{"id":160,"date":"2010-01-24T23:41:27","date_gmt":"2010-01-25T02:41:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=160"},"modified":"2011-09-13T23:45:17","modified_gmt":"2011-09-14T02:45:17","slug":"um-caso-para-se-olhar-com-atencao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2010\/01\/um-caso-para-se-olhar-com-atencao\/","title":{"rendered":"Um caso para se olhar com aten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto escrito pelo jornalista Francisco Viana, e publicado no portal Terra Magazine, em 24 de janeiro de 2010.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 na Bahia um caso de comunica\u00e7\u00e3o que merece reflex\u00e3o e, mais do que isso, tomada de posi\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio do governo de Jaques Wagner (PT), o Secret\u00e1rio de Cultura, M\u00e1rcio Meirelles, diretor teatral nacionalmente respeitado, vem sofrendo duras cr\u00edticas de parte da intelectualidade baiana e, como desdobramento, de parte da imprensa baiana. \u00c0 primeira vista, Meirelles \u00e9 um criador de caso. Na pr\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 nada disso. Meirelles tem personalidade, tem um prop\u00f3sito modernizante e capacidade de realiza\u00e7\u00e3o. Basta se analisar o que ele est\u00e1 levando \u00e0 pr\u00e1tica para constatar o \u00f3bvio: est\u00e1 sendo criticado pelas suas virtudes, n\u00e3o pelos seus defeitos.<\/p>\n<p>O que fez Meirelles? Defendeu a tese de que a cultura \u00e9 direito do cidad\u00e3o, uma quest\u00e3o de Estado e n\u00e3o ficou nas palavras. Onde antes predominava uma pol\u00edtica de privil\u00e9gios, centralizada em Salvador e em algumas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, passou a vicejar uma pol\u00edtica de democratiza\u00e7\u00e3o e descentraliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Com isso fortaleceu a participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, em seu conjunto, na produ\u00e7\u00e3o cultural, fomentou atividades culturais n\u00e3o apenas em Salvador, mas na Bahia inteira e institucionalizou as rela\u00e7\u00f5es entre os artistas e o Estado.<\/p>\n<p>Resultado, o Fundo de Cultura evoluiu do financiamento de 274 projetos para 1.143. H\u00e1 mais e mais gente indo ao teatro, muitos pela primeira vez, o carnaval do Pelourinho ganhou nova dimens\u00e3o, a cultura do interior est\u00e1 sendo resgatado, o di\u00e1logo do Estado com os munic\u00edpios e o governo federal vem refletindo o \u00eaxito de um pacto federativo que coloque cada um dos agentes p\u00fablicos nos seus devidos lugares. E o dinheiro p\u00fablico est\u00e1 sendo gasto com zelo. Tudo isso deveria ser reconhecido pelas pessoas que produzem cultura. Mas, a realidade \u00e9 que a mudan\u00e7a atingiu interesses cristalizados durante o carlismo e as rea\u00e7\u00f5es reverberam com o vitr\u00edolo da cr\u00edtica pessoal.<\/p>\n<p>Ing\u00eanuos ou n\u00e3o, os opositores n\u00e3o conseguem aquilatar a dimens\u00e3o da mudan\u00e7a que est\u00e1 acontecendo na Bahia. Lembram o triste personagem de Henrique II, de Shakespeare, que foi tragado pela sua incapacidade de exercer o poder. O defeito de Henrique II \u00e9 que n\u00e3o sabia ouvir a voz das ruas, ignorava os bons conselhos do povo. Faltava a ele talento pol\u00edtico. Meirelles, por sua vez, movimenta-se como Henrique V, tamb\u00e9m personagem de Shakespeare. Como Henrique V, sabe ouvir a voz das ruas, tem lideran\u00e7a, \u00e9 um homem do seu tempo. Tanto que com fatos tem vencido resist\u00eancias na m\u00eddia. Tornando vis\u00edvel o que vem realizando. O caso em quest\u00e3o traz a cena uma pergunta chave da atualidade: como fazer a comunica\u00e7\u00e3o num ambiente conservador em que os fatos s\u00e3o torcidos em fun\u00e7\u00e3o de interesses, n\u00e3o da realidade concreta?