{"id":656,"date":"2010-04-24T22:44:53","date_gmt":"2010-04-25T01:44:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=656"},"modified":"2011-09-24T22:46:30","modified_gmt":"2011-09-25T01:46:30","slug":"viva-o-rebolation","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2010\/04\/viva-o-rebolation\/","title":{"rendered":"Viva o Rebolation"},"content":{"rendered":"<p><em>Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em abril de 2010.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu gosto pessoal \u00e9 inclusivo: gosto tanto de ouvir Rebolation quanto Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht e leio hist\u00f3rias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afox\u00e9s. N\u00e3o tem que ser isso ou aquilo. Pode ser tudo. Porque tudo tem sua po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Cada coisa \u00e9 cada coisa. Por exemplo: letra de m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 poema, apesar de usarem ambos a mesma mat\u00e9ria prima: palavras. Nas letras de m\u00fasica, as palavras precisam ser associadas a r\u00edtmos, melodias e harmonias para criar imagens, reflex\u00f5es, deleite, divers\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Nos poemas, as palavras sozinhas criam ritmos, harmonias, melodias e imagens, dependendo do talento do poeta. Isolar a letra da m\u00fasica, \u00e0s vezes, \u00e9 como tirar um peixe da \u00e1gua. Mas musicar um poema pode resultar numa superposi\u00e7\u00e3o desastrosa. Mesmo que as duas experi\u00eancias, eventualmente, possam resultar em sucesso.<\/p>\n<p>Para adentrar no debate, precisamos diferenciar cultura, produto cultural, arte e ind\u00fastria cultural. S\u00e3o coisas distintas que se complementam. N\u00e3o se desmerecem nem h\u00e1 hirarquia. H\u00e1, sim um \u201cecosistema\u201d cultural. Redes produtivas que tornam tudo isso rico, diverso, vi\u00e1vel e sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>A cultura \u2013 nossos comportamentos, saberes e fazeres \u2013 nos alimenta de modos e s\u00edmbolos que nos identificam e permitem dialogar com o outro. E quanto mais consigamos tocar outros, melhor. Podemos ter duas sensa\u00e7\u00f5es distintas: a de que podemos melhorar o mundo, partilhando valores comuns; ou a de que podemos dominar o mundo.<\/p>\n<p>E esse universo simb\u00f3lico, voc\u00e1bulos e repert\u00f3rios identit\u00e1rios, traduz-se e se condensa em produtos culturais: objetos materiais ou imateriais, frutos dos relacionamentos do indiv\u00edduo com a natureza, do cidad\u00e3o com a sociedade e da preserva\u00e7\u00e3o dessas rela\u00e7\u00f5es pela mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p>A arte \u2013 ato de fazer com esmero \u2013 ressignificando os mesmos processos, muitas vezes com l\u00f3gicas subvertidas, constroi objetos art\u00edsticos que viram refer\u00eancias, \u00edcones, acervos, a patir de um consenso que envolve academia, m\u00eddia, mercado.<\/p>\n<p>A ind\u00fastria cultural possibilita a sustentabilidade da arte e o acesso a ela, gerando, a partir da apropria\u00e7\u00e3o das linguagens e produ\u00e7\u00f5es art\u00edsticas, novos \u00edcones e produtos art\u00edstico-culturais. Produzidos ou reproduzidos em s\u00e9rie e, cada vez mais, oferecidos ao p\u00fablico por engenhosos sistemas de marketing, s\u00e3o transformados em objetos de desejo e de consumo coletivo, democratizando\/massificando o acesso ao que era exclusivo dom\u00ednio de um grupo.<\/p>\n<p>Por mais que nos choquemos, a arte \u00e9 objeto de consumo e produto de troca desde sempre. A renascen\u00e7a come\u00e7ou a descentralizar isso, deslocando o eixo de produ\u00e7\u00e3o e patroc\u00ednio da esfera do p\u00fablico, determinados pelo Estado e pela Igreja, para a do privado, com o surgimento da burguesia e dos mecenas. E tamb\u00e9m deu in\u00edcio a populariza\u00e7\u00e3o de alguns setores, como o da literatura e das artes visuais, com as tecnologias de reprodu\u00e7\u00e3o em s\u00e9rie. Hoje, ingressos no teatro ou cinema, livros, cds, dvds, quadros, gravuras e todos os conte\u00fados veiculados pelas ind\u00fastrias da comunica\u00e7\u00e3o e da informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o comprados \u2013 ou seja, o acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica se d\u00e1 atrav\u00e9s de troca, ainda que essa troca possa ser subsidiada ou totalmente financiada pelo Estado ou por patrocinio da iniciativa privada. O que gera recursos e valores.