{"id":2572,"date":"2018-05-05T20:38:38","date_gmt":"2018-05-05T23:38:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=2572"},"modified":"2018-05-05T20:39:04","modified_gmt":"2018-05-05T23:39:04","slug":"os-20-anos-do-cabare","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2018\/05\/os-20-anos-do-cabare\/","title":{"rendered":"OS 20 ANOS DO CABAR\u00c9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\">\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em style=\"text-align: left;\">CORREIO DA BAHIA:<\/em><\/p>\n<p><em>As quest\u00f5es levantadas em Cabar\u00e9 da Ra\u00e7a continuam atuais, mesmo ap\u00f3s 20 anos. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 bom ou ruim? Por qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>MARCIO MEIRELLES:<\/p>\n<p>As quest\u00f5es levantadas continuam atuais. O modo como o Brasil e o mundo tem reagido a elas \u00e9 q tem mudado. Mtas coisas aconteceram, o sistema de cotas nas universidades deu os resultados esperados com mais negros ocupando lugares onde antes n estavam, repensando e reescrevendo sua hist\u00f3ria, registrando suas inquieta\u00e7\u00f5es, redefinido sua constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria, influenciando a academia e a sociedade atrav\u00e9s de discursos pr\u00f3prios, fazendo pesquisas e levantando dados antes camuflados. Ocuparam o seu \u201clugar de fala\u201d. O brasil teve um governo com um projeto pol\u00edtico q mudou a face econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds e efetivamente promoveu uma inclus\u00e3o social e racial, ainda q n tanto qto precisamos e desejamos. Depois tivemos um golpe. Amea\u00e7as de retrocesso e a\u00e7\u00f5es efetivas q jogam por terra mtas conquistas da sociedade. As igrejas evang\u00e9licas se misturam c o poder secular, numa promiscuidade de poderes perigosa, q aponta p um Estado fundamentalista. O q significa o outro lado da moeda. A terr\u00edvel tempestade depois dos tempos luminosos. E n s\u00f3 no Brasil. O mundo tb sofreu mtas transforma\u00e7\u00f5es: o onze de setembro, Obama, Trump, o racismo e a intoler\u00e2ncia religiosa, cultural e racial. As mulheres conquistam seu espa\u00e7o a cada dia e continuam sendo vitimas de crimes mis\u00f3ginos e machistas. A comunidade LGBT se organiza politicamente e tem em troca cada vez mais agress\u00f5es&#8230;. estamos vivendo um momento mto dif\u00edcil. Como isso tudo passa pelos atores, por mim, Zebrinha, Jarbas, Chica, pelo Teatro Vila Velha e sobe ao palco num espet\u00e1culo q foi criado h\u00e1 20 anos, qdo mtas dessas coisas ainda n tinham acontecido? Mas o racismo \u00e9 imut\u00e1vel&#8230; continua atuando pq \u00e9 um dos sintomas do capitalismo, da sociedade fren\u00e9tica de consumo e competi\u00e7\u00e3o. Destruir o outro, o mais fragilizado pela hist\u00f3ria, \u00e9 um ponto. Ent\u00e3o a consci\u00eancia da comunidade negra \u00e9 manipulada pela cren\u00e7a evang\u00e9lica por um lado, o lado da f\u00e9 e passam a demonizar suas heran\u00e7as culturais. E por outro, o lado da emo\u00e7\u00e3o, pela m\u00eddia \u2013 q funde realidade e fic\u00e7\u00e3o numa dramaturgia magistral, digna de todos os te\u00f3ricos fascistas q criaram o mito da ra\u00e7a pura germ\u00e2nica ou o esplendor do american way of life babarem de inveja. E essa manipula\u00e7\u00e3o nos traz de volta uma frase de Paulo Freire: \u201cQdo a educa\u00e7\u00e3o n \u00e9 libertadora, o sonho do oprimido \u00e9 ser o opressor\u201d. Ent\u00e3o recebemos pelo peito uma reforma do ensino m\u00e9dio q nos leva exatamente para esse lugar de n liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>Em 20 anos, muita coisa mudou em rela\u00e7\u00e3o ao debate sobre o racismo e esse debate se ampliou muito. Se fosse montar Cabar\u00e9, hoje, acrescentaria um tipo novo? Ou essa galeria de personagens d\u00e1 conta do que se pretende falar?