<\/p>\n<p>Por realidade concreta, entenda-se os fatos com os seus nexos hist\u00f3ricos. A Bahia \u00e9 uma sociedade singular: libert\u00e1ria nos costumes, conservadora na pol\u00edtica. No alvorecer da Rep\u00fablica, alinhou-se com o imp\u00e9rio. Era monarquista e assim permaneceu, mesmo quando aderiu ao republicanismo. Na d\u00e9cada de 30, ergueu a voz contra Get\u00falio e chegou a ensaiar uma alian\u00e7a com os paulistas na chamada Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932. Quando estourou a revolta, as elites baianas preferiram ficar em sil\u00eancio. N\u00e3o pegaram em armas. Mas, Get\u00falio acabou intervindo na Bahia e foi quando o tenente Juracy Magalh\u00e3es criou a sua pr\u00f3pria dinastia, tamb\u00e9m conservadora. E veio 1964. As elites n\u00e3o titubearam: deram as m\u00e3os aos militares e com eles ficaram de m\u00e3os entrela\u00e7adas. O carlismo \u00e9 filho dessa alian\u00e7a.<\/p>\n<p>Em todos os momentos, por\u00e9m, prevaleceu o liberalismo comportamental. Antonio Carlos Magalh\u00e3es conseguiu fazer da Bahia uma esp\u00e9cie de \u00e9den nacional nos anos de chumbo da Ditadura Medici. E, como no p\u00f3s levante comunista de 1935, a esquerda bateu em retirada, parte da esquerda. O seu exterm\u00ednio foi seletivo. Lamarca foi assassinado no sert\u00e3o da Bahia. Grassou a tortura. Tudo se passou como se existisse um mundo paralelo. O mito da liberalidade comportamental n\u00e3o foi arranhado. Pelo contr\u00e1rio, foi incentivado, enquanto as desigualdades cresciam e a pol\u00edtica clientelista grassava por toda parte, corroendo por dentro todo o aparelho de Estado. Foi uma \u00e9poca de coopta\u00e7\u00e3o em massa de empres\u00e1rios, artistas, pol\u00edticos, jornalistas. A \u00e1rvore dos privil\u00e9gios tornou-se frondosa. A comunica\u00e7\u00e3o alienante, por ser fantasiosa, predominou. O \u00e9den estava inundado de cinzas, mas o que se alimentava era a vis\u00e3o do para\u00edso terrestre. Manipulada a publicidade e a informa\u00e7\u00e3o, criou-se a sensa\u00e7\u00e3o de uma opini\u00e3o p\u00fablica favor\u00e1vel.<\/p>\n<p>A demoli\u00e7\u00e3o do carlismo foi ensaiada como a elei\u00e7\u00e3o de Waldir Pires, ainda na d\u00e9cada de 80, mas s\u00f3 se concretizou com Wagner. E, nesse momento, \u00e9 que a realidade das mudan\u00e7as come\u00e7aram se impor. Mais do que baiano, \u00e9 um fen\u00f4meno nacional. H\u00e1 uma emerg\u00eancia das classes populares, h\u00e1 uma crescente transpar\u00eancia dos gastos p\u00fablicos, h\u00e1 uma marcha efetiva da democratiza\u00e7\u00e3o dos investimentos p\u00fablicos. O velho Brasil est\u00e1 sendo ultrapassado. Um novo Brasil est\u00e1 nascendo. Um segmento da intelectualidade tem reagido. Quem l\u00ea os jornais pode verificar facilmente que a rea\u00e7\u00e3o ao governo Lula est\u00e1 na ordem do dia nos escritos de muita gente que tem uma hist\u00f3ria de esquerda e que se proclama democrata convicto. Lula faz a coisa certa: ignora as rea\u00e7\u00f5es, realiza. N\u00e3o entra em pol\u00eamicas, apresenta fatos. Fala com os jornalistas, mas fala tamb\u00e9m direto com a sociedade. \u00c9 uma comunica\u00e7\u00e3o objetiva, inteligente. Desqualifica os seus cr\u00edticos sistem\u00e1ticos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 a democracia? Para esses ep\u00edgonos, conscientes ou n\u00e3o do Brasil do passado, \u00e9 a tradicional democracia sem povo. Uma democracia crassa. Na Bahia a quest\u00e3o parece ser mais delicada porque nada indica que estejam em jogo quest\u00f5es ideol\u00f3gicas. O problema \u00e9 mais objetivo: os privil\u00e9gios que, junto com filhos n\u00e3o pr\u00f3digos de Henrique II, deixam o palco. Certamente, o caminho correto de uma boa comunica\u00e7\u00e3o nesses casos \u00e9 ignorar os que lutam por privil\u00e9gios. Responder ao que existe de critica real, objetiva, concreta. Deixar que as vi\u00favas dos privil\u00e9gios, falem e se cansem de falar.