“Ele sempre foi importante para o grupo. Pelo talento, pela força e vontade de trabalhar. Ele fez uma oficina, tinha 15 pra 16 anos. Não queríamos meninos no grupo porque sempre dá trabalho. Mas ele foi incrível na audição. Ele percebeu que um ator se dirigia a algum participante e pedia para este sair. Era como eliminávamos o cidadão. Então, cada vez que o ator ia na direção de Lázaro, ele dava um jeito de sair do lugar e o ator não conseguia pedir para ele sair. Assim foi ficando. A gente percebeu e foi deixando. Daí ele ficou. Não era especialmente talentoso. Seu talento ele construiu com muito trabalho. Um dia, estávamos em temporada, ele, visivelmente angustiado e dividido, me disse que João Falcão havia chamado ele para ‘A Máquina’. Eu disse: Vá. Depois você volta, se quiser. Ele foi, fez, aconteceu toda essa reviravolta e ele continua no Bando, com vários projetos conosco. O fato dele ter ido pro mundo deu maior visibilidade ao grupo e agora os outros atores aparecem. O bando é uma escola. Temos o projeto de realmente montar uma escola para atores negros, usando o método de trabalho do grupo.”