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>Realmente as mudan\u00e7as foram muitas nestes 20 anos. Mta coisa foi alterada no texto. Especialmente no bloco q fala sobre as rela\u00e7\u00f5es da m\u00eddia publicidade e dramaturgia, especialmente na televis\u00e3o e cinema. Nisto realmente houve um grande avan\u00e7o. Por exemplo, os atores do Bando protagonizaram as vers\u00f5es para cinema e TV de nossa <em>\u00d3 Pa\u00ed, \u00f3!<\/em> e L\u00e1zaro Ramos, que coincidentemente fazia o discurso sobre isso na primeira montagem, se tornou um dos atores mais influentes do Brasil.<\/p>\n<p>A pe\u00e7a d\u00e1 conta do q uma pe\u00e7a de teatro pode dar: mover, comover, mexer nas consci\u00eancias, fazer refletir e principalmente lembrar as pessoas do q viram e ouviram no teatro. Mtas pessoas me dizem: lembrei de sua pe\u00e7a, aconteceu isso ou aquilo, como no teatro. Ou j\u00e1 ouvi: rapaz, descobri q sempre fui racista, minha fam\u00edlia \u00e9 racista e n sabia&#8230; tenho q rever muitas coisas. Isso me deixa feliz.<\/p>\n<p>Por outro lado, gostaria de modificar a pe\u00e7a incluir outras coisas&#8230; mas \u00e9 mto dif\u00edcil. A pe\u00e7a tem uma estrutura mto fechada dramaturgicamente. Mexer em alguma coisa vai acabar levando a modificar muita coisa. Quase q fazer uma outra pe\u00e7a&#8230; podemos at\u00e9 fazer. Mas vamos deixar <em>Cabar\u00e9 <\/em>como ela \u00e9.<em><\/em><\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>O que, ao longo desses 20 anos, foi se modificando na pe\u00e7a e o que se manteve em sua ess\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>Algumas pequenas coisas foram alteradas. Principalmente o bloco da m\u00eddia, como j\u00e1 falei, e aquelas cenas ou personagens q passaram a ser feitas por outros atores, q substitu\u00edram os q os faziam na primeira montagem ou nas subsequentes, substituindo os primeiros. Teve personagem inicialmente representada por uma atriz q j\u00e1 foi feita por um ator, o q nos obrigou a altera\u00e7\u00f5es q levassem em conta o g\u00eanero etc&#8230; Mas nada substancial. Em sua ess\u00eancia <em>Cabar\u00e9 da Rrrrra\u00e7a <\/em>(com 5 Rs, sugerindo um rugido) se mant\u00e9m um espet\u00e1culo \u201cdid\u00e1tico, panflet\u00e1rio e interativo\u201d, montado a partir das estruturas dramat\u00fargicas dos talking shows, desfiles e pe\u00e7as de cabar\u00e9 ou de revista.<\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e3o preparando alguma novidade para essa temporada comemorativa de 20 anos? Cabar\u00e9 trar\u00e1 algo de novo?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>Basicamente o figurino q sempre muda. Com o apoio de designers de moda baianos. Faz um tempo q resolvemos nos associar a este movimento importante da economia da cultura na Bahia: a moda e seus fazedores, especialmente os negros, q tem proposto muitas viradas pol\u00edticas no costume de vestir. Esses artistas empres\u00e1rios t\u00eam apoiado as v\u00e1rias vers\u00f5es do figurino: o branco, o preto, o vermelho e esse agora.<\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>Para voc\u00ea, o que explica a for\u00e7a e a vitalidade de Cabar\u00e9 da Ra\u00e7a, j\u00e1 que \u00e9 muito dif\u00edcil manter um espet\u00e1culo tanto tempo em cartaz, principalmente sem patroc\u00ednio?