{"id":1787,"date":"2014-01-19T00:48:38","date_gmt":"2014-01-19T03:48:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=1787"},"modified":"2014-01-19T00:48:38","modified_gmt":"2014-01-19T03:48:38","slug":"um-teatro-em-dialogo-com-o-seu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2014\/01\/um-teatro-em-dialogo-com-o-seu-tempo\/","title":{"rendered":"UM TEATRO EM DI\u00c1LOGO COM O SEU TEMPO"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p><img title=\"Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber\" src=\"http:\/\/p2.trrsf.com.br\/image\/fget\/cf\/510\/0\/s1.trrsf.com\/blogs\/32\/files\/image\/Por-que-Hecuba-de-Matei-Visniec-por-Marcio-Meirelle-Foto-Joao-Kleber1.jpg\" alt=\"Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber\" width=\"510\" \/><\/p>\n<p>Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que venho questionando o teatro e sua necessidade\/import\u00e2ncia para a sociedade atual. Concordei com Ariane Mnouchkine, concordo com ela com muita frequ\u00eancia pois sua lucidez aliada a uma capacidade de an\u00e1lise e s\u00edntese s\u00e3o imbat\u00edveis, quando ela prop\u00f4s um plebiscito na Fran\u00e7a para saber se o povo franc\u00eas gostaria de continuar subsidiando a cultura. E sempre imaginei que se um dia \u2013 n\u00e3o temam, esse dia n\u00e3o chegar\u00e1 nunca, n\u00e3o estamos capacitados para esse tipo de debate \u2013 essa proposta fosse colocada em pr\u00e1tica no Brasil todos n\u00f3s que trabalhamos, direta ou indiretamente, com a cultura estar\u00edamos na rua da amargura e sem a dire\u00e7\u00e3o do Gabriel Villela \u2013 desculpem o\u00a0<em>private joke<\/em>\u00a0\u2013 para nos redimir. Pois a resposta do brasileiro m\u00e9dio seria, obviamente, dar uma banana para subs\u00eddios para a cultura. Afinal quando o teatro n\u00e3o cumpre seu papel social, n\u00e3o estabelece um di\u00e1logo permanente com o tempo presente, ele serve a que ou a quem? Os que fazem do teatro uma a\u00e7\u00e3o entre amigos est\u00e3o fadados a desaparecer, posto que teatro sem p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 teatro.<\/p>\n<p>Por isso me apaixona o movimento que se instalou no Teatro Vila Velha nesse \u00faltimo ano. O Teatro Vila Velha est\u00e1 formando n\u00e3o apenas homens e mulheres de teatro, mas formando um p\u00fablico. H\u00e1 dez dias fazendo portaria no teatro o vejo invadido por um pessoas que NUNCA foram ao teatro. E isso \u00e9 muito, muito mais importante do que qualquer modismo, principalmente se pensarmos que isso acontece em pleno ver\u00e3o baiano onde os psiricos e os siricuticos d\u00e3o as cartas do jogo. Se os soteropolitanos ainda n\u00e3o acordaram para o que se passa e se o eixo Rio-S\u00e3o Paulo ignora totalmente o que acontece, afinal Narciso acha feio o que n\u00e3o \u00e9 espelho, j\u00e1 dizia Caetano, posso afirmar que se passa algo muito importante nas salas da minha Cartoucherie Bahianaise.<\/p>\n<p>M\u00e1rcio Meirelles com mais de 40 anos de teatro e quase 60 anos de vida, antecipando as comemora\u00e7\u00f5es dos 50 anos do mais belo e importante teatro da Bahia (merecedor de um cap\u00edtulo especial na hist\u00f3ria do teatro brasileiro pelo papel de formador de grandes nomes da cena nacional) implementou um ritmo ensandecido de produ\u00e7\u00e3o e trabalho no Passeio p\u00fablico, local onde se situa o Vila, como chamamos aqui esse charmoso teatro.