{"id":2377,"date":"2014-10-09T22:39:00","date_gmt":"2014-10-10T01:39:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=2377"},"modified":"2014-10-09T22:50:54","modified_gmt":"2014-10-10T01:50:54","slug":"o-palco-do-teatro-vila-velha-como-campo-de-batalha","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2014\/10\/o-palco-do-teatro-vila-velha-como-campo-de-batalha\/","title":{"rendered":"O palco do Teatro Vila Velha como campo de batalha"},"content":{"rendered":"<h2><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.agendartecultura.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/pecaboosnia-347x176.jpg\" alt=\"\" width=\"347\" height=\"176\" \/><\/figure>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p style=\"text-align: right;\" dir=\"ltr\">Por Jo\u00e3o Bertonie<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Em nenhum outro teatro da cidade o p\u00fablico fica t\u00e3o pr\u00f3ximo dos atores quanto no Vila Velha. Em sua concep\u00e7\u00e3o moderna de palco, que pode lembrar as arenas romanas, os dramas das personagens no teatro s\u00e3o vividos fisicamente junto \u00e0s pessoas da plateia, que podem ficar a menos de dois metros dos atores. Talvez por causa dessa proximidade f\u00edsica, o p\u00fablico da estreia da pe\u00e7a \u201cDo Sexo da Mulher como Campo de Batalha na Guerra da B\u00f3snia\u201d, ocorrida da \u00faltima ter\u00e7a-feira, 07, tenha sa\u00eddo do Vila emocionado, tocado pela brutalidade da viol\u00eancia humana tratada no espet\u00e1culo.<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A viol\u00eancia que parece inata ao homem e assume tons berrantes no caos da guerra \u00e9 um tema recorrente nos textos de Mat\u00e9i Visnec, jornalista e dramaturgo romeno. Tendo seu trabalho montado pela quarta vez por M\u00e1rcio Meirelles, que acrescentou os termos \u201cdo sexo\u201d e \u201cguerra da b\u00f3snia\u201d no t\u00edtulo original (\u201cA Mulher como Campo de Batalha\u201d), Visnec, considerado o mais desconcertante dramaturgo romeno desde Ionesco (1909 \u2013 1994), costuma investigar as consequ\u00eancias das guerras vividas pelos pa\u00edses do Leste Europeu no fim do s\u00e9culo passado. O autor, por\u00e9m, nunca se at\u00e9m somente \u00e0 perspectiva crua e pol\u00edtica da situa\u00e7\u00e3o, debru\u00e7ando-se tamb\u00e9m nas quest\u00f5es humanas que dizem respeito a conflitos como a Guerra da B\u00f3snia (1992 \u2013 1995), o que pode ser observado na fam\u00edlia desconstru\u00edda de \u201cA Palavra Progresso Soava Terrivelmente Falsa na Boca de Minha M\u00e3e\u201d e nas duas mulheres feitas em frangalhos pela guerra em \u201cA Mulher como Campo de Batalha\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">KATE E DORRA COMO CAMPO DE BATALHA<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Com a discuss\u00e3o de temas como limpeza \u00e9tnica, sentimento nacionalista e viol\u00eancia contra mulher, o espet\u00e1culo trata, em pouco menos de uma hora e meia, a hist\u00f3ria da conviv\u00eancia de duas mulheres: Kate (Gilza Vasconcelos), uma americana que foi \u00e0 Europa Oriental para auxiliar a escavar valas no ch\u00e3o b\u00f3snio, ao fim da guerra; e Dorra (Iana Nascimento), uma mulher local que foi violentada por um grupo \u00e9tnico inimigo. Conhecemos ambas quando elas est\u00e3o numa esp\u00e9cie de hospital, a primeira tentando cuidar da segunda. As duas mulheres foram cruelmente afetadas pela guerra e ao longo da encena\u00e7\u00e3o descobrimos sobre suas hist\u00f3rias e personalidades, enquanto elas conversam, se desentendem e se reconciliam.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A forma rela\u00e7\u00e3o entre as duas pode ser demonstrada com o seguinte trecho: \u201cBom dia, Dorra. Eu trouxe as fotos de Boston, quer ver? Eu vou deix\u00e1-las a\u00ed e voc\u00ea pode v\u00ea-las quando quiser. Se voc\u00ea quiser, eu te mostro\u2026\u201d Esta fala, apesar de aparentemente banal, torna-se significativa no cen\u00e1rio da B\u00f3snia p\u00f3s-guerra. \u00c9 uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o que Kate faz \u00e0 Dorra. Por\u00e9m, os elementos c\u00eanicos do texto parecem sugerir que esta tentativa est\u00e1 fadada ao fracasso: as duas mulheres, em grande parte da pe\u00e7a, est\u00e3o separadas por uma cortina branca, a luz incindindo sempre sobre s\u00f3 uma delas.