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>Nosso principal patrocinador tem sido o p\u00fablico, q mostra sua aprova\u00e7\u00e3o em seu investimento na bilheteria. A for\u00e7a e a vitalidade de <em>Cabar\u00e9<\/em> est\u00e3o em sua forma e conte\u00fado. Criamos um debate bem humorado sobre um assunto mto duro pq teatro pega pela emo\u00e7\u00e3o p entrar na raz\u00e3o e desestabilizar verdades consolidadas por um grupo social ou por uma \u00e9poca. Teatro tem um modo pr\u00f3prio de tocar \u201ca consci\u00eancia do rei\u201d, como dizia Hamlet. E \u00e9 preciso q fa\u00e7a isso. Essa \u00e9 a for\u00e7a de <em>Cabar\u00e9<\/em>: tocar a consci\u00eancia da plateia atrav\u00e9s do encantamento. E isso \u00e9 gerado pela movimenta\u00e7\u00e3o criada por Zebrinha, pela m\u00fasica de Jarbas Bittencourt, e muito pela qualidade do elenco: atores incr\u00edveis, \u201cda nobreza negra do Brasil\u201d \u2013 no dizer de Z\u00e9 Celso Martinez Correia.<\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>Em sua avalia\u00e7\u00e3o, qual \u00e9 a import\u00e2ncia desse espet\u00e1culo?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>Precis\u00e1vamos de uma virada. Est\u00e1vamos num momento de crise, questionando mtas coisas \u2013 nossas rela\u00e7\u00f5es conosco, c o Olodum, c o Vila, c o q faz\u00edamos, c o dinheiro, c o fato de fazermos sem ganhar dinheiro, minha dire\u00e7\u00e3o, o formato gerencial e v\u00e1rios assuntos. Foi mto bom, passamos em torno de seis meses nisso. Mas um belo dia Jorge Washington disse: \u201cpra mim chega. Quero fazer teatro. Eu tinha a id\u00e9ia de montar esse Cabar\u00e9, j\u00e1 c o t\u00edtulo e tudo, por q t\u00ednhamos inaugurado o Cabar\u00e9 dos Novos, no Vila, e precis\u00e1vamos de um espet\u00e1culo no formato daquele espa\u00e7o; pq tinha surgido a revista Ra\u00e7a, indicando q o Brasil tinha um grande p\u00fablico consumidor negro q queria se ver, queria ter refer\u00eancias; pq eu queria experimentar outro m\u00e9todo de cria\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos e de dramaturgia. Ent\u00e3o lancei a id\u00e9ia, mas n t\u00ednhamos recursos financeiros e a maioria topou continuar investindo em receber da bilheteria. E fizemos.<\/p>\n<p>Esteticamente houve uma mudan\u00e7a radical. A partir da ideia de construir personagens q estariam na revista Ra\u00e7a, a pagina\u00e7\u00e3o ent\u00e3o de nosso visual mudou bastante c produ\u00e7\u00e3o de moda, lentes de contato azuis, perucas, maquiagem&#8230; a m\u00fasica de Jarbas perseguia os ritmos da moda e os arranjos comerciais das bandas q produzem sucessos instant\u00e2neos. Zebrinha coreografou um desfile de modas cheio de estilo. Nossa perspectiva de palco deu uma guinada.<\/p>\n<p>Mas mais q tudo a import\u00e2ncia foi o debate gerado a partir da decis\u00e3o de cobrar meia entrada para negros. Propus ao grupo q fiz\u00e9ssemos isso pq soube q apenas 1% da plateia do teatro baiano era ocupada por negros. Era uma forma de incentivar os negros a irem ao teatro, era uma forma de provocar o p\u00fablico a se assumir negro pq era o qto bastava p pagar a meia entrada, estava no \u00e2mbito das discuss\u00f5es sobre pol\u00edticas afirmativas. E realmente, a partir da\u00ed a plateia do espet\u00e1culo era pelo menos 60% de negros em m\u00e9dia. E essa plateia continuou fidelizada ao grupo e ao vila.<\/p>\n<p>Promovemos debates sobre a quest\u00e3o. Fizemos nosso papel.<\/p>\n<p><em>CB:<\/em><\/p>\n<p><em>Por fim: qual \u00e9 a sua idade?<\/em><\/p>\n<p>MM:<\/p>\n<p>63 anos<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>ENTREVISTA PARA O CORREIO DA BAHIA .\u00a0<\/strong><strong>1<sup>o<\/sup>\u00a0de agosto de 2017<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CORREIO DA BAHIA: As quest\u00f5es levantadas em Cabar\u00e9 da Ra\u00e7a continuam atuais, mesmo ap\u00f3s 20 anos. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, isso \u00e9 bom ou ruim? Por qu\u00ea? MARCIO MEIRELLES: As quest\u00f5es levantadas continuam atuais. O modo como o Brasil e o mundo tem reagido a elas \u00e9 q tem mudado. 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