<\/p>\n<p>Com a cria\u00e7\u00e3o da &#8220;universidade LIVRE de teatro vila velha&#8221; \u2013 essa \u00e9 a grafia escolhida por eles \u2013 repudiando os c\u00e2nones das universidades estabelecidas, e aqui com todas as diferen\u00e7as que nos separam, pois que fa\u00e7o parte \u2013 com muita honra e orgulho \u2013 da Escola de Teatro de uma universidade tradicional, a Federal da Bahia, tenho que reconhecer que M\u00e1rcio est\u00e1 na origem de um movimento que certamente marcar\u00e1 a renova\u00e7\u00e3o do teatro soteropolitano. O tempo dir\u00e1.<\/p>\n<p>S\u00e3o 23 atores-aprendizes circulando diariamente no Vila Velha, ocupando todos os espa\u00e7os, e nas palavras de Tiago Querino ser ator da LIVRE, \u00e9 ser &#8220;ator bra\u00e7al, ator do Vila Velha. Ator em forma\u00e7\u00e3o o tempo todo na verdade.&#8221;.<\/p>\n<p>Esses meninos e meninas, compraram a ideia de M\u00e1rcio Meirelles e est\u00e3o em cena nesse momento em dois espet\u00e1culos diferentes:\u00a0<em>Espelho para cegos\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Por que H\u00e9cuba<\/em>, textos do romeno de express\u00e3o francesa Mat\u00e9i Visniec ainda pouco conhecido no Brasil mas reconhecido mundialmente como o novo Ionesco enquanto preparam a estreia para fevereiro de Frankenstein, da escritora inglesa Mary Shelley. E\u00a0<em>last but not least<\/em>, tr\u00eas deles: Claudio Varela, Jean Pedro e Yan Brito fazem uma participa\u00e7\u00e3o em\u00a0<em>Troilus e Cr\u00e9ssida<\/em>, espet\u00e1culo de formatura do XXVIII Curso Livre de Teatro da UFBA que nessa edi\u00e7\u00e3o contou com a dire\u00e7\u00e3o luxuosa de M\u00e1rcio Meirelles e a coordena\u00e7\u00e3o geral dessazinha que vos escreve.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o sou cr\u00edtica e portanto n\u00e3o vou comentar o resultado desse trabalho, os espet\u00e1culos. Para isso existe gente mais competente do que eu. Mas afirmo sem medo de errar: corram para assistir\u00a0<em>Por que H\u00e9cuba<\/em>. S\u00e3o apenas mais tr\u00eas dias de espet\u00e1culo: 20, 21 e 22 de janeiro.<\/p>\n<p><em>Por que H\u00e9cuba<\/em>\u00a0fala do &#8220;<em>teatro do absurdo do nosso tempo,\u00a0porque Mat\u00e9i Visniec, atualiza o cl\u00e1ssico grego de Eur\u00edpedes sobre a guerra de\u00a0Tr\u00f3ia, para falar da viol\u00eancia do tempo em que vivemos. O escritor prop\u00f5e\u00a0um voo sobre um humor triste.\u00a0Para o autor, a Tr\u00f3ia de nossos dias pode estar na B\u00f3snia, na Chech\u00eania,\u00a0em Beirute, na Som\u00e1lia, na S\u00edria ou em qualquer pa\u00eds repartido e\u00a0assombrado pelo espectro da guerra civil. Ou tamb\u00e9m, na vis\u00e3o do\u00a0encenador e diretor M\u00e1rcio Meirelles, em qualquer canto de qualquer\u00a0periferia do Brasil deste in\u00edcio de s\u00e9culo XXI.\u00a0A pe\u00e7a \u00e9 ambientada no Carnaval de Salvador, aonde os deuses do olimpo\u00a0v\u00eam se esconder e se divertir na farra dos camarotes, enquanto, no ch\u00e3o\u00a0da pra\u00e7a, H\u00e9cuba chora a dor universal das m\u00e3es que d\u00e3o \u00e0 luz carne para\u00a0canh\u00e3o.