{"id":492,"date":"1997-05-30T13:40:37","date_gmt":"1997-05-30T16:40:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=492"},"modified":"2014-03-09T20:12:17","modified_gmt":"2014-03-09T23:12:17","slug":"carta-aberta-a-critica-fatima-barreto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1997\/05\/carta-aberta-a-critica-fatima-barreto\/","title":{"rendered":"CARTA ABERTA \u00c0 CR\u00cdTICA F\u00c1TIMA BARRETO"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1976\" style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/01-yumara-r-nilda-spencer.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1976\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1976 \" title=\"yumara rodrigues e nilda spencer - as mais fortes\" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/01-yumara-r-nilda-spencer-1024x711.jpg\" alt=\"\" width=\"614\" height=\"427\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/01-yumara-r-nilda-spencer-1024x711.jpg 1024w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/01-yumara-r-nilda-spencer-300x208.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1976\" class=\"wp-caption-text\">yumara rodrigues e nilda spencer - as mais fortes<\/p><\/div>\n<pre><span style=\"font-family: Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-size: 13px; line-height: 19px; white-space: normal;\">\r\n<\/span><\/pre>\n<pre><span style=\"font-family: Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-size: 13px; line-height: 19px; white-space: normal;\">Nunca em minha vida respondi a alguma coisa que tenha sido escrita a meu respeito nos jornais. Mas hoje resolvi escrever de volta. Pelo simples exerc\u00edcio de responder. N\u00e3o que exija a publica\u00e7\u00e3o destas mal tra\u00e7adas, ou para bater boca ou criar pol\u00eamica. N\u00e3o sou afeito a essas coisas. Mas hoje, aos quarenta e tr\u00eas anos de idade e vinte e cinco de aprendizado teatral, est\u00e1 sendo importante pra mim ordenar minhas id\u00e9ias e registra-las. Ent\u00e3o - talvez porque j\u00e1 estou mais perto do fim do que do come\u00e7o e a angustia do desaparecimento esteja me for\u00e7ando a tentar me perpetuar e o teatro seja quase t\u00e3o ef\u00eamero quanto a vida ou, talvez, porque tenha comprado um computador e ele me fascina - tenho escrito muito ultimamente.<\/span><\/pre>\n<p>O que disse acima pode parecer que n\u00e3o me importe, ou me sinta superior \u00e0s cr\u00edticas. Ao contr\u00e1rio: leio-as com aten\u00e7\u00e3o e releio-as e, \u00e0s vezes, as n\u00e3o afetuosas me trazem mais material para trabalho do que outras carregadas de adjetivos elogiosos.<\/p>\n<p>Sempre pergunto aos amigos o que n\u00e3o gostaram nos meus trabalhos e por qu\u00ea? \u00c9 uma forma de me situar, de saber aonde est\u00e3o chegando as coisas que distribuo. E se fa\u00e7o isso com amadores, pessoas que gostam de teatro e l\u00e1 v\u00e3o apenas para se divertir, imagine com os cr\u00edticos &#8211; profissionais que est\u00e3o, como eu, construindo seu discurso, refletindo o mundo atrav\u00e9s de sua leitura de uma obra de arte.<\/p>\n<p>Portanto tome esse escrito apenas como uma reflex\u00e3o a partir do que l\u00ed no seu trabalho.<\/p>\n<p>\u00c9 curioso como a rela\u00e7\u00e3o entre o cr\u00edtico e o artista \u00e9 parecida com a das duas personagens de A Mais Forte. Nesta pe\u00e7a Strindberg coloca em cena uma situa\u00e7\u00e3o, que pode ser lida como uma discuss\u00e3o a respeito das rela\u00e7\u00f5es, como uma met\u00e1fora. Quem \u00e9 mais forte: o sil\u00eancio ou a palavra? A sombra ou a luz? O frio ou o quente? A forma ou o conte\u00fado? A superf\u00edcie ou as entranhas? O yin ou o yiang? Apenas quando uma das partes resolve colocar a quest\u00e3o como um exerc\u00edcio de poder \u00e9 que o caos se estabelece e inevitavelmente algu\u00e9m &#8211; ou todo mundo &#8211; se machuca, ficando evidente que tudo \u00e9 necess\u00e1rio e o importante \u00e9 que os diferentes consigam conviver em harmonia.