{"id":515,"date":"1987-09-22T19:36:14","date_gmt":"1987-09-22T22:36:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=515"},"modified":"2011-09-22T19:37:29","modified_gmt":"2011-09-22T22:37:29","slug":"de-que-lado-olhar-gregorio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1987\/09\/de-que-lado-olhar-gregorio\/","title":{"rendered":"De que lado olhar Greg\u00f3rio?"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto do programa do espet\u00e1culo &#8220;Greg\u00f3rio de Mattos de Guerras&#8221;, publicado em 1987.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De que lado olhar Greg\u00f3rio, eis a quest\u00e3o. Olhar ou falar ? De quem falar, como falar, para que falar ?<br \/>\nFalar ou fazer ? P\u00f4r em cena: eis a tarefa. Muitas quest\u00f5es e uma tarefa.<\/p>\n<p>O olhar teatral, um olhar brasileiro. Olhar Greg\u00f3rio de cabe\u00e7a para baixo, ao revez. Olhar Greg\u00f3rio n\u00e3o como algu\u00e9m que foi mais ou menos coerente, ou insensato. Her\u00f3i, traidor, canalha, rebelde com causa ou sem, por raz\u00f5es pessoais, olhares pr\u00f3prios, nomes.<\/p>\n<p>Fazer. Fazer Greg\u00f3rio e refazer seu universo barroco. Seu universo de sombras e luz. Afundar nas sombras. Construir um espet\u00e1culo. Trazer a luz, a hist\u00f3ria, a vida, a constru\u00e7\u00e3o de uma cidade como uma brincadeira de armar.<\/p>\n<p>O teatro \u00e9 um jogo de armar. Um jogo de encaixes. Uma jogada coletiva. Jogar com Greg\u00f3rio e com outros poetas, mistur\u00e1-los. Remexer os textos. Refazer os textos, rever a Bahia, \u201cdessemelhantemente igual\u201d.<\/p>\n<p>Juntar um bando de gente, negras, mulatas, mesti\u00e7as, cafusas, cfusas mas confiantes, trilhando um caminho dessemelhantemente igual. Caminho de atores e diretor, caminho de m\u00fasicos, cen\u00f3grafos, figurinistas, costureiras, marceneiros, aderecistas, poetas, caminhos dessemelhantemente iguais. Antes trilhas que desembocam no mar.<\/p>\n<p>E no mar um navio que leva Greg\u00f3rio a Angola. Por que foi mandado n\u00e3o importada, importa que um poeta foi tirado de sua terra, de seu motivo, e proibido de poetar. E no caminho para o ex\u00edlio a possibilidade de reflex\u00e3o. Um espet\u00e1culo que seja mais reflexivo que narrativo. N\u00e3o me interessava contar a hit\u00f3ria de Greg\u00f3rio, nem fazer um recital de seus poemas. Interessava p\u00f4r em cena &#8211; p\u00f4r o dedo na ferida &#8211; um poeta que \u201cse apropriou de sua<\/p>\n<p>\u00e9poca\u201d. Uma \u00e9poca em que a nossa cultura ainda mamava nas tetas de uma m\u00e3e negra e escarrava sangue no cauim.<\/p>\n<p>Interessava repensar nossa cultura. Revisitar o ber\u00e7o. Sem saudades. Restaurar o teatro, repensar a Bahia atrav\u00e9s do teatro. N\u00e3o foi \u00e0 toa que Greg\u00f3rio foi o primeiro tema trabalhado pelo PROJETO-TEATRO. Nossos planos s\u00e3o muitos bons e se nos deixam, vamos longe.<\/p>\n<p>Quando pensamos o PROJETO-TEATRO, Maria Eug\u00eania, \u00c2ngela, Isa e eu, pensamos na restaura\u00e7\u00e3o, cansamos de prantear o teatro baiano, cansamos de culpar, de nos auto-flagelar, de nos obrigar a estar em cena de qualquer forma para manter a chama acesa, cansamos dos chav\u00f5es e das palavras de ordem e pensamos em restaurar o que se perdeu.<\/p>\n<p>Pensamos em repensar todos os anos que investimos em teatro. Todos os tempos em que se fez teatro na Bahia. Pensamos em repensar o teatro baiano. Pensamos em um projeto que pudesse aglutinar de uma vez s\u00f3, muitas gentes, pra repensar nossa hist\u00f3ria. Assim se fez de nossos sonhos este projeto. Assim surgiu Greg\u00f3rio em nossa vida, numa esquina com sua boca em chamas a fazer das palavras fogo de artilharia. Assim se envolveram conosco estudiosos, pesquisadores, compositores, poetas, dramaturgos, em caminhos dessemelhantemente iguais.<\/p>\n<p>E assim vamos, cortando pelo mar fundo numa barquinha, desviados de nossas rotas cotidianas de comer, beber, dormir, para ficar no limite entre a vig\u00edlia e o sonho. Que \u00e9 isto teatro: estar desviado do caminho natural que vai do nascer ao morrer, e assim poder tocar com dedos do inferno no absurdo cotidiano e, com olhos de ver, tentar, tentar, tentar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto do programa do espet\u00e1culo &#8220;Greg\u00f3rio de Mattos de Guerras&#8221;, publicado em 1987. &nbsp; &nbsp; De que lado olhar Greg\u00f3rio, eis a quest\u00e3o. Olhar ou falar ? De quem falar, como falar, para que falar ? Falar ou fazer ? P\u00f4r em cena: eis a tarefa. 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