{"id":437,"date":"1994-03-13T02:10:53","date_gmt":"1994-03-13T05:10:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=437"},"modified":"2012-02-22T08:16:47","modified_gmt":"2012-02-22T11:16:47","slug":"medeamaterial-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1994\/03\/medeamaterial-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"MEDEAMATERIAL EM S\u00c3O PAULO"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista para a revista Projekt, realizada pela professora Ruth R\u00f3hl, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e publicada em 13 de mar\u00e7o de 1994.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1510\" style=\"width: 232px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1994\/03\/01.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1510\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1510\" title=\"Capa de revista Projekt\" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1994\/03\/01-222x300.jpg\" alt=\"Capa de revista Projekt\" width=\"222\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1994\/03\/01-222x300.jpg 222w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1994\/03\/01.jpg 474w\" sizes=\"(max-width: 222px) 100vw, 222px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1510\" class=\"wp-caption-text\">Capa de revista Projekt<\/p><\/div>\n<p><em>O diretor M\u00e1rcio Meirelles e os atores Guilherme Leme, Vera Holtz e Adyr D&#8217;Assump\u00e7\u00e3o falam da encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a.<\/em><\/p>\n<p><strong>RUTH ROHL &#8211; Como foi constru\u00edda a montagem, M\u00e1rcio?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; O texto n\u00e3o traz indica\u00e7\u00e3o alguma, mas h\u00e1 chaves, como a possibilidade de montar as tr\u00eas pe\u00e7as ao mesmo tempo, ou quando Med\u00e9ia pede o espelho e diz &#8220;Essa n\u00e3o \u00e9 Med\u00e9ia&#8221;, negando ser a negra. E esse \u00e9 o caminho de volta, o meio para se reencontrar. A for\u00e7a de Med\u00e9ia \u00e9 a for\u00e7a de sua cultura, de sua ra\u00e7a. A baleia \u00e9 outra chave que ganhei do H\u00e9lio Eichbauer; ali\u00e1s, todo o grupo deu chaves. O H\u00e9lio queria s\u00f3 o pano, a\u00ed a gente conversou, fui criando imagens e organizando. Geralmente as imagens s\u00e3o muito barrocas, e vou limpando. Joguei todas as imagens para o Eichbauer, que sintetizou assim: s\u00f3 ficou a baleia e o pano. \u00c9 um impacto que mexe com imagens conscientes e inconscientes: destrui\u00e7\u00e3o, mam\u00edfero, animal pr\u00e9-hist\u00f3rico, identifica\u00e7\u00e3o com Med\u00e9ia e com navio, enfim, um elemento-s\u00edntese.<\/p>\n<blockquote><p>V. HOLTZ (MED\u00c9IA): Med\u00e9ia \u00e9 cruel. Quando ela v\u00ea o seu espelho \u2013 a mem\u00f3ria viva do passado \u2013 vem tudo \u00e0 sua cabe\u00e7a. E ela assume a vingan\u00e7a da trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>G. LEME (JAS\u00c3O): Jas\u00e3o \u00e9 calculista, frio, n\u00e3o se emociona nem com a sua morte. N\u00e3o fiz Jas\u00e3o muito interpretativo, mas como se ele estivesse relatando a sua pr\u00f3pria morte, o que o homem est\u00e1 fazendo com o pr\u00f3prio homem.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RR &#8211; A montagem passa muito a Bahia, a cultura afrobrasileira. Voc\u00ea pode explicar isso?<br \/>\n<\/strong>MM &#8211; Eu sou baiano. H\u00e1 quatro anos, Heiner M\u00fcller queria montar a pe\u00e7a na Bahia, e ele me contou isso, quando estive na Alemanha, em abril, para conversar sobre a montagem. O final s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel fazer na Bahia, regi\u00e3o inter\u00e9tnica, intercultural \u2013 \u00e9 a vit\u00f3ria do negro, do colonizado, quando ele toma consci\u00eancia de sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; Qual \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o do bando de teatro Olodum e das can\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; A fun\u00e7\u00e3o \u00e9 a do coro, que conta a hist\u00f3ria paralela: a hist\u00f3ria do negro escravo, do colonizado, recuperando a Africa m\u00edtica, um referencial de identidade.