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BANDO DE TEATRO OLODUM ENSAIA NOVA PEÇA SOBRE O PELOURINHO

Entrevista publicada no G1 Bahia, em 5 de agosto de 2011, sobre o trilogiaRemix.DOC#aquartapeça. Por Ingrid Maria Machado.

Márcio Meirelles e Chica Carelli durante ensaios do espetáculo Bença, última peça estreada pelo Bando (Foto: Divulgação)

G1 – Esse é um espetáculo comemorativo?
MM – É um espetáculo reflexivo. Me dei conta de que se passaram 20 anos desde o início da Trilogia do Pelô. Em 1991, estreávamos Essa é nossa praia, na Faculdade de Medicina, que na época era Escola de Dança. E talvez devesse continuar a ser: uma escola de arte alí seria uma âncora para o Centro Antigo. Ou uma Escola de Medicina, mas que funcionasse, que oferecesse serviços, não só à comunidade, mas à cidade de Salvador. Estou no momento em Quito, no Equador, acabei de chegar de Cuenca, Patrimônio da Humanidade também como o Pelourinho. Que diferença! Aqui a revitalização foi participativa, mora gente, há serviços, escritórios de advogados, padarias, farmácias, supermercados, é parte da cidade, tem um vai e vem constante de pessoas. Não só turistas. Os centros antigos destas cidades são centros, pertencem à cidade. Mas, então, resolvi remixar as três peças da Trilogia, num quarto espetáculo, que é um documentário, sobre a história do Bando, da própria Trilogia, do Pelourinho. Um olhar reflexivo sobre nós, 20 anos depois.

G1 – Depois de 20 anos de grupo, o Bando de Teatro Olodum volta para a trilogia que deu início a história do grupo. Porque retornar para as histórias da Trilogia do Pelô? De onde surgiu essa vontade. Foi uma vontade coletiva ou uma sugestão sua?
MM – Por enquanto, uma sugestão minha, mas os atores estão embarcando e percebendo a importância do projeto. Creio que devemos retomar o tema, porque, de alguma forma, com filme e série televisiva, Ó paí,ó! Saiu um pouco de nossa mão. São projetos de Monique (Gardemberg) e da Globo, a partir de nossa criação. Fico preocupado com o partido que a série toma. É um produto midiático, industrial, que prevê um público que nenhuma peça de teatro pode sonhar. Isso dá visibilidade ao Bando, ao nosso trabalho e a muitas das questões que levantamos. Coloca um grupo de teatro negro, nordestino, em rede nacional. Isso é importante para nós, para a Bahia, para a comunidade negra. Não somos objetos, somos sujeitos de um processo. Entretanto, o fato de poder atingir um público heterogêneo, enorme, por força da natureza do veículo TV aberta – estamos falando de um produto industrial que precisa atender a esse público – as questões mais pesadas ficam em segundo ou terceiro plano, e se explora mais o humor. Corremos o risco então de colaborarmos para uma certa folclorização e glamourização de uma situação que é terrível para quem a vive, os moradores do Pelô, o negro brasileiro. Meio o que aconteceu com a obra de Jorge Amado, guardadas as devidas proporções.

G1 – Durante os quatro anos que você respondeu enquanto secretário de Cultura do Estado, o Pelourinho foi alvo de muitas críticas oriundas da população e da mídia, que cobravam de você, um resultado imediato. O que de fato terá nesse novo espetáculo, fruto dessas cobranças, sugestões, ou até mesmo de algo que vc queria ter feito mas não teve condições de fazer e claro, do que você fez?
MM – O espetáculo é uma coisa, a gestão, outra. Vejo agora que não se cobra mais da Secretaria de Cultura e sim da Segurança Pública e, principalmente, da Prefeitura. Creio que é um avanço. Cultura é isso: a forma de fazer, os costumes (e vícios), a história. E a história do Pelourinho é de usurpação. De desejo de colar a imagem de um lugar/símbolo, patrimônio da humanidade a um gestor. A um governo. Ora, as críticas que a imprensa veiculou em relação à Secult, estavam com o foco montado por uma gestão anterior de Cultura e Turismo. Turismo não salva nada. Cultura sim. Turismo é predatório, se não for atrelado a um processo cultural forte. O que houve naquele território foi o desmantelamento de uma cultura. Um corte, com a retirada dos moradores, dos serviços. O que deveria ter sido feito era o fortalecimento e a inclusão desses atores no processo de revitalização. Foi o que foi feito na gestão passada. O fortalecimento, o debate aberto, a inclusão. E se a mídia fortaleceu uma campanha contra mim. O que ouvia e ainda ouço quando passo no Pelô é outro discurso, de reconhecimento e afeto. O que fizemos foi colocar as coisas no lugar. A Prefeitura deve assumir suas responsabilidades, os comerciantes as suas, os moradores e frequentadores também. O baiano deve dizer de fato o que é que quer daquele lugar. O espetáculo celebra um novo tempo, olhando os 20 anos de reforma. Aliás, a Trilogia, o Bando e a reforma começaram juntos. O Bando e a Trilogia estão aí. Já a reforma…..

Márcio Meirelles e o então presidente Lula, recebendo prêmio da Caixa Econômica Federal (Foto: Divulgação)

G1 – Ainda na seara de gestor governamental a frente da Secult, você levou o gabinete da secretaria para se instalar no Pelourinho. Como foi ficar mais próximo dessa realidade. Durante esse período vc percebeu muitas mudanças? Quais foram essas mudanças… Elas serão levadas para o palco?
MM – Nunca estive longe dessa realidade. Mudar a Secretaria pra lá. Foi um ato político, foi resposta a uma demanda surgida logo no primeiro seminário que fizemos. O Governo, através da Secult, estava alí instalado. E alí foi feito um trabalho rico e lindo. Beatriz Lima, gestora do Escritório de Referência do Centro Antigo de Salvador, criado pelo governador Jaques Wagner, conduziu um processo de elaboração do Plano de Reabilitação – com a participação de mais de 600 pessoas – que foi premiado pela Caixa Econômica Federal e, se executado, resolve o problema daquele território. Mas tem que ser um trabalho integrado: ministérios, secretarias de Estado, Prefeitura e iniciativa privada. A Secretaria de Cultura fez a sua parte. E muito bem.

