{"id":469,"date":"1997-01-19T13:08:38","date_gmt":"1997-01-19T16:08:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=469"},"modified":"2012-02-21T18:54:54","modified_gmt":"2012-02-21T21:54:54","slug":"o-ator-e-o-personagem-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1997\/01\/o-ator-e-o-personagem-2\/","title":{"rendered":"O ATOR E OS PERSONAGENS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>Texto escrito para a revista <\/em><strong>Cen\u00e1rio<\/strong><em> (Ano I, n. 5), publicado em mar\u00e7o de 1997.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_1475\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/01\/BARBA-FIGURINO.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1475\" loading=\"lazy\" class=\"size-medium wp-image-1475\" title=\"Projeto de figurino para BARBA AZUL. \" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/01\/BARBA-FIGURINO-224x300.jpg\" alt=\"Projeto de figurino para BARBA AZUL. \" width=\"224\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/01\/BARBA-FIGURINO-224x300.jpg 224w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/01\/BARBA-FIGURINO.jpg 479w\" sizes=\"(max-width: 224px) 100vw, 224px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1475\" class=\"wp-caption-text\">Projeto de figurino para BARBA AZUL.<\/p><\/div>\n<p>De onde vem os personagens? E o que s\u00e3o os personagens?<\/p>\n<p>S\u00e3o seres viventes como n\u00f3s, mas diferentes. De outra textura, de outra densidade. S\u00e3o seres compostos, fabricados. Clones de outras criaturas.<\/p>\n<p>S\u00e3o vivos, disso n\u00e3o resta a menor d\u00favida. Existem.<\/p>\n<p>Est\u00e3o espalhados por a\u00ed. Feitos, como n\u00f3s da mesma mat\u00e9ria que os sonhos. Feitos de desejos, pensamentos, reflex\u00f5es, questionamentos, d\u00favidas, asser\u00e7\u00f5es, carne, suor, excremento. Feitos de um trabalho di\u00e1rio de buscas, investiga\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica, constru\u00e7\u00e3o de modos, gestos, sons.<\/p>\n<p>Um personagem \u00e9 como um instrumento que deve ser tocado pelo ator. Um instrumento constru\u00eddo com seus pr\u00f3prios ossos, carne, pele, sangue e energia.<\/p>\n<p>Esse estranho engenho &#8211; o personagem &#8211; \u00e9 arquitetado por um conjunto de artes\u00e3os, que juntam vasto material diariamente, para tal fim. Recolhem-no de leituras, de viv\u00eancias, de mem\u00f3rias, de ouvir dizer, de ter visto hoje \u00e0 tarde, de ter sentido, ou pressentido ou intu\u00eddo.<\/p>\n<p>Esse material recolhido pelo ator, junto com outros atores, autor, diretor, core\u00f3grafo, cen\u00f3grafo, figurinista, iluminador, \u00e9 armazenado no seu pr\u00f3prio corpo &#8211; que pensamento e emo\u00e7\u00e3o e sentidos tamb\u00e9m fazem parte do corpo &#8211; e colocado em camadas superpostas at\u00e9 que o instrumento personagem esteja pronto.<\/p>\n<p>Uma vez pronto come\u00e7a o trabalho de afinar e aprender a tocar. O ator tem que aprender a extrair dele todas as possibilidades que ele guarda em si, todas as maravilhas capazes de surpreender a plat\u00e9ia e encant\u00e1-la. Esse aprendizado \u00e9 o mais doloroso, porque quase solit\u00e1rio. O ator segue sozinho atado inexoravelmente a seu instrumento, sendo um s\u00f3 com ele &#8211; ele e seu corpo &#8211; descobrindo as sonoridades que \u00e9 capaz de produzir.<\/p>\n<p>O diretor e os colegas podem alert\u00e1-lo de certos sons que s\u00e3o adivinhados. De certas possibilidades entrevistas por instantes. Mas ningu\u00e9m pode ensin\u00e1-lo a tocar.<\/p>\n<p>O p\u00fablico as vezes \u00e9 a chave para isso. Quando o ator faz soar seu instrumento e este som ecoa, o eco \u00e9 produzido na plat\u00e9ia, e assim, as vezes, ele come\u00e7a verdadeiramente a se escutar. E s\u00f3 ent\u00e3o seu personagem est\u00e1 completo. Quando o ator finalmente escuta, vindo da plat\u00e9ia, o eco &#8211; reflexo correto do som que emitiu.<\/p>\n<p>A efici\u00eancia desse trabalho duro que o ator executa diariamente e sempre, depende mais de sua viv\u00eancia do que de sua t\u00e9cnica, de uma \u00e9tica que de uma est\u00e9tica. Depende da consci\u00eancia que ele tem de seu papel. Depende basicamente de ele, ator, saber o que quer, de que lado est\u00e1 e de porque se prop\u00f5e a juntar uma audi\u00eancia toda noite para v\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Alguns atores o fazem por um exerc\u00edcio de vaidade, e s\u00e3o grandes. Nos d\u00e3o, \u00e0s vezes, enorme prazer. Mas prefiro, \u00e0 esses, aqueles outros que o fazem por uma quest\u00e3o vital de estar entre os homens. De estar em frente ao outro diariamente afirmando sua condi\u00e7\u00e3o singular de ser humano que questiona o porqu\u00ea das coisas serem assim, e n\u00e3o como poderiam ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito para a revista Cen\u00e1rio (Ano I, n. 5), publicado em mar\u00e7o de 1997. &nbsp; De onde vem os personagens? E o que s\u00e3o os personagens? S\u00e3o seres viventes como n\u00f3s, mas diferentes. De outra textura, de outra densidade. S\u00e3o seres compostos, fabricados. Clones de outras criaturas. 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