{"id":2586,"date":"2019-07-09T00:09:17","date_gmt":"2019-07-09T03:09:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=2586"},"modified":"2019-07-23T15:07:13","modified_gmt":"2019-07-23T18:07:13","slug":"por-que-ontem-por-que-sempre-por-que-ela-por-que-hecuba","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2019\/07\/por-que-ontem-por-que-sempre-por-que-ela-por-que-hecuba\/","title":{"rendered":"Por que ontem, por que sempre, por que ela? POR QUE H\u00c9CUBA"},"content":{"rendered":"<div data-hook=\"post-description\">\n<article>\n<p style=\"text-align: right;\">por ADRIANA AMORIM<\/p>\n<div style=\"text-align: center;\"><\/div>\n<div>\n<div>\n<div data-hook=\"imageViewer\">\n<div><\/div>\n<div>\u00a0Eu j\u00e1 tive o prazer e a honra de ver em cena grandes atrizes. Laura Cardoso, Arlete Sales, Maria Alice Vergueiro, K\u00e9cia Prado, Iami Rebou\u00e7as, Marieta Severo, Andreia Beltr\u00e3o, s\u00f3 pra citar algumas que lembrei numa busca muito breve e irrespons\u00e1vel pela minha mem\u00f3ria. E essas foram, sem d\u00favida alguma, experi\u00eancias inesquec\u00edveis. Mas n\u00e3o tenho receio nenhum de afirmar que nada, absolutamente nada se compara ao que pude experimentar ontem ao ver em cena Chica Carelli como a matriarca protagonista do avassalador espet\u00e1culo \u201cPor Que H\u00e9cuba\u201d dirigido por M\u00e1rcio Meirelles. Escrevo agora esse texto, tentando juntar os cacos que restaram de mim depois daquele atropelamento.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Certamente o contexto da frui\u00e7\u00e3o em muito interferiu para potencializar a experi\u00eancia. Estando eu fora de Salvador h\u00e1 sete anos, depois de \u201cter sido soteropolitana\u201d por quase quinze e tendo realizado aqui minha forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica completa e boa parte da minha forma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, regressar \u00e0 Cidade da Bahia e visitar-lhe a vida cultural e art\u00edstica \u00e9 sempre uma grande emo\u00e7\u00e3o, para dizer o m\u00ednimo. Andar, agora como turista, pelas ruas nas quais quase me vejo com um espectro que vagueia com o fardo dos problemas cotidianos a pesar nos ombros, que olha absorta para o horizonte pelas janelas emba\u00e7adas dos \u00f4nibus, que sai dos mercados, pega os filhos na escola&#8230; toda essa hist\u00f3ria vivida que passa diante de mim, me converte numa observadora sui generis da cidade. E ontem foi um desses dias. O contato com o universo peculiar do Porto da Barra durante o dia, a passagem pelo circuito Avenida Sete\/Carlos Gomes\/Passeio P\u00fablico para chegar at\u00e9 o templo do Teatro Vila Velha se revelaram num cuidadoso pr\u00f3logo do espectador, algo que viria a potencializar a caracter\u00edstica \u201cpessoal e intransfer\u00edvel\u201d da experi\u00eancia de frui\u00e7\u00e3o. Sentada naquela poltrona, esperando o come\u00e7o do espet\u00e1culo, eu j\u00e1 era uma vers\u00e3o in\u00e9dita e especial de mim mesma.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Come\u00e7ado o espet\u00e1culo, logo se revelou sua pot\u00eancia. Um elenco que, apesar de numeroso e jovem, demonstrou de cara uma for\u00e7a c\u00eanica e uma conex\u00e3o fundamentais para estruturar a base na qual seria erguida a fortaleza donde se veria surgir o n\u00facleo da hist\u00f3ria, donde se daria o desfile do mito. M\u00fasica e imagens iam criando a atmosfera para o que aconteceria diante de n\u00f3s nas duas horas seguintes. Loi\u00e1 Fernandes, a jovem Meniki Marla e o experiente L\u00facio Tranchesi deixam claro que o elenco sabe o que faz e vai se revelar um dos grandes respons\u00e1veis pela grandiosidade daquele evento teatral. Tudo bem at\u00e9 a\u00ed. Eu j\u00e1 estava nas m\u00e3os deles. Entregue.<\/div>\n<div><\/div>\n<blockquote>\n<div>Mas, eis que surge ela. Uma rocha, uma tocha. Um acontecimento. Voz de trov\u00e3o, olhar de \u00e1guia. Anunciada por dolorosos uivos de cadela ferida, surge H\u00e9cuba. Eu n\u00e3o sabia quem era a atriz. N\u00e3o recebemos o programa da pe\u00e7a na entrada, de modo que fiquei me perguntando: \u201c\u00c9 Chica?\u201d Mais magra, mais envelhecida do que a Chica da qual eu me lembrava, quando frequentadora do Vila e mesmo como participante do projeto \u201cO que Cabe Nesse Palco\u201d no distante ano de 2002, oscilei entre a raz\u00e3o que buscava reconhecer-lhe os tra\u00e7os e o sentimento de quem acompanhava a hist\u00f3ria. Sim. Era Chica. Era a grande Chica Carelli, maior do que sempre.