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea entra no seu carro para dirigir, voc\u00ea tem em mente para onde quer ir, porque caminho vai, as condi\u00e7\u00f5es da m\u00e1quina que voc\u00ea est\u00e1 pilotando e a sua urg\u00eancia de chegar aonde quer que seja. No momento em que d\u00e1 a partida, voc\u00ea se encontra num estado emocional X. Come\u00e7a a dirigir e pode ser que o caminho que voc\u00ea tenha escolhido esteja com problemas de tr\u00e2nsito, isso a obriga a mudar de rota. Pode ser que o pneu fure, ou algum problema no motor a obrigue a parar para consert\u00e1-lo. Pode ser que algo fa\u00e7a com que voc\u00ea se d\u00ea conta de que naquele momento deveria ir para outro lugar, e n\u00e3o para onde estava se encaminhando. Pode ser que as sinaleiras ou algum outro acontecimento fa\u00e7am com que voc\u00ea se atrase, obrigando-a a correr ou pegar atalhos. Pode ser que seu estado emocional mude devido a circunst\u00e2ncias diversas, de ordem externa ou \u00edntima. Enfim, o que importa \u00e9 que voc\u00ea chegue a algum lugar. A narrativa da trajet\u00f3ria estar\u00e1 presente na sua chegada. Ser\u00e1 f\u00e1cil saber aonde voc\u00ea chegou, se chegou cedo ou tarde, se est\u00e1 cansada ou n\u00e3o, se foi dif\u00edcil, se voc\u00ea est\u00e1 bem, e tudo o mais.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 quando voc\u00ea dirige um espet\u00e1culo, igualzinho.<\/p>\n<p>Toda a\u00e7\u00e3o humana \u00e9 pol\u00edtica. Mesmo quando voc\u00ea decide n\u00e3o se envolver em pol\u00edtica, por qualquer raz\u00e3o, esta raz\u00e3o e este fato s\u00e3o atos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Assim tamb\u00e9m a dire\u00e7\u00e3o de um espet\u00e1culo sempre existir\u00e1 desde que exista um diretor e sempre ser\u00e1 um fato pol\u00edtico. Tamb\u00e9m ser\u00e1 sempre uma causa nobre e pol\u00edtica o fato de pessoas se reunirem para discutir coletivamente e em p\u00fablico o seu estar no mundo, como uma tentativa de corrigi-lo, ou, de pelo menos fazer um diagn\u00f3stico e dar a sua opini\u00e3o sobre ele.<\/p>\n<p>Voc\u00ea pode analisar qualquer coisa isolando-a de seu contexto, talvez seja mais cient\u00edfico, mais objetivo, mas corre o risco de ser mais pobre, menos humano. Quando come\u00e7am a surgir as liga\u00e7\u00f5es que tem uma coiasa com o universo ela ganha outra dimens\u00e3o e a vida come\u00e7a a fazer sentido, porque nada est\u00e1 s\u00f3 no mundo. Tudo tem la\u00e7os e todas as coisas est\u00e3o inseparavelmente ligadas entre si.<\/p>\n<p>Uma pe\u00e7a pode ser vista como um todo absoluto. Mas tamb\u00e9m pode ser analisada como um pequeno fragmento da obra de um artista, ou parte de um todo que se est\u00e1 construindo naquele momento. Quando voc\u00ea analisa uma pe\u00e7a como parte de uma obra voc\u00ea ganha outra perspectiva, outros pontos de vista, que talvez clareiem as partes aparentemente sombrias do que seja o processo criativo de um artista. Neste caso alguns equ\u00edvocos a respeito de suas pretens\u00f5es, prop\u00f3sitos e m\u00e9todos s\u00e3o desfeitos e todo um sistema de trabalho come\u00e7a a surgir claro como algo palp\u00e1vel e , ent\u00e3o, a obra do artista e do cr\u00edtico come\u00e7am a dialogar e serem \u00fateis uma \u00e0 outra e ambas ao mundo.<\/p>\n<p>Minha obra passa por minha fase de artista pl\u00e1stico, pelo teatro universit\u00e1rio, pelo Avel\u00e3z y Avestruz, pela F\u00e1brica, pela Charanga L\u00edtero Musical Amigos de Pagu, pelo Projeto Teatro, pelo Teatro Castro Alves, pelo Bando de Teatro, pelo Teatro Vila Velha e por todos os trabalhos que tenho feito em teatro, dan\u00e7a e m\u00fasica.<\/p>\n<p>No momento dirijo o Teatro Vila Velha, coordenando sua programa\u00e7\u00e3o e projetos, como Baila Vila, Quem manda \u00e9 n\u00f3s e outros e, tamb\u00e9m o Bando de Teatro, com quem estou come\u00e7ando a dirigir um novo espet\u00e1culo o Cabar\u00e9 da Rrrrra\u00e7a. Al\u00e9m disso tenho tr\u00eas espet\u00e1culos em cartaz: Esmeralda, A Vampira Fetichista; Barba Azul e A Mais Forte, objeto de sua cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Com isso, longe de querer exibir um curr\u00edculo, quero mostrar que, A Mais Forte faz parte de um todo e de um momento.<\/p>\n<p>Com o Bando de Teatro foi criada uma marca que \u00e9 t\u00e3o forte e est\u00e1 t\u00e3o presente, que, mesmo quando este grupo participa de trabalhos de outros diretores, ela aparece. No Cabar\u00e9 da Rrrrra\u00e7a, que estamos come\u00e7ando a ensaiar, discutimos a rela\u00e7\u00e3o entre a m\u00eddia, o consumo e o negro.