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A superioridade imperialista que, por vezes, sentimos em Kate \u2013 personagem que quando crian\u00e7a aprendeu que a Europa n\u00e3o \u00e9 mais do que um punhado de \u201cpedras velhas\u201d -, e a \u201cpropuls\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie\u201d, do grupo \u00e9tnico do qual Dorra faz parte, segregam as duas personagens de forma quase definitiva. \u201cO Ocidente n\u00e3o honrou suas promessas, o Ocidente \u00e9 uma prostituta!\u201d, grita Dorra, a mulher violentada, no que parece ser um desabafo do pr\u00f3prio Mat\u00e9i Visniec.<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_3230\"><a href=\"http:\/\/www.agendartecultura.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/pecabosnia5.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.agendartecultura.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/pecabosnia5-1024x678.jpg\" alt=\"Fotos: Nat\u00e1cia Guimar\u00e3es\" width=\"614\" height=\"407\" \/><\/a>Fotos: Nat\u00e1cia Guimar\u00e3es<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">VIOL\u00caNCIA CONTRA A MULHER<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">Talvez o momento mais angustiante de todo o espet\u00e1culo seja quando \u00e9 revelado que Dorra est\u00e1 gr\u00e1vida, em consequ\u00eancia do estupro coletivo que sofreu. \u201cEle me d\u00f3i, me devora por dentro. Eu n\u00e3o aguento mais, Kate!\u201d \u00e9 s\u00f3 um dos gritos da b\u00f3snia que impactaram o p\u00fablico do Vila Velha. Diante desta trag\u00e9dia, a americana parece tentar convenc\u00ea-la a entregar-lhe a crian\u00e7a, no que Dorra responde, lac\u00f4nica: \u201cEu n\u00e3o vou lhe dar este filho, Kate. Eu prefiro mil vezes v\u00ea-lo morto do que entreg\u00e1-lo aos Estados Unidos!\u201d.<\/span><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A enorme viol\u00eancia que faz Dorra de v\u00edtima dialoga com a situa\u00e7\u00e3o feminina em v\u00e1rias partes do mundo. O Brasil n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente da B\u00f3snia em guerra no que diz respeito a isso, \u00e9 o que pensa Iana Nascimento. Para construir sua personagem, a atriz se baseou \u00a0em pessoas pr\u00f3ximas \u00e0 ela que j\u00e1 sofreram viol\u00eancia semelhante a que sofreu a protagonista do espet\u00e1culo e em depoimentos de mulheres b\u00f3snias. \u201cOs relatos das mulheres que foram estupradas e at\u00e9 escravizadas na B\u00f3snia s\u00e3o muito fortes\u201d, acrescenta.<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">Estima-se que, durante a Guerra da B\u00f3snia, cerca de 20.000 a 50.000 mulheres foram violentadas, segundo pesquisas da organiza\u00e7\u00e3o Relembrando Srebrenica. Naquele contexto, como \u00e9 lembrado em certo ponto do espet\u00e1culo, o estupro era usado como estrat\u00e9gica militar: \u201cNada pode desmoralizar mais o seu inimigo do que violar sua mulher\u201d.<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A atriz Giza Vasconcelos concorda com sua colega de cena quando diz que as brasileiras, ainda que n\u00e3o vivam sob a sombra de amea\u00e7as de guerra como na B\u00f3snia, passam por situa\u00e7\u00f5es t\u00e3o violentas quanto \u00e0s b\u00f3snias. \u201cA mulher \u00e9 violada aqui no Brasil como em qualquer outro lugar e a\u00ed quando voc\u00ea para pra analisar um conflito como esse, voc\u00ea v\u00ea como isso acontece aqui do lado e que \u00e9 um assunto que a gente precisa conversar\u201d, defende a int\u00e9rprete de Kate. Gilza ainda defende uma \u201ctomada de consci\u00eancia\u201d, necess\u00e1ria para a reflex\u00e3o deste tema aqui no Brasil. Apesar de n\u00e3o haver aqui casos de mulheres que s\u00e3o vendidas por ma\u00e7os de cigarros, como acontece com uma personagem de \u201cA Palavra Progresso da Boca da Minha M\u00e3e\u2026\u201d, o panorama no nosso pa\u00eds, na opini\u00e3o da atriz, \u00e9 algo que \u201cdevemos estar atentos\u201d.