Zé Ulisses Ninguém
Texto escrito em Salvador, em 14 de junho de 2002.
Este José Ulisses da Silva é mais um Zé qualquer e mais um Ulisses. Mas não é só mais um. Este é parente de todos aqueles. Pertence a uma vasta linhagem de Ulisses. É parente do grego, “o pluriardiloso Odisseu”, de James Ulisses Joyce, e de muitos outros. Mas, ainda assim, não é mais um.
É um Ulisses especial. Creio que pela primeira vez Ulisses é uma mulher: Cristina Castro. Com o Viladança, poderosa tripulação de uma nave quase mítica, Cristina/Ulisses empreende sua viagem pelo tempo, para que ele não se perca e não seja perdido. Enfrenta ciclopes fabulosos de um olho só e se nomeia Ninguém.
Ulisses é Ninguém.
É esse Zé, recriado Ulisses. Um Zé Ninguém que transita em meio à cidade.
A cidade é Qualquer Uma, um agrupamento urbano com suas batalhas, suas contradições. Onde o homem singular e anônimo enfrenta odisséias diárias para chegar à sua Ítaca natal. Onde se enfrenta o tempo, as ilusões, as mentiras, os amigos se transformando em bestas pela sedução de feitiços de Circes, afogados e devorados por sereias midiáticas, se não estiverem fortemente amarrados aos mastros de suas naves que navegam pelo asfalto negro rutilante da noite da cidade. Onde as mentiras das aparências são críveis e sólidas, difíceis de se desmembrar. Onde a loucura é ser e quase não ser mais, é existir somente enquanto se é notícia, momento relâmpago entre o abrir e fechar do olho único, e agora cego por Ninguém, do ciclope/tempo filho dileto do mar da vida.
Assumir-se ninguém como Ulisses é ser parte do todo inteiramente. É ser intangível, intocável, imponderável, improvável, indivisível, irreconhecível como parte. É ser como a alma, como a dança, como tudo aquilo que contém o todo em si. Como o Átomo. Como Ninguém. Assim é Cristina assim é o Viladança.