\u00a0\u00c9 o nosso ritmo, a nossa m\u00fasica vencendo o colonizador. O povo da C\u00f3lquida, como o povo negro, tra\u00eddo, o povo brasileiro que perdeu suas ra\u00edzes.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; \u00c9 essa a import\u00e2ncia da montagem para n\u00f3s, brasileiros?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; Para o Olodum, a m\u00fasica \u00e9 apenas a ponta do iceberg. Como disse o Jo\u00e3o Ubaldo, na Bahia s\u00f3 h\u00e1 um branco \u2013 o c\u00f4nsul da Noruega.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; O que voc\u00ea buscou na cultura baiana, al\u00e9m da m\u00fasica, do ritmo?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; O gestual do candombl\u00e9 foi um referencial. Quando a Med\u00e9ia branca abra\u00e7a a Med\u00e9ia negra, \u00e9 como se ela reincorporasse a si mesma. \u00c9 como no candombl\u00e9, quando o orix\u00e1 baixa e possui o cavalo, \u00e9 a energia que vem. A montagem incorpora a linguagem da cultura afro-baiana.\u00a0No que diz respeito \u00e0 ama, a gente se inspirou muito nas figuras de Ekedi e M\u00e3e Pequena. Ambas s\u00e3o figuras do candombl\u00e9 que nos rituais n\u00e3o incorporam, n\u00e3o s\u00e3o m\u00e3e-de-santo, mas t\u00eam toda uma fun\u00e7\u00e3o ritual\u00edstica de condu\u00e7\u00e3o. Elas conhecem, tanto quanto Med\u00e9ia \u2013 sacerdotiza \u2013 mas n\u00e3o t\u00eam o seu status.\u00a0Outro elemento \u00e9 o berimbau, a capoeira, a luta transformada em dan\u00e7a como resist\u00eancia. E tamb\u00e9m um referencial de identidade: o povo de Med\u00e9ia com ela, resistindo, porque Med\u00e9ia se perdeu seguindo o colonizador.<\/p>\n<blockquote><p>ADYR D&#8217; ASSUMP\u00c7\u00c3O (AMA): A ama conta a hist\u00f3ria, ela \u00e9 guardi\u00e3 dos preceitos, mas s\u00f3 quem pode agir \u00e9 Med\u00e9ia. Med\u00e9ia perdeu a identidade, a ama traz a imagem que ela n\u00e3o quer ver, e \u00e9 a par!ir da\u00ed que o processo se desenvolve. \u00c9 mais um s\u00edmbolo.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>RR &#8211; o Heiner Goebbels fez a trilha musical?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; O conceito do espet\u00e1culo passa pela m\u00fasica. Antes de conhecer o texto de Medeamaterial, trabalhei com o Heiner Goebbels na Liberta\u00e7\u00e3o de Prometeu. Colaborei com ele na montagem e gostei muito de sua m\u00fasica. A\u00ed a gente falou muito sobre Medeamaterial. O texto traduzido era s\u00f3 a parte central-as duas pontas: a destrui\u00e7\u00e3o de uma cultura, uma do ponto de vista do colonizado e outra, do colonizador. Ele me mandou o texto em ingl\u00eas, e eu o convidei para fazer a m\u00fasica do espet\u00e1culo. Mas eu j\u00e1 tinha id\u00e9ia da m\u00fasica, a dos tambores, como mem\u00f3ria cultural de Med\u00e9ia, elemento recorrente e que explode inteiro no final, e a m\u00fasica dele como a do colonizador, narrando a destrui\u00e7\u00e3o e delineando o perfil do colonizador. Ele veio e viu o ensaio, viu o Olodum tocando e ficou dois dias questionando: a m\u00fasica que eu tinha era muito mais forte do que qualquer coisa que ele pudesse fazer. Mas ele entendeu o conceito, que era necess\u00e1rio que tivesse um contraponto \u2013 n\u00e3o mixar, mas p\u00f4r as duas m\u00fasicas como um di\u00e1logo, como a voz de Jas\u00e3o e a voz de Med\u00e9ia. A m\u00fasica do Olodum, percussiva, mexe \u2013 ningu\u00e9m pode ficar alheio a ela. O Olodum a sintetizou de uma m\u00fasica tribal, ela \u00e9 org\u00e2nica, humana, diferente da m\u00fasica eletr\u00f4nica. E tamb\u00e9m na interpreta\u00e7\u00e3o foi, num primeiro momento, um choque cultural em rela\u00e7\u00e3o a todo mundo, a Vera, Guilherme, etc. E optei por juntar as duas coisas, a forma\u00e7\u00e3o cultural da Vera, do Guilherme e a do Adyr, do Bando. Quando Rejane (a Med\u00e9ia negra) fala: &#8220;Vest\u00edgios de argonautas de testa chata&#8221;, ela conta a hist\u00f3ria toda dela.