{"id":155,"date":"2009-09-11T21:34:33","date_gmt":"2009-09-12T00:34:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=155"},"modified":"2011-09-14T13:48:08","modified_gmt":"2011-09-14T16:48:08","slug":"bando-de-teatro-olodum","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2009\/09\/bando-de-teatro-olodum\/","title":{"rendered":"Bando de Teatro Olodum"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto escrito por Marcos Uzel<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>CRIA\u00c7\u00c3O<\/strong><br \/>\nO surgimento do Bando de Teatro Olodum na Cidade do Salvador, em outubro de 1990, contribuiu de forma expressiva para o fortalecimento de uma tem\u00e1tica social e pol\u00edtica na vida cultural baiana pelo vi\u00e9s do teatro. Com seu elenco formado por atores e atrizes negros, a companhia residente no Teatro Vila Velha manteve um elo com iniciativas anteriores de grande import\u00e2ncia cultural surgidas no Brasil, como o Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro Unificado Contra a Discrimina\u00e7\u00e3o Racial, o bloco afro-baiano Il\u00ea Aiy\u00ea e o pr\u00f3prio Grupo Cultural Olodum, que em paralelo \u00e0 formid\u00e1vel capacidade de expans\u00e3o de sua m\u00fasica no come\u00e7o dos anos 1990, passou a trabalhar com outras manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, aproximando-se das artes c\u00eanicas.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s do Bando, feridas escondidas foram expostas no palco para o p\u00fablico, utilizando a experi\u00eancia art\u00edstica como condutora do processo criativo. Sua produ\u00e7\u00e3o militante tornou-se teatralmente sustentada pelas m\u00e3os dos diretores fundadores Marcio Meirelles e Chica Carelli, do core\u00f3grafo Zebrinha e do diretor musical Jarbas Bittencourt. Eles formaram os alicerces que d\u00e3o base est\u00e9tica e de linguagem ao grupo e fortalecem a sua identidade art\u00edstica. O Bando atravessou 19 anos de trabalhos quase ininterruptos. Apresentou-se em v\u00e1rias cidades brasileiras, viajou para pa\u00edses como Inglaterra, Portugal e Angola, e solidificou uma hist\u00f3ria vigorosa dentro da produ\u00e7\u00e3o teatral de Salvador com repercuss\u00e3o nacional.<\/p>\n<p><strong>DRAMATURGIA<br \/>\n<\/strong>A dramaturgia s\u00f3lida do Bando de Teatro Olodum possui como foco principal as quest\u00f5es da afrodescend\u00eancia. Aliada \u00e0 releitura de cl\u00e1ssicos e \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de tem\u00e1ticas universais, tem como uma de suas bases mais vigorosas a capacidade de transformar em teatro o que existe de riqueza nos gestos, na sonoridade e nos significados de baianidade, sem esvaziar o conte\u00fado da realidade cotidiana do povo baiano. Seus temas transitam entre a beleza da vida (as elabora\u00e7\u00f5es corporais e sonoras enraizadas no carnaval, a for\u00e7a sagrada do candombl\u00e9, as cores e a vitalidade das ruas) e a urg\u00eancia de um posicionamento contundente sobre a pobreza, a marginalidade e o racismo.<\/p>\n<p>Esta postura c\u00eanica se manteve de forma coerente desde a cria\u00e7\u00e3o da companhia, que aprimorou a sua pesquisa de linguagem em constante di\u00e1logo com a popula\u00e7\u00e3o de Salvador, cidade onde o grupo nasceu e que sempre foi uma fonte e um espelho das suas cria\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O trabalho se consolidou como um instrumento eficaz de mobiliza\u00e7\u00e3o, fazendo da arte um fator de inclus\u00e3o social e atraindo um p\u00fablico, at\u00e9 ent\u00e3o, distante das plat\u00e9ias do teatro baiano. Do repert\u00f3rio do grupo surgiram mais de uma dezena de textos in\u00e9ditos. Entraram em cena trabalhos impag\u00e1veis, a exemplo das tr\u00eas pe\u00e7as da Trilogia do Pel\u00f4 (a inaugural Esta \u00e9 nossa praia, a cinematogr\u00e1fica \u00d3 pai, \u00f3! e a tragic\u00f4mica Bai bai Pel\u00f4, todas tendo o mundo v\u00e1rio, pitoresco e dram\u00e1tico do Pelourinho como fonte de inspira\u00e7\u00e3o) e