{"id":547,"date":"1997-05-19T20:16:14","date_gmt":"1997-05-19T23:16:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=547"},"modified":"2014-03-08T20:06:08","modified_gmt":"2014-03-08T23:06:08","slug":"programa-de-barba-azul-uma-construcao","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1997\/05\/programa-de-barba-azul-uma-construcao\/","title":{"rendered":"BARBA AZUL &#8211; UMA CONSTRU\u00c7\u00c3O"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1930\" style=\"width: 624px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-AZUL5.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1930\" loading=\"lazy\" class=\" wp-image-1930 \" title=\"BARBA AZUL\" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-AZUL5-1024x700.jpg\" alt=\"BARBA AZUL\" width=\"614\" height=\"420\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-AZUL5-1024x700.jpg 1024w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-AZUL5-300x205.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 614px) 100vw, 614px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1930\" class=\"wp-caption-text\">BARBA AZUL<\/p><\/div>\n<p><em>Texto publicado no programa da pe\u00e7a Barba Azul, encenada em Salvador, com estreia em 19 de maio de 1997<\/em><\/p>\n<p>&#8211;<\/p>\n<p>Barba Azul vem sendo gestado h\u00e1 muitos anos. Mas s\u00f3 agora encontrei a mat\u00e9ria prima necess\u00e1ria para constru\u00ed-Io como poesia e como teatro.<\/p>\n<p>Primeiro era necess\u00e1rio que existisse um estado de esp\u00edrito meu, como criador. E neste momento estou querendo falar das impossibilidades e das condi\u00e7\u00f5es para se amar.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o tema b\u00e1sico do meu Barba Azul: o fato de que cada um \u00e9 um; de que o amor pode muito, tem muitas m\u00e1gicas, mas n\u00e3o a de transformar duas pessoas em uma; de que um casal \u2013 por maior que seja o amor, mais \u00edntima que seja a rela\u00e7\u00e3o e mais plena a identifica\u00e7\u00e3o entre os pares \u2013 \u00e9 formado por duas pessoas, e cada uma tem suas portas secretas que n\u00e3o devem ser abertas; de que n\u00f3s \u00e9 sempre eu e voc\u00ea e nunca eu e o meu. E esta \u00e9 a beleza do mundo.<\/p>\n<p>Mas Barba Azul \u00e9 mais que isso. Os contos, as lendas, os mitos, s\u00e3o constru\u00eddos de poesia, e a poesia \u00e9 sempre menor quando se tenta traduzi-Ia. Lemos algumas interpreta\u00e7\u00f5es do conto, feministas, psicoanal\u00edticas&#8230; e sempre me parece que o texto foi mutilado para caber nas explica\u00e7\u00f5es, como os p\u00e9s das irm\u00e3s de Cinderela, para caberem no sapato.<\/p>\n<p>Talvez o teatro possa recontar o conto com toda sua grandeza, repoet\u00e1-Io. Porque teatro tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo de poesia, uma poesia n\u00e3o liter\u00e1ria. Uma poesia f\u00edsica que desperta a raz\u00e3o atrav\u00e9s dos sentidos e n\u00e3o os sentidos atrav\u00e9s da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>E \u00e9 preciso que a raz\u00e3o esteja desperta para que o teatro tenha sua fun\u00e7\u00e3o cumprida.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, desta forma o teatro se completa: a alma humana \u00e9 mexida, \u00e9 posta em cena, \u00e9 esmiu\u00e7ada atrav\u00e9s da poesia; \u00e9 revirada de cima a baixo atrav\u00e9s do prazer e at\u00e9 da dor, mas nunca do sofrimento. Teatro tem a ver com prazer, com del\u00edrio, com paix\u00e3o, com tes\u00e3o, nunca com mart\u00edrio, culpa, tortura. Um teatro que exige isso para existir, est\u00e1 errado, deve ser repensado.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o para fazer Barba Azul era necess\u00e1rio que, al\u00e9m da disposi\u00e7\u00e3o de criador, eu reencontrasse o prazer de fazer teatro. A paix\u00e3o.<br \/>\nO prazer do teatro nunca \u00e9 solit\u00e1rio, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que seja assim. \u00c9 mais como o prazer de uma orgia, de uma promiscuidade sagrada onde corpos e almas se lambuzam de suor, de del\u00edrio e de poesia. De imagens.<\/p>\n<p>O prazer masturbat\u00f3rio est\u00e1 distante do teatro. \u00c9 sempre necess\u00e1rio o outro. \u00c9 uma rela\u00e7\u00e3o que sempre precisa de, no m\u00ednimo, dois: o autor e o diretor, o diretor e o ator, o ator e o outro ator, o ator e o p\u00fablico e outras combina\u00e7\u00f5es poss\u00edveis, mas sempre dois. Como numa rela\u00e7\u00e3o de amor, o um n\u00e3o cabe, n\u00e3o h\u00e1 m\u00e1gica poss\u00edvel. E essa \u00e9 a beleza do teatro.<\/p>\n<p>Para fazer Barba Azul era preciso encontrar parceiros dispostos a embarcar na poesia. Ent\u00e3o foi feita uma oficina. Vieram vinte e tr\u00eas. Durante tr\u00eas meses vivemos nessa orgia. Ficamos encharcados de imagens, sensa\u00e7\u00f5es e reflex\u00f5es sobre este prazer de se dar em que o ator se exercita diariamente.<\/p>\n<p>No princ\u00edpio foram os elementos: a respira\u00e7\u00e3o, as emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, o animal, um nome, um caminhar, um gesto, para se construir um personagem: a c\u00e9lula.