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Cuide de você ou Roupa suja se lavava em casa

Entrevista concedida para repórter Deolinda Vilhena, do Terra Magazine (Bob Fernandes), em Santos (SP), e publicada em 25 de setembro de 2009, sobre a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle.

 

O fato de eu ter quase meio século de vida faz com que eu seja de um tempo em que se dizia que “roupa suja se lava em casa”. Entretanto, essa máxima não foi suficiente para que eu não sucumbisse aos encantos de Sophie Calle e o sucesso de sua exposição Cuide de você.

Sim, confesso que sou facilmente influenciada por artistas que desafiam as fronteiras entre arte e vida, e Sophie Calle vem se especializando nisso. Por isso uso o espaço de hoje, relembrando meus tempos de coluna social – fui assistente de Hildegard Angel, Nina Chavs e Reinaldo Loyo – para dar a César o que é de César: aplaudo entusiasticamente a Bahia, que deu um quinau no resto do país – exceto São Paulo que é quase outro país – ao levar para o Museu de Arte Moderna a exposição Prenez soin de vous, de uma das figuras mais instigantes da cena artística internacional, a francesa Sophie Calle.

Luxo dos luxos: o vernissage em Salvador contou a presença da artista que passou uma semana nas terras do Senhor do Bonfim. Parabéns Jaques Wagner, parabéns Márcio Meirelles, parabéns Monique Badaró, parabéns Solange Farkas e parabéns Irène Kirsch pelo trabalho realizado nos bastidores.

Irène Kirsch, Cristina Castro, Yves Lo-Pinto, Sophie Calle, Márcio Meirelles e Pierre Sabaté (Foto: Uran Rodrigues)

O sucesso da abertura da mostra na noite da última terça no Solar do Unhão – construção de extrema importância histórica e arquitetônica, original do século 17 – mostra que sob a direção de Solange Farkas o MAM-BA parece retomar seu projeto original, concebido pela arquiteta Lina Bo Bardi no início dos anos 1960, de museu como espaço democrático, de convivência e participação, com atividades multidisciplinares que rompem as barreiras entre o erudito e o popular.

Por outro lado, a França reconhecendo a importância da artista e da empreitada, se fez representar por Nicole Lamarque, Secretária Adjunta Geral da agência CulturesFrance, responsável pela difusão da cultura francesa no exterior e das culturas estrangeiras na França, e braço direito do Brasil nesse ano da França nas terras do patropi e por Yves Lo-Pinto, Cônsul geral da França para o Nordeste, baseado em Recife, que se deslocou especialmente para receber a artista e agradecer ao governo baiano a impecável parceria no projeto Cuide de Você.

O governo baiano por sua vez se fez representar por Fátima Mendonça, primeira dama da Bahia e da simpatia e por Márcio Meirelles, Secretário de Cultura. Márcio dizia que “a exposição de Sophie Calle na Bahia reafirma a política da Secretaria de Cultura de abrir o estado para o intercâmbio com as artes mundiais, fomentando as residências artísticas e transformando os museus em espaços culturais dinâmicos. A exposição é importante para as nossas artes visuais, que precisam sempre estar em contato com novas questões, novos discursos, novas linguagens e outros sotaques.”

E generoso, lembrava dos outros parceiros, da empreitada “somos gratos ao SESC São Paulo, ao Vídeobrasil e ao Ministério da Cultura, que, por reconhecerem o esforço da secretaria e sua política inovadora, uniram esforços para trazer Cuide de você para o MAM-BA, único lugar no Brasil a receber a mostra, além de São Paulo”.

Sophie Calle usando um vestido de Iuri Sarmento, artista plástico e estilista mineiro radicado em Salvador, circulava pelos espaços do Solar do Unhão conversando com todos que se aproximavam, posava sorridente e pacientemente para fotos, com um cigarro eternamente entre os dedos, adora esta postura de apertar a tecla “delete” para o politicamente correto – no meu imaginário artista/intelectual francês que não fuma é inimaginável e não se furtou dos prazeres gastronômicos da Bahia nem de experimentar a boa cachaça e os deliciosos coquetéis das nossas deliciosas frutas…Coisas de uma mulher inteligente e bom gosto. Mais do que francesa ela é uma típica parisiense de boa cepa.