&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Minha colega Hebe Alves, grande atriz, educadora e diretora, afirmou na estreia que &#8220;<em>ver Chica Carelli atuar \u00e9 um presente<\/em>&#8220;. Eu assino embaixo. Mas n\u00e3o fa\u00e7o cr\u00edtica de espet\u00e1culos, apenas comento quando gosto e ignoro quando gosto, porque eu n\u00e3o gostar n\u00e3o significa nada al\u00e9m do fato de eu n\u00e3o ter gostado. Mas eu gosto muito de\u00a0<em>Por que H\u00e9cuba\u00a0<\/em>e gostar muito n\u00e3o significa que eu n\u00e3o veja algumas falhas. M\u00e1rcio \u00e9 um grande encenador, mas fez essa op\u00e7\u00e3o por estrear tr\u00eas espet\u00e1culos no espa\u00e7o de 30 dias, o que significa conceber e dirigir quase que simultaneamente tr\u00eas espet\u00e1culos, e ainda que conte com o aux\u00edlio luxuoso de atores com a experi\u00eancia de Chica Carelli no final sinto falta de trabalho de ator. H\u00e1 espet\u00e1culos lindos. Cenicamente dignos de pr\u00eamios. \u00c9 um encenador no seu auge de cria\u00e7\u00e3o e explos\u00e3o. Mas falta a paci\u00eancia para burilar. H\u00e1 a urg\u00eancia em produzir, sem o tempo necess\u00e1rio para gestar. E mais uma vez sou mnouchkiniana o tempo \u00e9 o \u00fanico luxo que o Th\u00e9\u00e2tre du Soleil se d\u00e1. Eu gostaria de ver todos esses espet\u00e1culos dessa safra 2013-2014 de M\u00e1rcio Meirelles com tempo para amadurecer. Discordo dessa l\u00f3gica de produzir para n\u00e3o difundir. Discordo de espet\u00e1culos que s\u00e3o produzidos para permanecer duas semanas em cena. Um espet\u00e1culo, do meu ponto de vista, precisa de tempo para existir. Mas respeito a op\u00e7\u00e3o do mo\u00e7o\u2026<\/p>\n<p>Confesso que vejo com esperan\u00e7a esse movimento que surge. Confesso tamb\u00e9m que sou sempre avessa ao que nasce sem planejamento, organiza\u00e7\u00e3o e disciplina. E M\u00e1rcio com seu lado artista muito forte parece renegar tudo isso. Somos opostos e superar isso no trabalho di\u00e1rio \u00e9 uma aventura. N\u00e3o tenho voca\u00e7\u00e3o para Poliana. Mas tor\u00e7o para que eles estejam certos e que do completamente<em>bord\u00e9lique\u00a0<\/em>nas\u00e7a algo de novo. Afinal, \u00e9 no m\u00ednimo um alento ver a garra com que esses meninos est\u00e3o trabalhando, numa cidade onde n\u00e3o h\u00e1 tradi\u00e7\u00e3o de teatro de grupo, onde a cultura do evento e da festa parece reger os caminhos, onde v\u00edcios seculares fortaleceram uma cultura baseada na pol\u00edtica de balc\u00e3o, onde o lema &#8220;farinha pouca meu pir\u00e3o primeiro&#8221; ainda \u00e9 defendido, ver um teatro onde existe uma produ\u00e7\u00e3o efervescente e que nas palavras do capit\u00e3o do navio \u00e9 um teatro que\u00a0<em>&#8220;n\u00e3o precisa de Malha\u00e7\u00e3o (alus\u00e3o a soap opera global), temos o Vila e nossa Tr\u00f3ia pra defender. Podemos cair, mas n\u00e3o pela for\u00e7a do inimigo, s\u00f3 pela nossa fraqueza\u2026. que \u00e0s vezes parece existir \u00e0s vezes n\u00e3o\u2026&#8221;.<\/em><\/p>\n<p>Por isso digo a voc\u00eas, corram ao Teatro Vila Velha, h\u00e1 algo de novo em gesta\u00e7\u00e3o; algo de novo que n\u00e3o rompe com o passado apenas por romper; algo de novo sendo feito em resposta a um vazio presente e que incomoda que quer fazer um teatro que seja mais do que a\u00e7\u00e3o entre amigos, exibi\u00e7\u00e3o de processos ou coisa que o valha. Para Deleuze resistir \u00e9 construir. No caso do novo Teatro Vila Velha, opor-se ao sistema estabelecido \u00e9 exatamente isso: resistir construindo. Afinal de contas opor-se a qualquer coisa deve surgir como consequ\u00eancia. Ser oposi\u00e7\u00e3o por ser oposi\u00e7\u00e3o, sem construir \u00e9 altamente insuficiente. V\u00e1 ao Vila, velho.