<\/p>\n<p>E, n\u00e3o sei bem porque, esse Barba Azul me parece s\u00f3 o in\u00edcio de alguma coisa que n\u00e3o sei bem o que \u00e9, mas \u00e9. E ser\u00e1.<\/p>\n<p>Assim, com Barba Azul, foram constru\u00eddos tamb\u00e9m uma sala de espet\u00e1culos e um grupo. Tudo que teatro precisa para existir: duas t\u00e1buas, dois homens e uma paix\u00e3o.<\/p>\n<div id=\"attachment_1932\" style=\"width: 403px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-PROGRAMA.jpg\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-1932\" loading=\"lazy\" class=\"size-large wp-image-1932\" title=\"capa do programa - cria\u00e7\u00e3o de JO\u00c3O SILVA da MARIA PUBLICIDADE\" src=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-PROGRAMA-393x1024.jpg\" alt=\"capa do programa - cria\u00e7\u00e3o de JO\u00c3O SILVA da MARIA PUBLICIDADE\" width=\"393\" height=\"1024\" srcset=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-PROGRAMA-393x1024.jpg 393w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-PROGRAMA-115x300.jpg 115w, http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/1997\/05\/BARBA-PROGRAMA.jpg 1167w\" sizes=\"(max-width: 393px) 100vw, 393px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-1932\" class=\"wp-caption-text\">capa do programa - cria\u00e7\u00e3o de JO\u00c3O SILVA da MARIA PUBLICIDADE<\/p><\/div>\n<p>Barba Azul foi feito ao mesmo tempo em que o Teatro Vila Velha passa por uma reforma, transformando-se num novo teatro. E durante o processo de constru\u00e7\u00e3o do espet\u00e1culo, semanalmente desc\u00edamos para visitar a obra que ent\u00e3o era um grande buraco na terra. Nesse buraco, na terra, constru\u00edmos as primeiras imagens da pe\u00e7a. Assim &#8211; penso poeticamente &#8211; Barba Azul est\u00e1 nos alicerces do novo Vila Velha. Cresceram juntos, os ensaios acompanhando a obra.<\/p>\n<p>Depois vieram os desenhos do figurino e a mobiliza\u00e7\u00e3o do grupo para execut\u00e1-Io. Veio a m\u00fasica de Monclar Valverde, fluindo como sangue entre os \u00f3rg\u00e3os e a coreografia de Cristina Castro como ar purificando tudo. E a for\u00e7a de Chica Carelli. E a luz&#8230;<\/p>\n<p>A luz de Jorginho de Carvalho tamb\u00e9m foi feita num sistema de oficina, por uma equipe de apaixonados. E criaram n\u00e3o s\u00f3 a luz para a pe\u00e7a, mas um sistema de ilumina\u00e7\u00e3o para transformar uma sala de ensaios numa nova sala de espet\u00e1culos.<\/p>\n<p>Aquelas situa\u00e7\u00f5es criadas foram se colocando nos lugares certos, virando cenas do Barba Azul. As vezes coisas que foram feitas para um personagem, eram estilha\u00e7adas, multiplicadas e recompostas para vinte deles. Textos criados por uns reviviam na boca de outros.<\/p>\n<p>Textos eram mutilados e cicatrizados com outras palavras. Cenas mudas criavam voz, cenas faladas silenciavam, viravam m\u00fasica ou coreografia, ou as duas.<\/p>\n<p>Personagens que se acreditava bonzinhos mostraram-se corruptos e violentos quando se confrontaram com situa\u00e7\u00f5es onde o dinheiro era a palavra condutora. Personagens pacatos viravam feras com o sangue conduzindo. Assim os instrumentos foram ganhando seu verdadeiro diapas\u00e3o, as c\u00e9lulas foram se relacionado, os tecidos foram ganhando textura.<\/p>\n<p>Estruturei ent\u00e3o o roteiro do espet\u00e1culo, e esses elementos foram se adensando, ganhando forma e fun\u00e7\u00e3o e se encaixando naquele esqueleto liter\u00e1rio como \u00f3rg\u00e3os de um corpo vivo.<\/p>\n<p>Uma vez constru\u00edda a c\u00e9lula &#8211; instrumento com o qual o ator trabalha durante todo o processo de cria\u00e7\u00e3o de um espet\u00e1culo &#8211; passamos a construir as situa\u00e7\u00f5es, cenas, os relacionamentos entre os personagens: os tecidos. E palavras surgiram para estrutura-Ios: dinheiro, poder, sexo e sangue.<\/p>\n<p>Antes de se fazer teatro \u00e9 necess\u00e1rio entender poesia e saber o que se quer. \u00c9 absolutamente necess\u00e1rio que um ator saiba exatamente o que est\u00e1 fazendo em cima de um palco. \u00c9 necess\u00e1rio que entenda seu mundo e o transforme em poesia capaz de mexer, de colocar em d\u00favida o que se acreditava absoluto.<\/p>\n<p>Mas antes disso as quest\u00f5es: para que fazer teatro? O que \u00e9 um grande ator? E o que \u00e9 teatro? Essas perguntas foram respondidas com trabalho f\u00edsico e com poesia. Escrevemos muitos poemas sobre tudo que faz\u00edamos, e esses poemas fazem agora parte do texto do Barba Azul.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">marcio meirelles<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">maio de 1997<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto publicado no programa da pe\u00e7a Barba Azul, encenada em Salvador, com estreia em 19 de maio de 1997 &#8211; Barba Azul vem sendo gestado h\u00e1 muitos anos. Mas s\u00f3 agora encontrei a mat\u00e9ria prima necess\u00e1ria para constru\u00ed-Io como poesia e como teatro. 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