Calle, Márcio Meirelles, Cristina Castro e Fátima Mendonça: boas gargalhadas (Foto: Irène Kirsch)

Aliás, a simpatia e disponibilidade de Sophie impressionaram os meus amigos baianos, uma diva sempre provoca desconfiança no quesito temperamento…Digo sempre que querer que alguém seja gênio e ainda tenha bom gênio é exigir demais de uma mesma e mortal criatura. Sophie hospedou-se no Pestana Convento do Carmo e usufruiu do ambiente mágico, apesar dos pesares, do Pelourinho, acompanhou a montagem da exposição no MAM, jantou no Paraíso Tropical a convite de Márcio Meirelles com toda a equipe envolvida na realização do evento – um dos mais importantes em artes plásticas do Ano da França no Brasil – e, em companhia de Irène Kirsch, Adida Cultural da França em Salvador e Armindo Bião, o maior contador de causos da história da Bahia, passou uma manhã na Feira de São Joaquim entre cheiros, cores e sabores tropicais e ainda teve ânimo e disposição para conversar com uma platéia curiosa que lotou o bom e velho Vila Velha por mais de duas horas.

Mas e a exposição? Para os que ainda não sabem, Cuide de você foi uma das obras mais contundentes da última Bienal de Veneza (2007), ocasião na qual o jornal inglês The Guardian apelidou Sophie Calle de “o Marcel Duchamp da roupa suja emocional”. Cuide de Você foi mostrada também na França, no Canadá e em Nova York. E os convites não param, países tão distantes quanto a Dinamarca e a Coréias estão na lista de espera.

A exposição reúne textos, fotos e vídeos nos quais mais de 100 mulheres que interpretaram, a convite da artista, uma carta de rompimento amoroso recebida por ela de um ex-amante, o escritor Grégoire Bouillier. No intuito de “esgotar” as mensagens contidas no texto e em seus subtextos, Calle recrutou para a tarefa “leitoras” de especialidades e profissões diferentes, entre mulheres estranhas e amigas, anônimas e famosas.

Victoria Abril © Sophie Calle, ADAGP 2009

Entre as mulheres que aceitaram o desafio estão as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin; e profissionais como linguista, taróloga, juíza, antropóloga, designer, sexóloga, assistente social e clarividente, entre outras, como uma adolescente, por exemplo. Ao aplicar sua ótica pessoal ou o “filtro” de sua especialidade à carta, elas produziram um rico panorama de respostas – técnicas, acadêmicas, performáticas e emocionais – ao desafio da artista.

Uma menina de nove anos achou o texto intrigante: “ele escreve para contar a ela que quer se separar. É legal, mas complicado. Diz que a ama e quer se separar”. Enquanto a visão da psiquiatra diz não ver “razão para prescrever antidepressivos, a solução apropriada não é química. Você está simplesmente triste… Estou certa de que você é forte o suficiente para mudar e achar forças para agir e reagir”.

A idéia de transformar dor de corno em arte não é nova, e o resultado nem sempre é genial, mas Sophie Calle excedeu. Afinal ela conta ter tido a idéia de fazer esse trabalho apenas dois dias depois de ter recebido a mensagem. Ou seja, no auge da dor. Não é por acaso que a frase Cuide de Você serve de título à obra, “foram essas palavras que me deram o estalo para o trabalho”. Foi o método que ela encontrou para cuidar de si: “reverter as coisas em minha vantagem, para não sofrer com elas”. E acrescenta, “recebi um email terminando um relacionamento. Não sabia o que responder. Ele terminava com a frase Cuide de Você. Foi o que fiz”.

O que mais me apaixona na trajetória de Sophie Calle é que “sua busca artística é, na essência, uma busca humana”, como bem disse Solange Farkas, o que torna a sua obra, que é exemplo da mais instigante produção contemporânea, acessível a grandes públicos.
Sophie Calle diz acreditar ser “mais fácil realizar um projeto quando sofremos do que quando estamos felizes” e vai além, ao afirmar que não sabe o que prefere “estar feliz com um homem ou fazer uma boa exposição.”

Confesso que depois de ver Cuide de você, e mesmo sem querer desejar a infelicidade alheia, estou torcendo para que Sophie Calle opte sempre pela segunda opção.

Baianos corram, tudo bem que vocês não são adeptos do esporte, mas acreditem vale a pena correr até o MAM da Bahia para ver Cuide de você às margens da Baía de Todos os Santos e vocês só tem até o dia 22 de novembro. É para ontem…

Publicado em 25/09/2009 | nenhum comentário

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