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">PREPARA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Pesquisar sobre a guerra da B\u00f3snia e a viol\u00eancia contra a mulher, estudar o trabalho de Mat\u00e9i Visniec, procurar refer\u00eancias para a constru\u00e7\u00e3o das personagens, ensaiar o dif\u00edcil e longo texto do dramaturgo romeno, pensar nas interven\u00e7\u00f5es c\u00eanicas e nos complexos recursos multim\u00eddia. Tudo isso poderia levar um esfor\u00e7o de, pelo menos, um ano. Mas o surpreendente \u00e9 que o texto de Visniec foi trabalhado e levado ao palco do Teatro Vila Velha em um tempo de apenas dois meses. \u201cFoi muito intenso\u201d, afirma, entre risos, Gilza Vasconcelos.<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">A atriz diz que a obra do autor romeno, muito apreciada por M\u00e1rcio Meirelles e por v\u00e1rios outros diretores brasileiros nos \u00faltimos anos, era algo que o diretor sempre quis trabalhar, mas ainda n\u00e3o tinha podido pelo time de atores do Vila estar envolvido em outros projetos da Universidade Livre. \u201cFoi um processo corrido: a gente terminou \u201cJango, uma Tragedya\u201d, que foi em comemora\u00e7\u00e3o dos 50 anos do teatro, e a\u00ed M\u00e1rcio veio com a proposta do texto\u201d, afirma Giza.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.agendartecultura.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/pecabosnia2.jpg\"><img loading=\"lazy\" src=\"http:\/\/www.agendartecultura.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/pecabosnia2-1024x678.jpg\" alt=\"\" width=\"614\" height=\"407\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p dir=\"ltr\">ACESSIBILIDADE<\/p>\n<p dir=\"ltr\">O espet\u00e1culo aconteceu com a participa\u00e7\u00e3o do Teatro Para Sentir, projeto de acessibilidade que garante a inclus\u00e3o de pessoas com defici\u00eancia por meio de audiodescri\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o em libras. Um n\u00famero significativo de deficientes visuais e auditivos estava presente na estreia e p\u00f4de prestigiar o intenso trabalho das atrizes e do diretor. \u201cComo tem muito texto e muito di\u00e1logo, a \u00e1udio-descri\u00e7\u00e3o foi menor. A interven\u00e7\u00e3o foi pequena, mas o dispositivo ajudou a compreender muito bem a pe\u00e7a\u201d, disse Ednilson Sacramento, estudante de jornalismo e deficiente visual, ao fim do espet\u00e1culo.<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u201cDo Sexo da Mulher como Campo de Batalha na Guerra da B\u00f3snia\u201d estreou com curta temporada de duas semanas e seis encena\u00e7\u00f5es. As apresenta\u00e7\u00f5es ocorrem \u00e0s ter\u00e7as, quartas e quintas, sempre \u00e0s 20h, no palco principal do Teatro Vila Velha.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" dir=\"ltr\">Postado originalmente em\u00a0<span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">9 de\u00a0<\/span><span style=\"font-size: 13px; line-height: 19px;\">outubro, 2014 &#8211; no AGENDA ARTE E CULTURA UFBA<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\" dir=\"ltr\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"ofwQSxKRsL\"><p><a href=\"https:\/\/www.agendartecultura.com.br\/teatro\/palco-teatro-vila-velha-campo-batalha\/\">O palco do Teatro Vila Velha como campo de batalha<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"Post do WordPress incorporado\" src=\"https:\/\/www.agendartecultura.com.br\/teatro\/palco-teatro-vila-velha-campo-batalha\/embed\/#?secret=ofwQSxKRsL\" data-secret=\"ofwQSxKRsL\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p dir=\"ltr\">\n<p dir=\"ltr\">\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Por Jo\u00e3o Bertonie Em nenhum outro teatro da cidade o p\u00fablico fica t\u00e3o pr\u00f3ximo dos atores quanto no Vila Velha. 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