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es de governo, quando legitimas, s\u00e3o portadoras de vasta significa\u00e7\u00e3o para a opini\u00e3o p\u00fablica. Mais uma vez o caso de Lula \u00e9 emblem\u00e1tico: ele \u00e9 aplaudido no exterior, criticado sistematicamente por uma parte da intelectualidade midi\u00e1tica. A sociedade n\u00e3o se deixa enganar. Prova disso, s\u00e3o as elevados \u00edndices de popularidade do presidente. Caetano Veloso sintetizou essa oposi\u00e7\u00e3o crassa ao dizer que o presidente era analfabeto. Creio, toda pessoa de bom senso gostaria de ser &#8220;analfabeto&#8221; como o presidente, hoje um pol\u00edtico de proje\u00e7\u00e3o e reconhecimento mundial. Creio, tamb\u00e9m que essas pessoas de bom senso sabem que o analfabetismo \u00e9 uma responsabilidade da sociedade brasileira, n\u00e3o um dem\u00e9rito. Ou seja, \u00e9 alienante imaginar que se pode criticar algu\u00e9m com o argumento do analfabetismo. Mera opini\u00e3o. Com tal, fruto de um exerc\u00edcio narc\u00edsico. Isto para usar um termo elegante.<\/p>\n<p>Em Shakespeare n\u00e3o h\u00e1 claramente o conceito de opini\u00e3o publica, opini\u00e3o geral, esp\u00edrito publico. S\u00e3o temas que flutuam nas suas pe\u00e7as, revestidas de sens\u00edvel percep\u00e7\u00e3o do humano, mas que foram entronizados no cotidiano pela Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Entre n\u00f3s, estamos assistindo agora uma emerg\u00eancia concreta do papel da opini\u00e3o p\u00fablica, da opini\u00e3o geral e do esp\u00edrito p\u00fablico. Pela viv\u00eancia pr\u00e1tica, a sociedade est\u00e1 evoluindo para o saber p\u00fablico e isto significa que n\u00e3o se deixa enganar por palavras. Sabe quem s\u00e3o os lobos que se vestem na pele de cordeiro. O que de construtivo e estruturante est\u00e1 acontecendo na cultura baiana e em outros campos da vida do Estado logo vai se tornar vis\u00edvel. Exatamente como est\u00e1 se tornando vis\u00edvel a semeadura e as colheitas feitas pelo governo Lula. Nem Lula nem Wagner podem ser compreendidos fora do processo hist\u00f3rico. E a hist\u00f3ria do Brasil tem sido a da luta entre a exclus\u00e3o e a inclus\u00e3o. Em 1964, perdeu a inclus\u00e3o. A op\u00e7\u00e3o brasileira n\u00e3o era a democracia ou o comunismo, a democracia ou uma rep\u00fablica sindicalista. O que estava em jogo: era a maior ou menor inclus\u00e3o social. Hoje, a inclus\u00e3o est\u00e1 vencendo. O conservadorismo est\u00e1 sendo ultrapassado.<\/p>\n<p>Em suma, a quest\u00e3o que me parece atual \u00e9 exatamente esta: o que \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o numa democracia aut\u00eantica? Como lidar com os conflitos? Como fazer preponderar \u00e0 concretude dos fatos? Como eles s\u00e3o manipulados? A imprensa, se n\u00e3o quiser ingenuamente servir ao conservadorismo, precisa questionar onde come\u00e7a a velha doutrina de recorrer ao conceito de democracia para sufocar a democracia e o que \u00e9 realmente a cr\u00edtica real, alicer\u00e7ada em fatos reais, esta sim, o oxig\u00eanio do processo democr\u00e1tico. S\u00e3o quest\u00f5es para se olhar muito de perto. S\u00e3o quest\u00f5es que, ao serem respondidas, em muito ir\u00e3o contribuir para se deixar o Brasil velho no lugar de onde ele nunca dever\u00e1 sair: a lixeira da hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito pelo jornalista Francisco Viana, e publicado no portal Terra Magazine, em 24 de janeiro de 2010. &nbsp; H\u00e1 na Bahia um caso de comunica\u00e7\u00e3o que merece reflex\u00e3o e, mais do que isso, tomada de posi\u00e7\u00e3o. Desde o in\u00edcio do governo de Jaques Wagner (PT), o Secret\u00e1rio de Cultura,<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=160"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":162,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/160\/revisions\/162"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=160"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=160"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=160"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}