o grande sucesso Cabar\u00e9 da Rrrrrra\u00e7a, um extraordin\u00e1rio fen\u00f4meno de popularidade na hist\u00f3ria do teatro baiano, em cartaz h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Atrav\u00e9s de sua dramaturgia, somada ao vigor c\u00eanico de seu elenco e diretores, o Bando desenvolveu um projeto de express\u00e3o coletiva de id\u00e9ias marcadas pelo posicionamento espont\u00e2neo, bem-humorado e reflexivo, firmando-se como a companhia teatral negra de maior visibilidade em a\u00e7\u00e3o nas artes c\u00eanicas baianas e uma das mais conhecidas e respeitadas do Brasil. Um prest\u00edgio nacional que lhe levou a garantir espa\u00e7o, tamb\u00e9m, no cinema e na televis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>FORMA\u00c7\u00c3O<br \/>\n<\/strong>Desde sua origem, o Bando se caracteriza pela voca\u00e7\u00e3o formadora. O espet\u00e1culo Zumbi Est\u00e1 Vivo e Continua Lutando, de 1995, \u00e9 um bom exemplo desta iniciativa. A superprodu\u00e7\u00e3o, apresentada ao ar livre, foi fruto de uma s\u00e9rie de oficinas que acabou por reunir, em cena, cerca de 150 adolescentes de diversos bairros pobres de Salvador numa grande homenagem a Zumbi dos Palmares, her\u00f3i da resist\u00eancia negra \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>A companhia tamb\u00e9m se caracteriza por promover oficinas relacionadas aos temas de suas montagens, o que permite o ingresso de novos integrantes. Al\u00e9m disso, realiza oficinas de interc\u00e2mbio pelos lugares por onde circula, apresentando seu m\u00e9todo de trabalho na cria\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos. Os integrantes do elenco tamb\u00e9m t\u00eam inclu\u00eddo em suas atividades constantes aulas de dan\u00e7a e m\u00fasica (percuss\u00e3o, canto etc).<\/p>\n<p>S\u00e3o, portanto, atores de muitas compet\u00eancias: dan\u00e7am, cantam, tocam, representam e produzem suas pe\u00e7as. Dentre os nomes formados pelo Bando est\u00e1 o de L\u00e1zaro Ramos, que estreou na companhia baiana em 1994, na pe\u00e7a Bai bai Pel\u00f4, ainda adolescente. Hoje, L\u00e1zaro \u00e9 um dos nomes mais prestigiados da nova gera\u00e7\u00e3o de artistas brasileiros, com atua\u00e7\u00f5es de grande destaque no cinema, no teatro e na televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Outro exemplo importante deste trabalho de forma\u00e7\u00e3o tem sido o F\u00f3rum Nacional de Performance Negra, cuja realiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma parceria entre o Bando de Teatro Olodum (BA) e a Cia. Dos Comuns (RJ), com patroc\u00ednio da Funarte e Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares. Palestras, debates, grupos de trabalho, oficinas e apresenta\u00e7\u00f5es de artistas de todo o Brasil dedicados \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o da cultura afrodescendente comp\u00f5em a programa\u00e7\u00e3o do evento.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da troca de experi\u00eancias sobre o desenvolvimento e a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica de est\u00e9tica negra, o f\u00f3rum prop\u00f5e a discuss\u00e3o a respeito de pol\u00edticas culturais, o mapeamento das atividades e dos grupos nacionais envolvidos na realiza\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas de matrizes negras e a cria\u00e7\u00e3o de alternativas de divulga\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas de est\u00edmulos \u00e0 continuidade destes trabalhos.<\/p>\n<p><strong>NO BRASIL E NO MUNDO<br \/>\n<\/strong>Depois de v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es pelo interior do estado, o Bando estreou com sucesso a sua primeira temporada fora da Bahia no Ver\u00e3o de 1992, no Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz durante um m\u00eas apresentando para o p\u00fablico carioca tr\u00eas pe\u00e7as do seu repert\u00f3rio. Era o in\u00edcio da bem-sucedida trajet\u00f3ria da companhia baiana longe das fronteiras de sua cidade natal.