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; Nota-se uma diferen\u00e7a at\u00e9 mesmo em termos de interpreta\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nMM &#8211; A interpreta\u00e7\u00e3o grandiloq\u00fcente de Vera e a dos meninos, olhando para os lados nem a\u00ed \u2013 \u00e9 um efeito de distanciamento: o espectador n\u00e3o deve se envolver, mas refletir sobre o que est\u00e1 acontecendo. O espet\u00e1culo \u00e9 uma guerra, um conflito entre viv\u00eancias, culturas, interpreta\u00e7\u00f5es, sons. Viva a diferen\u00e7a! Todas as culturas podem conviver de forma harmoniosa, aceitando a diferen\u00e7a, mas n\u00e3o h\u00e1 alternativa para o resgate, o renascimento, sem a morte do colonizador.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; Como foi trabalhar com um texto de Heiner M\u00fcller?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; Heiner M\u00fcller \u00e9 uma casualidade em minha vida. Conhe\u00e7o poucas coisas dele, mas gosto muito delas. Lamento n\u00e3o conhecer um dramaturgo brasileiro que tenha esse poder de s\u00edntese e entregue ao encenador um material para se criar um espet\u00e1culo. Em geral todos os textos est\u00e3o amarrados a uma narrativa, mesmo com flash-backs, a uma historinha. O teatro transcende a historinha, s\u00e3o imagens, s\u00e3o fragmentos. O teatro contempor\u00e2neo prescinde de historinha.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; Voc\u00ea considera o seu espet\u00e1culo p\u00f3s-moderno?<\/strong><br \/>\nMM &#8211; N\u00e3o sei, de alguma forma \u00e9. O espet\u00e1culo \u00e9 pop. Tem elementos p\u00f3s-modernos: ac\u00famulo de imagens, informa\u00e7\u00f5es, desde o mito at\u00e9 o momento presente.\u00a0Quando o texto foi escrito, n\u00e3o havia o conflito da B\u00f3snia, mas est\u00e1 tudo a\u00ed. \u00c9 um ac\u00famulo de estratos, um sobre o outro. Mas n\u00e3o tem outras coisas do p\u00f3s-moderno, como o esteticismo do fragment\u00e1rio. Acho que n\u00e3o h\u00e1 r\u00f3tulo para Heiner M\u00fcller ele ultrapassa o seu tempo. Medeamaterial foi escrita ao longo de trinta anos, antecede acontecimentos e fala de uma destrui\u00e7\u00e3o por vir. O \u00faltimo cen\u00e1rio \u00e9 uma estrela destru\u00edda o que o teatro pode fazer \u00e9 falar sobre ela.<\/p>\n<p><strong>RR &#8211; Mas o final de sua montagem \u00e9 outro.<\/strong><br \/>\nMM &#8211; Na Bahia, o final pode ser outro. N\u00f3s temos outra chave: for\u00e7a cultural e possibilidade de virar o jogo atrav\u00e9s da atividade humana.<\/p>\n<p><strong>FICHA T\u00c9CNICA<\/strong><br \/>\n<strong>T\u00edtulo:<\/strong> Medeamaterial (Margem abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas)<br \/>\n<strong>Autor:<\/strong> Heiner M\u00fcller<br \/>\n<strong>Tradu\u00e7\u00e3o:<\/strong> Marcos Renaux e Christine Roehrig<br \/>\n<strong>Dire\u00e7\u00e3o:<\/strong> M\u00e1rcio Meirelles<br \/>\n<strong>Cenografia:<\/strong> H\u00e9lio Eichbauer<br \/>\n<strong>M\u00fasica:<\/strong> Heiner Goebbels e Neguinho do Samba<br \/>\n<strong>Elenco:<\/strong> Vera Holtz, Guilherme Leme, Adyr D&#8217; Assump\u00e7\u00e3o e o Bando de Teatro Olodum<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista para a revista Projekt, realizada pela professora Ruth R\u00f3hl, da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), e publicada em 13 de mar\u00e7o de 1994. &nbsp; O diretor M\u00e1rcio Meirelles e os atores Guilherme Leme, Vera Holtz e Adyr D&#8217;Assump\u00e7\u00e3o falam da encena\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a. 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