Cartas Abertas
Texto escrito por Marcio Meirelles, publicado no programa de “Cartas Abertas”, apresentado pelo Teatro dos Novos, no Teatro Vila Velha, entre 07 a 22.03.2005
Depois da estréia de Barba Azul, com o elenco que viria a ser o núcleo da nova Companhia dos Novos, falei que queria fazer um espetáculo a partir de cartas femininas, ou melhor, cartas escritas por mulheres. Já que desde então se instalou uma questão sobre a existência de uma escrita feminina.
Começamos a fazer Um tal de Dom Quixote, para re-inaugurar o Vila, depois veio Sonho de uma noite de verão e depois Fausto # Zero, depois, depois, depois… as cartas ficaram sem destinatário.
Em 2002, quando fiz 30 anos de teatro, quis comemorar com as cartas. Várias atrizes se interessaram pelo projeto, chegamos a divulgar, várias mulheres nos mandaram cartas, se interessaram, começou a haver um trânsito pela internet. Nos reunimos, lemos, lemos, lemos. Muitas cartas nos encantaram.
O espetáculo chegou a ter título: Cartas fêmeas, Mulheres epistolares e outros. A discussão se uma escrita feminina é necessariamente produzida por mulheres ou se existe, sequer, uma escrita feminina seja ela produzida por quem for.
Creio que existe uma alma feminina, não só nas mulheres ou nas fêmeas, mas em toda a natureza. Como existe uma alma masculina. Como separar uma de outra? Deve-se separar uma de outra? Quais as características específicas? Ou isso de feminino e masculino não está na alma e sim no corpo? São detalhes anatômicos envolvidos por um espírito de gênero, este sim construído masculino ou feminino, através de experiências de vida? E nisso cultura e civilização e sociedade humana se metem.
E onde se metem cultura, civilização e sociedade, pode haver teatro. Tratando agora do assunto, quero, com essas atrizes, Jarbas, Wanderley e João Vítor, discutir isso. Qual o papel que a mulher, corpo/receptáculo desse espírito ou alma femininos, tem na sociedade. É estranho que, sendo homem, dirija um espetáculo que dá voz a mulheres. Como às vezes me sinto estranho dirigindo o Bando de Teatro Olodum – muitas vezes, publicamente, já foi denunciado o fato de um não negro dirigir um grupo de atores negros e fazer um discurso negro. Pois é, talvez tenha passado minha vida em busca de entender o outro através de seu discurso. Fazendo-o meu também. Talvez eu seja uma farsa, em busca de ser alguma coisa que não sou. O tempo vai dizer.
Agora, quando a Companhia dos Novos retoma o projeto 3 & Pronto e cabe a mim a direção da primeira peça da série, a idéia das cartas retorna. Muitas das atrizes do espetáculo, estiveram nos dois momentos anteriores desse projeto. Nos reunimos de novo e desarquivamos as cartas escritas e coletadas. Novas epístolas foram escritas para complementar o material que tínhamos em mãos. E era um material vasto. As atrizes se mobilizaram para trazer o maior número de cartas possível. Cartas pessoais, publicadas; de personalidades históricas que admiramos, de mulheres anônimas, de mães, avós, amigas. Cartas escritas pelas atrizes, como se fossem personagens a falar de assuntos que nos interessava colocar no espetáculo – cartas fictícias, portanto. Dentro da ficção também procuramos: cartas em romances, contos… cartas escritas por personagens femininos.
Todo esse material foi dividido entre as atrizes que selecionaram o que lhes interessava e iam passando as outras para as colegas que separavam. Depois foi escolher fragmentos e organizar com uma certa ordem, por temas. Cacilda Povoas, que ia compilar o material e assinar o texto, resolveu participar do espetáculo no palco, então assumi a tarefa de dar a forma final aos fragmentos e cartas que selecionamos. Nisso ela me ajudou muito e também Wanderley Meira.
Depois foi ir para o palco. Decidi fazer um espetáculo confessional, onde cada atriz atuará especialmente para três pessoas que estarão sentadas nas mesmas mesas que elas. Isso limitou o número de pessoas no público. Três para cada atriz, são 39, já que Sonia Robato não estará no mesmo ambiente que as outras. Selecionei para ela o espaço mda memória, do sonho. E apenas duas cartas e um post scriptum que nos abrem a alma de três mulheres: uma mãe/autora, uma filha/destinatária, uma amante que espera e uma última personagem que nos dizem que a alma de uma mulher precisa de poesia para que qualquer amor sobreviva.
Para Sonia entreguei essa função no espetáculo. E o prazer, muito especial, de poder estar outra vez com ela em um trabalho meu. Dedico a ela essa peça. A ela, a Chica e a todas as mulheres que generosamente me ensinaram a importância da beleza e da poesia.
E dedico de uma forma especial a Cristina Castro, com quem vivo a beleza e a poesia, dia a dia.