<\/div>\n<\/blockquote>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div>\n<div data-hook=\"imageViewer\">\n<div style=\"text-align: center;\"><img src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/4774ff_25ded2a322444bfbb5c9737473e727f4~mv2.jpeg\/v1\/fill\/w_360,h_540,al_c,q_90,usm_0.66_1.00_0.01\/4774ff_25ded2a322444bfbb5c9737473e727f4~mv2.jpeg\" alt=\"\" data-pin-url=\"https:\/\/www.cazazul.com\/post\/por-que-hecuba\" data-pin-media=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/4774ff_25ded2a322444bfbb5c9737473e727f4~mv2.jpeg\/v1\/fit\/w_452,h_678,al_c,q_80\/file.png\" \/><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dali em diante, deu-se o estrago em mim: invadida por todos aqueles elementos c\u00eanicos magistralmente ordenados por M\u00e1rcio Meirelles, esse mestre incans\u00e1vel em sua melhor forma, eu j\u00e1 girava tonta alternando entre o impacto sens\u00edvel dos est\u00edmulos e a consci\u00eancia do discurso pol\u00edtico e do manifesto humano que se desenrolava em minha frente. As cr\u00edticas, as den\u00fancias, as met\u00e1foras (ora sutis ora evidentes) n\u00e3o davam descanso ao espectador. A consci\u00eancia r\u00edtmica cuidadosamente constru\u00edda para n\u00e3o perder o espectador, o tempo de manuten\u00e7\u00e3o de cada sentimento provocado na plateia. O equil\u00edbrio perfeito entre o dionis\u00edaco e o apol\u00edneo, atrav\u00e9s do pleno dom\u00ednio das ferramentas pr\u00f3prias do teatro, assunto e meio daquele exerc\u00edcio.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>E no centro de tudo, ela: N\u00e3o apenas quando demonstrava sua for\u00e7a e dor, mas tamb\u00e9m (e talvez mesmo, sobretudo) quando era doce, leve, serena, se \u00e9 que se pode falar desses atributos naquele contexto. Quando falava baixo, mais do que isso, quando sussurrava, sentada, aparentemente inerte, era quando ela mais me atravessava.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Dois momentos foram para mim incompar\u00e1veis, inesquec\u00edveis, indiz\u00edveis: Quando ela recebe seu filho Polidoro e conversa com ele com a serenidade de uma rocha que s\u00f3 as m\u00e3es (e possivelmente s\u00f3 as m\u00e3es que j\u00e1 velaram um filho) possuem. E depois quando ela, ainda e sempre como m\u00e3e, nos conta a hist\u00f3ria da cria\u00e7\u00e3o do mundo, nos revela que fomos urdidos sobre a marca indel\u00e9vel do amor e se pergunta, inconformada, por que tanto \u00f3dio? Por Que, H\u00e9cuba? Eu tamb\u00e9m sigo me perguntando&#8230;<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Da\u00ed, meio inerte, me restou ir ao camarim. Cumprimentar o elenco, entre amigos, conhecidos e desconhecidos, experientes e iniciantes. E encontrar-me com ela. Chica Carelli. Dar-lhe um abra\u00e7o sincero de gratid\u00e3o, verter-me em l\u00e1grimas pela felicidade de ter estado ali, naquele momento e lugar, de compartilhar de tal profiss\u00e3o, essa que nos rasga e nos convoca di\u00e1ria e inapelavelmente. Dizer parab\u00e9ns era t\u00e3o pouco. Era quase constrangedor. Apenas agradeci, porque tenho pra mim que depois do amor, de quem deve ser irm\u00e3, a gratid\u00e3o \u00e9 o maior sentimento que existe.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Por isso, sou grata a toda a equipe de artistas envolvida nesse projeto. Ao grande mestre M\u00e1rcio Meirelles, de quem sempre fui declarada admiradora, da pessoa e do artista. Ao Teatro dos Novos, \u00e0 Universidade Livre Vila Velha &#8211; dois projetos necess\u00e1rios, para dizer o m\u00ednimo. Inspira\u00e7\u00f5es para essa CazAzul que tenta dar vaz\u00e3o a tantos desejos meus de seguir vivendo essa sina de ser artista.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>Chica Carelli, ontem eu vi a maior e melhor performance de uma atriz. Por isso e por tudo o que isso significa, obrigada. Dezenove vezes. Vinte vezes. Obrigada.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<div>\n<div data-hook=\"imageViewer\">\n<div style=\"text-align: center;\"><img src=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/4774ff_5afde1a25e854f14b5d8bb4d40751757~mv2.jpeg\/v1\/fill\/w_726,h_608,al_c,lg_1,q_90\/4774ff_5afde1a25e854f14b5d8bb4d40751757~mv2.jpeg\" alt=\"\" data-pin-url=\"https:\/\/www.cazazul.com\/post\/por-que-hecuba\" data-pin-media=\"https:\/\/static.wixstatic.com\/media\/4774ff_5afde1a25e854f14b5d8bb4d40751757~mv2.jpeg\/v1\/fit\/w_605,h_507,al_c,q_80\/file.png\" \/><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div><\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">\u00a0originalmente publicado no blog CazAzul teatro escola<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">em 07.07.2019<\/div>\n<div style=\"text-align: right;\">https:\/\/www.cazazul.com\/post\/por-que-hecuba<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div><\/div>\n<h3><\/h3>\n<\/article>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por ADRIANA AMORIM \u00a0Eu j\u00e1 tive o prazer e a honra de ver em cena grandes atrizes. 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