{"id":2098,"date":"2015-05-24T16:07:17","date_gmt":"2015-05-24T19:07:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=2098"},"modified":"2015-05-24T16:07:17","modified_gmt":"2015-05-24T19:07:17","slug":"harildo-deda-o-prazer-de-ser-ator","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2015\/05\/harildo-deda-o-prazer-de-ser-ator\/","title":{"rendered":"HARILDO DEDA: O PRAZER DE SER ATOR"},"content":{"rendered":"<div>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.cultura.ba.gov.br\/wp-content\/uploads\/2011\/11\/Harildo-D%C3%A9da.jpg\" alt=\"\" width=\"599\" height=\"382\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">entrevista publicada no jornal A TARDE &#8211; 30\/11\/1985<\/p>\n<p>Se cada ator n\u00e3o fosse uma pe\u00e7a \u00fanica, rara e insubstitu\u00edvel, ainda assim Harildo Deda o seria. \u00c9 um prazer v\u00ea-lo representar. Um prazer delicado e intenso, refinado. Ele \u00e9 um que conhece bem sua arte e sabe o que fazer dela: de seu corpo, de sua voz, de sua imagina\u00e7\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o ele extrai o melhor e entrega inteiro o fruto a plat\u00e9ia. Do papel-t\u00edtulo \u00e0 figura\u00e7\u00e3o sabe o que tirar de bom. Para ele n\u00e3o h\u00e1 pap\u00e9is menores porque \u00e9 um ator enorme.<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Hoje \u00e0 noite ele estr\u00e9ia, ao lado de outro monstro sagrado \u2013 Yumara Rodrigues \u2013 sob a dire\u00e7\u00e3o de Ewald Hackler, no Teatro Santo Ant\u00f4nio (Canela), \u00e0s 21:30h, <\/span><em style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Dias Felizes,<\/em><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\"> de Samuel Becket. Na pr\u00f3xima quarta-feira, dia 4, \u00e0s 18:30h, na Sala 5 da Escola de Teatro, sob a dire\u00e7\u00e3o de Wilson Melo, <\/span><em style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Canto do Cisne<\/em><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">, de Tchecov. Assim teremos Harildo Deda em sess\u00e3o dupla. Al\u00e9m disso, ele coordena o Curso Livre de Interpreta\u00e7\u00e3o, promovido pelo Departamento de Teatro da UFBA, e prepara a montagem de final do curso: <\/span><em style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">A D\u00e9cima Segunda Noite<\/em><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">, de Shakespeare. Aqui, Harildo fala de sua profiss\u00e3o, numa entrevista a M\u00e1rcio Meirelles.<\/span><\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Harildo, o que \u00e9 mentira, o que \u00e9 verdade num ator em cima de um palco?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong><\/strong><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">HD \u2013 Eu me pergunto sempre isso. Quando estou no palco, a satisfa\u00e7\u00e3o que sinto vem do prazer de ser moleque: de estar inventando coisas, acreditando nelas e vendo at\u00e9 que ponto as pessoas acreditam tamb\u00e9m, caem na coisa e fazem o jogo com a gente. Na realidade, tem um momento em que voc\u00ea n\u00e3o sabe mais se \u00e9 verdade ou mentira aquilo que est\u00e1 fazendo e sentindo, mas no momento em que o outro \u2013 o p\u00fablico \u2013 entra no jogo isso n\u00e3o importa mais, e aquela \u201cpe\u00e7a\u201d, que voc\u00ea estava pregando, deixa de ser uma \u201cpe\u00e7a\u201d para ser verdade. E a gente vai, continua, continua <\/span><em style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">ad infinitum<\/em><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">. O prazer que vem da\u00ed \u00e9 maior do que qualquer verdade ou mentira que tenha surgido.<\/span><\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Ent\u00e3o o prazer do ator \u00e9 enganar?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 At\u00e9 a si mesmo&#8230;<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Testar os limites de quanto pode enganar?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 De quanto pode enganar em fun\u00e7\u00e3o de uma coisa maior, que na realidade n\u00e3o sei bem o que seja. S\u00e3o estrat\u00e9gias que se usa para alcan\u00e7ar essa coisa. E, tamb\u00e9m, a gente faz isso pelo simples prazer de fazer.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><strong>MM \u2013 Por que uma pessoa se disp\u00f5e a ser ator? Que fun\u00e7\u00e3o um ator cumpre no mundo?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 Pra mim, esse \u00e9 um ponto de questionamento muito forte agora: o que \u00e9 ser ator? O que \u00e9 fazer teatro na Bahia, agora? O que pode acontecer a partir disso?<\/p>\n<p>Eu poderia tentar respostas bonitas mas, na minha cabe\u00e7a, ser ator \u00e9 uma coisa \u201cpirata\u201d. Acho que estou nisso por uma quest\u00e3o de continuidade. E encanta-me muito esse lado da profiss\u00e3o: ter a possibilidade de continuar mesmo quando voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 mais no palco ou n\u00e3o est\u00e1 mais aqui. Lembro-me de d\u2019Aversa, S\u00f4nia dos Humildes, Jo\u00e3o Augusto, o quanto eles deixaram pra mim e o quanto tenho que passar pro outro. A possibilidade de transmiss\u00e3o, ainda mais do que para o outro colega, para o p\u00fablico. A possibilidade de dizer que a vida pode ser melhor.