<\/p>\n<p>Deixei para o fim as s\u00e1bias palavras de Mat\u00e9i Visniec sobre o lugar que pode e deve ocupar o teatro numa sociedade em pleno s\u00e9culo XXI:<\/p>\n<p><em>&#8220;A queda das ideologias deixa sim um vazio. Um vazio que a literatura, a cultura, o debate art\u00edstico podem preencher. \u00c9 certo que hoje n\u00e3o h\u00e1 uma ideologia dominante, salvo a ideologia ultraliberal que imp\u00f5e um modelo econ\u00f4mico que se est\u00e1 globalizando.\u00a0 O debate ideol\u00f3gico nos dias atuais \u00e9 muito pobre porque depois da queda da \u00faltima utopia planet\u00e1ria (a utopia comunista) n\u00e3o h\u00e1 outra utopia que fascine. A globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma utopia fascinante, nem sabemos bem o que \u00e9. O pensamento ultraliberal n\u00e3o entusiasma aos jovens, nem as massas. O pensamento econ\u00f4mico \u00fanico que afirma que os mercados podem solucionar tudo pela mec\u00e2nica da oferta e da demanda \u00e9 a mesma coisa, \u00e9 um pensamento que n\u00e3o pode excitar ningu\u00e9m, nem provocar efus\u00f5es ou entusiasmo da juventude.<\/em><\/p>\n<p><em>Estamos numa \u00e9poca de transi\u00e7\u00e3o, na busca de uma nova utopia, de um novo humanismo, de uma nova doutrina da generosidade. E, o debate liter\u00e1rio, cultural, precisamente, \u00e9 feito para isso, para tentar preencher esse vazio: esse vazio de ideias, esse vazio filos\u00f3fico, sociol\u00f3gico, ideol\u00f3gico. Penso que o teatro pode contribuir com isso, sobretudo agora, como lugar de encontro, como lugar de socializa\u00e7\u00e3o, como lugar de troca, como lugar de emo\u00e7\u00f5es coletivas, como lugar de debate, de experimenta\u00e7\u00e3o art\u00edstica e de busca de novas alternativas para escapar ao pensamento oficial ou \u00e0 pobreza ideol\u00f3gica. \u00a0<\/em><em>O teatro \u00e9 um lugar vivo onde pessoas vivas se encontram, onde as emo\u00e7\u00f5es podem ser fontes de inspira\u00e7\u00e3o e de reflex\u00e3o. Um espet\u00e1culo interessante pode marcar, por toda a vida, os jovens. Eu mesmo me formei na escola da literatura e da liberdade que emanava dos livros que lia dos espet\u00e1culos que assistia e das m\u00fasicas que escutava. Acho que precisamos hoje dessa vida teatral e cultural, uma vez que n\u00e3o h\u00e1 utopias dominantes e a \u00faltima fracassou estrepitosamente, deixando um campo de ru\u00ednas, pa\u00edses devastados, gera\u00e7\u00f5es sacrificadas, pessoas desencantadas e duzentos milh\u00f5es de mortos.&#8221;.<\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_907\"><a href=\"http:\/\/p2.trrsf.com.br\/image\/fget\/cf\/510\/0\/s1.trrsf.com\/blogs\/32\/files\/image\/Iana-Nascimento-e-Chica-Carelli-em-Por-que-Hecuba-Foto-Joao-Kleber.jpg\"><img title=\"Iana Nascimento e Chica Carelli em Por que Hecuba Foto Joao Kleber\" src=\"http:\/\/p2.trrsf.com.br\/image\/fget\/cf\/510\/0\/s1.trrsf.com\/blogs\/32\/files\/image\/Iana-Nascimento-e-Chica-Carelli-em-Por-que-Hecuba-Foto-Joao-Kleber.jpg\" alt=\"Iana Nascimento e Chica Carelli em Por que Hecuba Foto Joao Kleber\" width=\"510\" \/><\/a>Iana Nascimento e Chica Carelli em Por que Hecuba Foto Joao Kleber<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: right;\">artigo de DEOLINDA VILHENA publicado originalmente em 17\/01\/2014 no TERRA MAGAZINE<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/patchworkcultural\/blog\/2014\/01\/17\/um-teatro-em-dialogo-com-o-seu-tempo\/<\/span><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber N\u00e3o \u00e9 de hoje que venho questionando o teatro e sua necessidade\/import\u00e2ncia para a sociedade atual. 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