<\/p>\n<p>A primeira viagem ao exterior aconteceu em junho de 1996, quando o Bando pisou em Londres para apresentar Xir\u00ea \u2013 Er\u00ea pra toda a vida, um comovente espet\u00e1culo dedicado \u00e0s crian\u00e7as vitimadas pela Chacina da Candel\u00e1ria, no Rio, em 1993. A encena\u00e7\u00e3o integrou a programa\u00e7\u00e3o do Lift \u2013 London International Festival of Theatre, com boa repercuss\u00e3o na imprensa inglesa.<\/p>\n<p>Durante a \u00faltima d\u00e9cada, a trupe teatral baiana ganhou a estrada. Foi uma das atra\u00e7\u00f5es do prestigiado festival carioca Carlton Dance; lan\u00e7ou sua biografia em cidades como Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo; participou do Festival de Teatro de Curitiba, o mais importante do pa\u00eds; viajou em turn\u00ea por v\u00e1rias cidades do Nordeste; participou da Cena Lus\u00f3fona em Coimbra, Portugal; pisou nos palcos de Angola com o Cabar\u00e9 da Rrrrra\u00e7a e representou o Brasil na Copa da Cultura, na Alemanha, dentre outros eventos.<\/p>\n<p><strong>O REPERT\u00d3RIO<br \/>\n<\/strong>O farto repert\u00f3rio do Bando conta com mais de 25 montagens teatrais. Al\u00e9m dos textos assinados pela pr\u00f3pria companhia, re\u00fane tamb\u00e9m neste leque encena\u00e7\u00f5es inspiradas em grandes obras da dramaturgia universal, a exemplo dos espet\u00e1culos Woyzeck, Medeamaterial, \u00d3pera de Tr\u00eas Mirr\u00e9is e Um Tal de Dom Quixote. Algumas montagens permanecem at\u00e9 hoje no repert\u00f3rio do grupo, retornando com freq\u00fc\u00eancia a cartaz, sempre com expressivo n\u00famero de espectadores em suas temporadas. S\u00e3o elas:<\/p>\n<p><strong>\u00d3 Pai, \u00d3!<\/strong>: Um dos maiores \u00eaxitos da trajet\u00f3ria do Bando, com adapta\u00e7\u00f5es para o cinema e a televis\u00e3o. Tragic\u00f4mica, a pe\u00e7a centra foco na intimidade dos moradores que habitavam os corti\u00e7os do Maciel-Pelourinho, Centro Hist\u00f3rico de Salvador, no in\u00edcio dos anos 1990. Acaba por retratar um universo pitoresco e dram\u00e1tico, de onde sa\u00edram personagens de grande apelo popular, como o motorista de t\u00e1xi Reginaldo, o travesti Yolanda e a beata Dona Joana.<\/p>\n<p><strong>Cabar\u00e9 da Rrrrrra\u00e7a:<\/strong> Verdadeiro cart\u00e3o-postal do repert\u00f3rio da companhia. Tem como tema central a discuss\u00e3o sobre negritude e consumo, mesclando contund\u00eancia e bom humor. Concebido cenicamente como um misto de passarela de moda e talk-show televisivo, o Cabar\u00e9 discute quest\u00f5es de grande relev\u00e2ncia, a exemplo da discrimina\u00e7\u00e3o racial no trabalho, o direito \u00e0 liberdade religiosa e o mito da sexualidade negra.<\/p>\n<p><strong>Sonho de uma Noite de Ver\u00e3o:<\/strong> Inspirada no cl\u00e1ssico de William Shakespeare, a pe\u00e7a recebeu o Pr\u00eamio Braskem de Teatro na categoria melhor espet\u00e1culo adulto de 2006. O p\u00fablico se diverte com os personagens desta com\u00e9dia autenticamente marcada pela representa\u00e7\u00e3o embara\u00e7osa das loucuras do amor, numa viagem on\u00edrica pelo mundo das fadas, dos duendes e dos amantes deste saboroso enredo shakespeareano.<\/p>\n<p><strong>\u00c1fricas:<\/strong> Primeira montagem infanto-juventil do Bando de Teatro Olodum, entrou em cena sob a luz dos er\u00eas para mostrar ao p\u00fablico mirim a diversidade e a riqueza de signos do continente africano. Ao inv\u00e9s das habituais f\u00e1bulas e personagens euroc\u00eantricos dos textos dedicados \u00e0s crian\u00e7as, \u00c1fricas se nutre de contos da heran\u00e7a negra que atravessaram s\u00e9culos gra\u00e7as \u00e0 for\u00e7a da linguagem oral.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito por Marcos Uzel &nbsp; CRIA\u00c7\u00c3O O surgimento do Bando de Teatro Olodum na Cidade do Salvador, em outubro de 1990, contribuiu de forma expressiva para o fortalecimento de uma tem\u00e1tica social e pol\u00edtica na vida cultural baiana pelo vi\u00e9s do teatro. 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