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Uma das fun\u00e7\u00f5es do ator \u00e9 ser o elo entre um texto escrito e o ouvinte. Ele tem que dizer palavras que n\u00e3o foram escritas por ele e com as quais, \u00e0s vezes, ele n\u00e3o concorda e fazer com que as pessoas acreditem nelas como se fossem reais. Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de um ator com o autor, com o texto?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 Ao pegar um texto, minha preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 com o autor, mas com o que aquilo me diz. Meu trabalho \u00e9 transmitir para o p\u00fablico aquela id\u00e9ia, passando pelo meu filtro. \u00c9 uma besteira isso de \u201cn\u00e3o concordo com o que o personagem diz\u201d \u2013 devo encontrar coisas com que concorde no que ele diz, porque existe uma coisa maior, que \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o com os outros. E a\u00ed est\u00e1 uma coisa que eu acho muito importante em teatro, a rela\u00e7\u00e3o: eu n\u00e3o existo sem o outro. O ator n\u00e3o \u00e9 uma ilha, um foco de luz s\u00f3. Ele \u00e9 uma luz geral, junto com os outros.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Que mecanismos voc\u00ea usa para tornar verdadeiras as palavras?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 As palavras s\u00e3o apenas o come\u00e7o, a partitura que vai passar por certas cordas aqui dentro, que tem muito mais a ver com a emo\u00e7\u00e3o do que com a cabe\u00e7a, mais com os nervos, a vibra\u00e7\u00e3o, do que com o intelecto. Essas palavras s\u00e3o como uma vibra\u00e7\u00e3o que passa atrav\u00e9s de cordas fazendo-as soar.<\/p>\n<p>Durante muito tempo, principalmente quando se come\u00e7ou a fazer Brecht aqui na Bahia, a palavra era o importante e era como se estivesse fora do ator, era como se fosse uma coisa somente mental; o corpo, o resto n\u00e3o tinha nada a ver com a hist\u00f3ria. Era s\u00f3 aquela coisa fora, distante.<\/p>\n<p>Eu acho que mesmo um texto brechtiano deve passar por essas cordas todas e faz\u00ea-las vibrar. S\u00f3 assim pode-se escutar o som, e ele sai diferente conforme seja a pessoa que o esteja dizendo. Ainda que sejam as mesmas palavras, o mesmo papel.<\/p>\n<p>O ator tem que se emocionar todas as noites, todos os dias, para o prazer da plat\u00e9ia ou isto se transforma numa t\u00e9cnica, num mecanismo qualquer, que n\u00e3o tem a ver com o teatro. O ator tem que estar preparado, ter um aprendizado t\u00e9cnico para deixar que a emo\u00e7\u00e3o chegue todas as noites, tem que ser como um instrumento bem afinado. Muitas vezes a emo\u00e7\u00e3o falha mas, em regra, deve vir porque todas as noites pelo menos uma das partes do espet\u00e1culo \u00e9 nova, a plat\u00e9ia. Tudo depende da prepara\u00e7\u00e3o do ator, deixar o corpo livre para que ela venha.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Como \u00e9 que surge um personagem? Como \u00e9 que voc\u00ea inventa ser uma pessoa que n\u00e3o \u00e9?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 O primeiro est\u00edmulo \u00e9 a pr\u00f3pria palavra, o texto escrito. Agora, como surge o personagem&#8230;\u00a0 \u00c0s vezes ele \u00e9 dif\u00edcil de surgir, outras, vem na hora e n\u00e3o posso nem colocar o dedo onde ele come\u00e7ou, de onde partiu. \u00c0s vezes o personagem vem inteiro a partir de um detalhe, uma voz.<\/p>\n<p><strong style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">MM \u2013 Existe, no folclore do teatro, a famosa frase \u201cainda n\u00e3o encontrei meu personagem\u201d. Voc\u00ea acha que ele \u00e9 encontrado ou constru\u00eddo?<\/strong><\/p>\n<p>HD \u2013 Encontrar pressup\u00f5e que ele exista pronto e certo\u00a0 em\u00a0 algum lugar, \u00e9 s\u00f3 alcan\u00e7ar e vestir. Eu n\u00e3o acredito nisso. Acho que ele \u00e9 constru\u00eddo. Mas para isso \u00e9 preciso que voc\u00ea permita se reconstruir de v\u00e1rias formas diferentes para ser os personagens diferentes. Assim, se o teatro n\u00e3o serve pra nada, pelo menos serve para um crescimento pessoal. Nessa reconstru\u00e7\u00e3o pessoal tem-se a possibilidade de se conhecer mais e se resolver melhor. \u00c9 t\u00e3o fascinante conhecer certas facetas de voc\u00ea mesmo. O leque de probabilidades de um ator se resolver \u00e9 bem maior do que o das outras pessoas. \u00c9 claro que na profiss\u00e3o existe um outro lado que dificulta muito isso e torna as pessoas neur\u00f3ticas, mas prefiro pensar nesse que \u00e9 mais sadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>entrevista publicada no jornal A TARDE &#8211; 30\/11\/1985 Se cada ator n\u00e3o fosse uma pe\u00e7a \u00fanica, rara e insubstitu\u00edvel, ainda assim Harildo Deda o seria. \u00c9 um prazer v\u00ea-lo representar. Um prazer delicado e intenso, refinado. 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