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Descentralização da cultura

Artigo de Edivaldo Boaventura, publicado no jornal A Tarde, em 30 de janeiro de 2009.

 

Como presidente da Academia de Letras da Bahia, envolvo-me mais uma vez com os problemas da cultura. O sodalício participa de lançamentos, conferências, cursos que se integram à programação cultural. Luta por recursos públicos e privados para a sua manutenção e para a efetivação dos seus objetivos, disputando-os com outras entidades.

A experiência de secretário da Educação e Cultura da Bahia induziu-me a perceber as ações culturais em mão dupla, isto é, em dois sentidos. Em um primeiro movimento, da capital para os municípios, leva-se a cultura erudita para o interior, gestada nos centros produtores do conhecimento. No movimento inverso, em respeito às criações autóctones e interioranas, devem-se recepcionar as manifestações oriundas dos municípios em direção à capital. A participação municipal no Fundo de Cultura aumentou os recursos de 4% para 40% em dois anos.

Uma das marcas da Secretaria da Cultura do Estado da Bahia (Secult) é a descentralização de ações e programas que antes ficavam concentrados na capital. Considere-se que o interiorano paga imposto, vota, produz e consome como o soteropolitano. A cultura, como a educação, não é uma variável independente, integra-se ao Produto Interno Bruto (PIB). Através dela, como modo de ser, sentir e agir, participa da comunidade como fator de desenvolvimento ou de crescimento. Uma boa ilustração é a economia do Carnaval, que emprega expressivo contingente de mão-de-obra em Salvador.

A descentralização vem se concretizando pela criação do Fórum de Dirigentes Municipais de Cultura, que procura definir o papel dos municípios para criação de um sistema municipal de cultura como já existe para a educação, saúde e outros segmentos sociais. Considere-se que não se cobram ações culturais do município como se exige da administração estadual. Neste sentido, a Secult já realizou duas conferências estaduais de cultura, sendo que na segunda compareceram 392 municípios. Convênios foram assinados com a Escola de Administração da Ufba para prestação de assessoria técnica às administrações municipais e para a capa-citação em gestão cultural.

Cabe ao poder público despertar, estimular e integrar a produção cultural dos municípios como uma maneira de revitalização das comunidades. Nesse sentido, o Centro de Cultura e Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana (Cuca / Uefs) tem contribuído para o conhecimento artístico do feirense. Outro equipamento cultural notável é o Parque Histórico Castro Alves, no município de Cabaceiras do Paraguaçu, no Recôncavo baiano. É uma feliz combinação de educação com cultura pela manutenção de colégio e museu sobre vida e obra do poeta maior. Por sua vez, o Parque Estadual de Canudos é outro dispositivo de conscientização da guerra fratricida e, como museu aberto, tem possibilitado vivo conhecimento da história pátria.

Dentre as inovações do secretário Márcio Meirelles, destaca-se o Núcleo Estadual de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia (Neojibá). Um empreendimento liderado pelo pianista e maestro Ricardo Castro. Para Ricardo, é preciso reduzir as desigualdades sociais de crianças e jovens baianos pela prática orquestral e pela capacitação de artesãos na fabricação e reparação de instrumentos musicais. A inspiração veio do Sistema Nacional das Orquestras e Coros Juvenis e Infantis da Venezuela (Fesnojiv). Iniciativa inédita de educar crianças e jovens ou de recuperá-los pelo apelo musical. Não faz muito, a Orquestra Pedagógica Infantil e a Orquestra Juvenil Dois de Julho exibiram-se, na Concha Acústica, com vibração da plateia ao ouvir Beethoven, Rimsk-Korsakov e Tchaikovsky. Os acordes fortes da música erudita russa despertaram o maior entusiasmo da plateia.

Nessa trilha inovadora, prossegue o Museu de Arte Moderna (MAM), que este ano completa 50 anos, fundado por Lina Bo Bardi, que inova com uma série de ações, a exemplo do “Pinte no MAM.” Do mesmo modo, o Museu de Arte da Bahia (MAB) procede com excelentes exposições tendo se destacado nas comemorações da vinda de D. João VI.

Em Salvador e em todo o território baiano, a cultura inova, descentralizando e atingindo os municípios, na conquista de novos espaços, novas cores e novos sons.

Publicado em 30/01/2009 | nenhum comentário

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