G1 – Agora, 20 depois, na sua percepção, o que mudou no Pelourinho? Nas pessoas que moram e frequentam o Pelô.
MM – Muito. O Pelourinho não é mais aquele. Aliás a Trilogia acompanhou essa mudança. Essa é nossa praia é antes da reforma. Ó paí, ó! no início e Bai bai Pelô conta exatamente a história da expulsão dos moradores. O engraçado… aliás, o trágico da história é que, em Bai bai, tem um personagem, um mendigo chamado Negócio Torto, que é um estorvo naquele Pelourinho reformado. Ninguém sabe o que fazer dele e ele é morto por acidente no final. É um pouco isso. Negócio Torto era tudo que se quis tirar, excluir, eliminar com a reforma. Mas o cadáver está ali. Insepulto. Fedendo, denunciando. Pena que não se faça a reflexão correta e se pregue na cruz o Cristo da ocasião.

G1 – Como está sendo o ensaio. Me conte um pouco de seu olhar sobre os atores nesses primeiros dias de ensaio?
MM – Os ensaios vão ser retomados logo depois da estréia da nova temporada de Cabaré da Rrrrraça, agora dia 22 de julho. Estamos trabalhando, desde Bença, mais fortemente, com novas tecnologias. Os ensaios têm sido participativos. E, agora, serão online, para que o público possa participar. Quero fazer uma oficina para atores, meio retomar o início de tudo. Quem sabe consigo fazer no Pelourinho, na Escola de Medicina, onde foi montada Essa é nossa praia… Quanto aos atores do Bando. Ainda estamos surpresos com tudo isso. É sempre assim. Cada novo processo é novo. Não repetimos modelos, e sempre é um tempo instigante, de perplexidade, o início dos ensaios de um novo espetáculo.

G1 – Como está sendo a construção das personagens? As personagens antigas farão parte do espetáculo. Novas personagens vão ser criadas?
MM – As personagens já estão construídas. Precisamos desconstruí-las um pouco. Rever, revisitar. Nos reapropriarmos das personagens do teatro. Que se confundiram um pouco com as do cinema e da série. Quer ver um exemplo? Reginaldo. Pra nós, ele nunca teve um caso com Iolanda (o travesti). Ele era o malandro, e aquilo era parte da estratégia de sobrevivência de Iolanda: acusar, difamar… Bom, parece que conseguiu (risos). Pode ser que surjam novos personagens também. Mas queremos é refletir por exemplo o que aconteceu com Dona Joana, a crente, nestes 19 anos desde que os filhos foram assassinados. E, por exemplo, como é o filho de Reginaldo e Maria, agora com 18, 19 anos?

G1 – Quantas pessoas fazem parte da montagem do espetáculo?
MM – O processo ainda está em aberto. Atores podem sair, outros entrar. Seguramente teremos técnicos conosco, quase como personagens, operando microfones, sons, streaming, imagens. Gostaria muito de trabalhar com o Nova Saga, uma banda de rap que mora no Carmo.

G1 – Você selecionou algum ator novo para essa montagem? Tem vontade de selecionar?
MM – Pode ser que surja algum, se fizermos a oficina. Mas estamos muito felizes é com a possibilidade de termos alguns atores antigos de volta.

G1 – Os atores ‘antigos’ como Lázaro Ramos e Érico Bras, eles farão parte do espetáculo.
MM – Lázaro e Brás são do Bando, trocamos muitas ideias e eles continuam ligados, mas os compromissos deles não permitem que passem tanto tempo na Bahia, num processo tão longo. Por outro lado, Luciana Souza e Edvana Carvalho, estão participando do processo e vários outros antigos atores vão ser chamados a colaborar.

G1 – Diante de tantas evoluções tecnológicas nesse período de 20 anos, você utilizará alguma delas como recurso cênico?
MM – Pois então: desde Bença temos investigado muito o uso das tecnologias e das redes sociais. Não penso nunca em usar tecnologia como efeito ou como um show room, mas usar essas ferramentas na medida em que elas podem ampliar nosso discurso. Assim como o microfone amplia a voz, os refletores, a capacidade de visão e de recorte/montagem, da cena, essas novas ferramentas, como transmissão ao vivo, manipulação de som e imagem (como fazem os djs e vjs) ampliam a cena, o espaço, o alcance. Também o tempo: como em Bença podemos interagir com o passado, com nós mesmos em registros das peças originais em vídeo. Poderemos ver os atores contracenarem com eles mesmos de 20 anos atrás.

G1 – Quando estréia a montagem?
MM – É preciso um tempo, tanto pra maturar o assunto, que é muito complexo, quanto pra assimilar toda a parte tecnológica. Além do quê, ainda não temos recursos financeiros. Então, não tem ainda previsão de data para a montagem final, mas estamos trabalhando online, então o processo já é produto. E está sendo compartilhado por muita gente.

G1 – De fato, o espetáculo já está garantido na nova série da globo? Tem data prevista para estréia nas telinhas? O novo espetáculo poderá virar um filme?
MM – A Globo tinha praticamente fechado a terceira temporada para este ano, mas foi cancelada.

 

Publicado em 05/08/2011 | nenhum comentário

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