{"id":203,"date":"2011-08-29T13:18:00","date_gmt":"2011-08-29T16:18:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2011\/08\/a-nous-la-liberte-2\/"},"modified":"2012-02-21T11:17:01","modified_gmt":"2012-02-21T14:17:01","slug":"a-nous-la-liberte-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2011\/08\/a-nous-la-liberte-2\/","title":{"rendered":"\u00c0 NOUS LA LIBERT\u00c9"},"content":{"rendered":"<p><em><em>Texto de Marcio Meirelles, escrito originalmente em Salvador, em outubro de 1976, republicado no release de\u00a0divulga\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de desenhos\u00a0\u00c0 NOUS LA LIBERT\u00c9,\u00a0realizada no Instituto Cultural Brasil Alemanha,\u00a0entre 19 a 30 de outubro de 1997. publicado quase integralmente no jornal <\/em><\/em><strong>Tribuna da Bahia<\/strong><em>.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_81\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-81\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-81\" title=\"01\" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01-300x228.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"228\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01-300x228.jpg 300w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01-1024x779.jpg 1024w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01-170x130.jpg 170w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/08\/01.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-81\" class=\"wp-caption-text\">Abertura da exposi\u00e7\u00e3o<\/p><\/div>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>Eu nasci h\u00e1 muito tempo, n\u00e3o sei bem onde. Sei que meus desenhos mais antigos, que tenho guardados, foram feitos aos cinco anos. Provavelmente comecei bem antes. Antes mesmo de nascer. Comecei brincando e brincando continuei. Experimentei muito e de repente aprendi a dar sentido a essa brincadeira. A brincar outra vez com a mesma seriedade dos cinco anos, quando brincar era a \u00fanica coisa realmente importante. E quando isso aconteceu foi o princ\u00edpio do meu reencontro. Passei dois anos trancado num \u00fatero refazendo a vida e, em 1975, finalmente sa\u00ed do ovo. Rompi a casca e me atirei ao mundo pra mostrar a minha brincadeira: brincar com o mundo.<\/p>\n<p>\u201cVenha rever a cidade que a festa continua. Se embriague no meu sangue\u201d<sup>1<\/sup> \u2013 Assim foram convidados e assim compareceram e assim se embriagaram. Mostrei tudo. As entranhas. Meu lixo ocidental.<\/p>\n<ul>\n<li>Uso o lixo pra fazer o meu trabalho. Vomito tudo o que como: o caf\u00e9 da manh\u00e3, o dia a dia, e tudo que vejo na rua nas minhas andan\u00e7as sem pressa.<\/li>\n<li>Uso o que mais me conv\u00e9m pra expressar o que quero. Sou um pintor sem estilo.<\/li>\n<li>Acho que as coisas devem ser todas misturadas.<\/li>\n<li>Se arte \u00e9 vida, o espectador deve estar no centro.<\/li>\n<li>\u201cPeda\u00e7os de objetos velhos, recortes de jornais e outros materiais do g\u00eanero constituem os elementos que Marcio utilizou em seus trabalhos de colagem e arte ambiental.\u201d<\/li>\n<li>\u201cMarcio, que pinta, desenha, faz ambienta\u00e7\u00f5es, escreve poesia, cria coreografias e encena\u00e7\u00f5es \u00e9, enfim, o que um artista hoje deve ser.\u201d<\/li>\n<li>\u201cMarcio tem muitas ideias, sendo sua qualidade maior a fidelidade aos seus princ\u00edpios, que impede que se perca em floreios in\u00fateis.\u201d<sup>2<\/sup><\/li>\n<\/ul>\n<p>\u201cVenha rever a cidade que a festa continua&#8230;\u201d \u2013 Assim foram convidados e assim compareceram. \u201cUm bruxo cigano contou&#8230;\u201d\u00a0Desprendeu-se outro m\u00f3dulo da nave e parti por outra estrada que me levou a outros mares. Ao palco, \u00e0 passarela, \u00e0 tela.<\/p>\n<p>E o espet\u00e1culo continuou.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o trabalho em termos de quadro porque quadro \u00e9 uma coisa parada e sou muito irrequieto. Trabalho em termos de espet\u00e1culo mesmo. Meu trabalho \u00e9 uma fra\u00e7\u00e3o de tempo entre um antes e um depois. \u00c9 um momento da hist\u00f3ria que n\u00e3o come\u00e7a nem acaba ali. Mas a partir desse momento pode-se descobrir o que vir\u00e1 e o que passou. Por isso me interesso muito por hist\u00f3ria em quadrinhos que \u00e9 uma forma de fazer teatro sem atores e cinema sem dinheiro. Que \u00e9 uma linguagem \u00fanica, pr\u00f3pria, forte e brilhante de brincar e contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Recolhi-me outra vez e a partir de hist\u00f3ria em quadrinhos, publicidade e o art nouveau, descobri o tra\u00e7o. A linha.