<\/p>\n<p>Com o resultado de uma oficina, como \u00e9 o caso do Barba Azul, com um grupo de atores jovens sem uma longa trajet\u00f3ria, ou de n\u00e3o atores que est\u00e3o se iniciando, a marca da dire\u00e7\u00e3o se faz presente de uma maneira muito forte. Lan\u00e7amos m\u00e3o de todo o arsenal que temos para construir poesia, para ajudar a essas pessoas que est\u00e3o iniciando um caminho a darem os primeiros passos. Emprestamos nossa vida profissional para que elas criem refer\u00eancias para tra\u00e7ar sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria. Com esse Barba Azul, estamos discutindo as rela\u00e7\u00f5es de amor, o equil\u00edbrio entre os diversos.<\/p>\n<p>Com Esmeralda, A Vampira Fetichista, um divertimento, para pra\u00e7a p\u00fablica, me aliei ao talento de uma autora, uma core\u00f3grafa, um m\u00fasico e bons comediantes para falar da rela\u00e7\u00e3o de uma pessoa com o seu desejo, e da manipula\u00e7\u00e3o desse desejo pelos outros.<\/p>\n<p>E por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Com A Mais Forte queria discutir as rela\u00e7\u00f5es humanas do ponto de vista da luta pelo poder, mostrando a absurda cren\u00e7a de que deve existir sempre um mais forte e um mais fraco, um vitorioso e um vencido. Tinha para isso duas atrizes maravilhosas com quem, para trabalhar, um diretor precisa estar preparado, atento e, principalmente, seguro de que elas s\u00e3o mais fortes. Por serem atrizes, por serem mulheres e por serem quem s\u00e3o. E um texto maravilhosamente bem constru\u00eddo.<\/p>\n<p>Decidi ent\u00e3o me render \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de mostr\u00e1-las e ao texto na sua nudez mais completa, e a construir o suporte para isso. Chamei ent\u00e3o Eduardo Torres para tocar ao piano m\u00fasicas que selecionamos juntos, Jorginho de Carvalho para fazer uma luz que mostrasse toda aquela maravilha que t\u00ednhamos nas m\u00e3os. Chamei Neyde Moura para construir a gar\u00e7onete que serve \u00e0s duas e ela o fez. Serviu t\u00e3o bem ao talento das duas que seu trabalho aparece l\u00edmpido e tranquilo sem a ang\u00fastia de querer parecer mais forte. Decid\u00ed que o cen\u00e1rio seria somente o bar do Cabar\u00e9 dos Novos, sem maiores maquiagens, como ele \u00e9. Defin\u00ed as cores das roupas das duas: vermelho para a palavra, branco para o sil\u00eancio. Discuti com as duas o sentido do texto e o espet\u00e1culo que quer\u00edamos fazer dele, aonde quer\u00edamos chegar. Assim, com esse objetivo, essa m\u00e1quina, essa urg\u00eancia e esse estado de esp\u00edrito, defini o caminho e os atalhos para chegar. Chegamos. Estou feliz.<\/p>\n<p>Quando um diretor aparentemente n\u00e3o imprime sua marca pessoal pode n\u00e3o ser falta de cuidado. Pode n\u00e3o ser falta de alinhavo num projeto art\u00edstico em torno do qual se uniram artistas por motivos nobres e urgentes. Pode n\u00e3o ser porque o diretor j\u00e1 n\u00e3o sabe fazer teatro ou est\u00e1 cheio de tarefas ou se intimidou diante da grandeza do material que ele tinha nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Quando um diretor n\u00e3o imprimiu sua marca pessoal num espet\u00e1culo pode ser exatamente porque a grandeza do que ele tinha nas m\u00e3os era mais importante do que ele. E acho que aprendi isso com Strindberg, exatamente porque em suas pe\u00e7as ele sempre mostra o oposto. Aprendi a n\u00e3o lutar para mostrar que sou mais forte, mas a reconhecer a for\u00e7a do outro e, por tamb\u00e9m reconhecer a minha, n\u00e3o me tornar seu inimigo, mas seu aliado.<\/p>\n<p>F\u00e1tima, me despe\u00e7o aqui com todo o carinho e respeito que tenho por voc\u00ea, e, reconhecendo a sua for\u00e7a como mulher, como atriz e como imprensa\/duradoura, tamb\u00e9m reconhe\u00e7o a minha como homem, como diretor e como teatro\/ef\u00eamero.<\/p>\n<p>Um beijo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">marcio meirelles<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">salvador, 30\/05\/1997<\/p>\n<pre><\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca em minha vida respondi a alguma coisa que tenha sido escrita a meu respeito nos jornais. Mas hoje resolvi escrever de volta. Pelo simples exerc\u00edcio de responder. 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