{"id":650,"date":"2010-01-24T22:40:02","date_gmt":"2010-01-25T01:40:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=650"},"modified":"2011-09-24T22:41:01","modified_gmt":"2011-09-25T01:41:01","slug":"shakespeare-e-moliere","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2010\/01\/shakespeare-e-moliere\/","title":{"rendered":"Shakespeare e Moli\u00e8re"},"content":{"rendered":"<p><em>Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em 24 de janeiro de 2010.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deolinda, nosso debate no Facebook, iniciado por uma compara\u00e7\u00e3o, um tanto simplista, entre Shakespeare (cuja produ\u00e7\u00e3o dependia tamb\u00e9m do mercado) e de Moli\u00e8re (subsidiado por um rei esperto que via na obra do artista a possibilidade de marcar o seu reinado) seq\u00fc\u00eancia de outros que tivemos no mundo real, n\u00e3o foi sobre a privatiza\u00e7\u00e3o da cultura, como voc\u00ea sugere em seu artigo no Terra. Mesmo porque a cultura \u00e9 inprivatiz\u00e1vel, assim como \u00e9 inestatiz\u00e1vel. A cultura \u00e9 uma atribui\u00e7\u00e3o da sociedade, uma atividade constante e intermin\u00e1vel da humanidade. Fal\u00e1vamos sobre a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, especialmente a teatral. O que defendo \u2013 e sempre defendi, mesmo como artista de teatro e gestor cultural, antes de estar na secretaria de cultura \u2013 \u00e9 que:<\/p>\n<p>1 &#8211; O investimento de recursos p\u00fablicos nas atividades art\u00edsticas deve ser justificado pela necessidade e interesse p\u00fablicos da e naquela atividade. O que n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel apenas pela bilheteria. Mas tamb\u00e9m. A troca simb\u00f3lica da compra do ingresso ou do livro, ou do cd, ou do&#8230; \u00e9 parte da comprova\u00e7\u00e3o desse interesse. Mas, al\u00e9m dessa, h\u00e1 outras formas e dados para mensur\u00e1-lo: o benef\u00edcio que aquela atividade gera no desenvolvimento da comunidade ou da linguagem, sua import\u00e2ncia na preserva\u00e7\u00e3o de identidades e sentido de pertencimento, etc. tamb\u00e9m contam. Por outro lado, algumas vezes, o investimento governamental \u00e9 necess\u00e1rio exatamente quando se d\u00e1 o contr\u00e1rio: uma absoluta e sintom\u00e1tica falta de demanda por uma determinada atividade, sabidamente necess\u00e1ria ao desenvolvimento social pleno.<\/p>\n<p>2 &#8211; Que o Governo n\u00e3o pode ser a \u00fanica fonte de financiamento das atividades art\u00edsticas porque gera uma depend\u00eancia n\u00e3o saud\u00e1vel para elas. Quando a economia da cultura \u00e9 baseada exclusivamente, ou quase, na subven\u00e7\u00e3o estatal e n\u00e3o em pol\u00edticas p\u00fablicas de fomento, corremos sempre o risco de manipula\u00e7\u00e3o por parte dos governantes ou de subservi\u00eancia a eles por parte da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, e podemos perceber, nos momentos e lugares onde isso ocorre que sempre ser\u00e1 mais vigorosa e interessante a produ\u00e7\u00e3o marginal. Evidentemente toda regra tem exce\u00e7\u00f5es que a confirmam. Temos tamb\u00e9m boas produ\u00e7\u00f5es e inven\u00e7\u00f5es e transgress\u00f5es subsidiadas pelo estado. Esse \u00e9 o caso de um Moli\u00e8re ou o de uma Mnouchkine (que justifica plenamente o subs\u00eddio governamental recebido pelo Soleil pois o interesse p\u00fablico em suas produ\u00e7\u00f5es pode ser mensurado pela troca simb\u00f3lica \u2013 nas lota\u00e7\u00f5es esgotadas, na necessidade de reserva de bilhetes, etc. \u2013 mas tb pela preserva\u00e7\u00e3o de identidades, pela inova\u00e7\u00e3o da linguagem, pela aten\u00e7\u00e3o, sempre contempor\u00e2nea, ao benef\u00edcio social e pol\u00edtico que seu trabalho deve trazer ao mundo real, n\u00e3o s\u00f3 por ser subsidiada mas, principalmente, por ser artista \u2013 esses exemplos s\u00e3o e fazem hist\u00f3ria. N\u00e3o porque tiveram ou t\u00eam &#8220;patroc\u00ednio\u201d estatal mas pelo talento e genialidade que possuem suas obras \u2013 o que n \u00e9 fruto de patroc\u00ednio.<\/p>\n<p>Portanto n\u00e3o \u00e9 justo voc\u00ea sugerir que quero &#8220;privatizar a cultura&#8221; \u2013 sei que foi s\u00f3 uma provoca\u00e7\u00e3o de brincadeira mas, mesmo assim, injusta porque n\u00e3o corresponde ao que penso e pratico \u2013 ou levantar a suspeita de que tenho id\u00e9ias neo liberais. Estou longe disso, muito longe. Sei exatamente o papel do Estado, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural, mas sei tamb\u00e9m o papel do mercado e o do artista e\/ou produtor cultural. Al\u00e9m do que, cada sociedade e \u00e9poca t\u00eam sua hist\u00f3ria e o que d\u00e1 certo num determinado lugar n\u00e3o pode, muitas vezes, ser transferido, como solu\u00e7\u00e3o, para outros. Nem o que ocorre num momento hist\u00f3rico pode ser mantido eternamente, sem revis\u00f5es, porque as sociedades est\u00e3o sempre em movimento.<\/p>\n<p>Finalizando, creio que um estudo comparativo entre a sociedade da Inglaterra elisabetana e a da Fran\u00e7a absolutista, tendo como foco a economia da cultura e como isso gerou o teatro de um Shakespeare e de um Moli\u00e8re \u2013 evidentemente levando-se em conta a genialidade \u00fanica e humana deles \u2013 seria muito interessante.<\/p>\n<p>Beijos afetuosos e carregados de admira\u00e7\u00e3o pelo seu amor ao teatro \u2013 logo \u00e0 humanidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em 24 de janeiro de 2010. &nbsp; Deolinda, nosso debate no Facebook, iniciado por uma compara\u00e7\u00e3o, um tanto simplista, entre Shakespeare (cuja produ\u00e7\u00e3o dependia tamb\u00e9m do mercado) e de Moli\u00e8re (subsidiado por um rei esperto que via na obra do artista a possibilidade de<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=650"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":651,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/650\/revisions\/651"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}