<\/p>\n<p>Agora, com uma linha pura, limpa sobre fundo branco, um certo toque de humor, um risinho entre dentes, conto hist\u00f3rias. Hist\u00f3rias de terror tecnol\u00f3gico. Este terror fe\u00e9rico que n\u00e3o tem nada a ver com a morbidez do g\u00f3tico. Alguma coisa como a ang\u00fastia deste s\u00e9culo, alegre, divertida, colorida. Com o peito de pl\u00e1stico, a boca de acr\u00edlico e os bra\u00e7os de neon nos atrai, encanta e amedronta.<\/p>\n<p>Um dia, no hemisf\u00e9rio norte da Am\u00e9rica, declararam independ\u00eancia. Independentes, ditaram sonhos, cresceram medos e resolvi comemorar 200 anos. Descobri ent\u00e3o, festejando, que seus s\u00edmbolos n\u00e3o s\u00e3o seus, s\u00e3o do mundo. S\u00e3o meus. Escrevi: \u00c0 nous la libert\u00e9 \u2013 desenhos para colorir. Alguns desenhos publicit\u00e1rios que contam como nos oferecem situa\u00e7\u00f5es ideais, como nos mentem, como os objetos declararam independ\u00eancia e controlam os destinos do homem. E vou mostrar isso com coca cola e cachorro quente. E depois, quando estiver entupido de coca cola, vou seguir viagem. Pra onde, n\u00e3o sei. Sem compromissos. Por sete mares, sem navio. Talvez v\u00e1 pra hollywood plantar um p\u00e9 de ara\u00e7\u00e1.<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><br \/>\n<strong>\u00c0 nous la libert\u00e9 \u2013 desenhos para colorir<\/strong><\/p>\n<p><strong><\/strong>Neste ano em que se comemora o bicenten\u00e1rio da independ\u00eancia dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, tive uma ideia \u2013 Vamos festejar. Comecei a contar Hist\u00f3ria, a hist\u00f3ria da independ\u00eancia dos objetos, criados inicialmente para servir ao homem, mas que, com o correr do tempo, ganharam dimens\u00f5es inesperadas e come\u00e7aram a comandar o espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Organizei meu caos. Apaixonei-me pela linha pura sobre grandes espa\u00e7os em branco \u2013 para colorir \u2013 e comecei a reinventar a publicidade oferecendo uma situa\u00e7\u00e3o rid\u00edcula contra cada situa\u00e7\u00e3o ideal que me apresentam no v\u00eddeo, nas revistas colorid\u00edssimas, nos out door. Deixei a cor aos cuidados do cliente que tem livre arb\u00edtrio mental para usar a que melhor lhe convier.<\/p>\n<p>Abandonei a trag\u00e9dia e ofere\u00e7o a tragicom\u00e9dia. Rindo \u00e9 mais f\u00e1cil engolir as coisas. Rindo e cantando. E sorrio entre dentes enquanto me debru\u00e7o no papel para fazer os meus rabiscos de terror tecnol\u00f3gico. Rabiscos muito bem feitos, por sinal.<\/p>\n<p>Escolhi a l\u00edngua inglesa para dar t\u00edtulo aos desenhos pelo que ela tem de onomatop\u00e9ico, de universal, de tecnol\u00f3gico, de hollywoodiano. De \u00f3bvio: por que falar outra l\u00edngua, se ingl\u00eas \u00e9 a l\u00edngua dos objetos? Eles falam <em>off \u2013 on \u2013 stop \u2013 start<\/em> \u2013 etc. Ent\u00e3o por que falar outra l\u00edngua, quando a corrente \u00e9 esta? Depois, nos USA se fala ingl\u00eas, sabia? E eles comemoram 200 anos de independ\u00eancia, sabia?<\/p>\n<p>Essa hist\u00f3ria dos objetos n\u00e3o come\u00e7a nem acaba aqui, nos desenhos. N\u00e3o sei onde come\u00e7aram nem onde v\u00e3o acabar. Talvez ainda fa\u00e7a uma centena mais, talvez acabe a\u00ed. Talvez eu pudesse contar essa hist\u00f3ria com somente um, mas preferi fazer esta s\u00e9rie que ser\u00e1 vista, ou n\u00e3o. N\u00e3o precisa ser vista, porque todo mundo v\u00ea TV ou pelo menos j\u00e1 viu uma revista ou um outdoor. E basta ter um pouco de cabe\u00e7a pra saber que tudo que se diz \u00e9 mentira, que as situa\u00e7\u00f5es ideais s\u00e3o rid\u00edculas e que os objetos n\u00e3o v\u00e3o salvar ningu\u00e9m. Muito pelo contr\u00e1rio. \u00c9 isto que digo nesta exposi\u00e7\u00e3o. Gargalhando.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><br \/>\n<sup>1\u00a0<\/sup>Texto do convite da primeira exposi\u00e7\u00e3o individual: Um bruxo cigano me contou. (1975, foyer do Teatro Castro Alves, Salvador\/BA).<br \/>\n<sup>2\u00a0<\/sup>Cita\u00e7\u00f5es de artigos de jornal, quando da exposi\u00e7\u00e3o mencionada.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de Marcio Meirelles, escrito originalmente em Salvador, em outubro de 1976, republicado no release de\u00a0divulga\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o de desenhos\u00a0\u00c0 NOUS LA LIBERT\u00c9,\u00a0realizada no Instituto Cultural Brasil Alemanha,\u00a0entre 19 a 30 de outubro de 1997. publicado quase integralmente no jornal Tribuna da Bahia. &nbsp; 1. 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