<\/p>\n<p>Para uma elite manter sua posi\u00e7\u00e3o n\u00e3o basta apenas o dom\u00ednio e ac\u00famulo de recursos econ\u00f4micos. \u00c9 preciso tamb\u00e9m um dom\u00ednio e ac\u00famulo de bens simb\u00f3licos. E, sendo a linguagem tamb\u00e9m poder, essa elite constroi c\u00f3digos restritos para a comunica\u00e7\u00e3o entre alguns, seus pares. A intimidade com esses c\u00f3digos cria um grupo \u201cculto\u201d ou seja cultivado que se pretende cultuado sempre. As elites excluem evidentemente de seu c\u00edrculo aquilo que \u00e9 popular. Ou seja com o qual todo o povo \u2013 de qualquer classe \u2013 se identifica, entende, gosta e tem acesso. Podemos s\u00f3 lembrar a rea\u00e7\u00e3o da elite branca brasileira ao lundu, ao candombl\u00e9, ao samba, \u00e0 capoeira: express\u00f5es simb\u00f3licas dos pretos, das \u201cclasses inferiores\u201d. Poderia citar outros exemplos de rejei\u00e7\u00e3o. Mas fiquemos por a\u00ed.<\/p>\n<p>Isso acontece nas sociedades at\u00e9 um Picasso reconhecer e se apropriar dos valores est\u00e9ticos das m\u00e1scaras africanas, por exemplo. At\u00e9 a ind\u00fastria transformar o lamento do blues em discos, vend\u00e1veis. At\u00e9 o cinema perceber o pot\u00eancial dram\u00e1tico e cat\u00e1rtico das vidas nos guetos sociais. A\u00ed a coisa muda.<\/p>\n<p>Acontece que as periferias cansaram de cultuar a produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica da classe m\u00e9dia e seus art\u00edfices. Cansou de ver sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica retrabalhada em nova embalagem e seus art\u00edstas ascenderem e deca\u00edrem por for\u00e7a de um mercado consumidor. Cansou de ver os seus objetos \u2013 m\u00fasica, literatura, etc \u2013 serem considerados sub cultura&#8230;<\/p>\n<p>As periferias resolveram tomar atitude e cultivar seu pr\u00f3prio discurso, comunicar-se com seu igual atrav\u00e9s de seus pr\u00f3prios c\u00f3digos est\u00e9ticos. Virar as costas para uma sociedade que sistematicamente se recusa a encarar de frente a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o desse novo discurso inclui novos agentes culturais, novo vocabul\u00e1rio, novas m\u00eddias, novo mercado. Uma nova cadeia produtiva que n\u00e3o faz quest\u00e3o de dialogar com o centro. Que vive independente da vontade ou interfer\u00eancia dos ve\u00edculos ou agentes da ind\u00fastria cultural central. Isso \u00e9 poss\u00edvel agora, gra\u00e7as \u00e0s novas tecnologias digitais.<\/p>\n<p>E as elites, atrav\u00e9s de sua juventude, que \u2013 questionando valores geracionais, acabam batendo de frente com valores de classe \u2013 passam a consumir essa nova produ\u00e7\u00e3o cultural, a vestir, falar, andar como os jovens das periferias. A cultuar esses novos valores. Integrando esteticamente, de alguma forma, a periferia ao centro.<\/p>\n<p>Evidentemente, parte dessa elite, com uma intuiti\u00e7\u00e3o ou consci\u00eancia coletiva, de classe, percebe o perigo que suas posi\u00e7\u00f5es correm, quando os pretos e pobres saem das p\u00e1ginas policiais e ocupam o caderno de cultura. Sabe tamb\u00e9m o perigo que corre quando seus jovens come\u00e7am a frequentar as p\u00e1ginas policiais, atra\u00eddos pela m\u00edtica da periferia (\u201cseja marginal, seja her\u00f3i\u201d) e buscar aventura no lado B da cidade, que inclui tamb\u00e9m, como b\u00f4nus track, as drogas e seu discurso completo, sua nova sintaxe vernacular e comportamental. Essa elite passa ent\u00e3o a execrar a est\u00e9tica produzida na periferia, suas express\u00f5es e produtos.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o tem jeito, a ind\u00fastria cultural e a m\u00eddia abrem espa\u00e7o para os novos produtos extremamente vend\u00e1veis que, pelo seu apelo popular, j\u00e1 construiram um mercado paralelo. \u00c9 o que est\u00e1 acontecendo. A juventude se veste, fala, se comporta como garotos de favela. As g\u00edrias vem do mundo das drogas e as m\u00fasicas, dan\u00e7as e meios de curt\u00ed-las s\u00e3o tamb\u00e9m modos vindos da periferia. O ex\u00f3tico, o er\u00f3tico, v\u00eam com carga transgressora poderosa e promessas de viv\u00eancias culturais in\u00e9ditas.<\/p>\n<p>\u00c9 o que est\u00e1 acontecendo. O repert\u00f3rio \u00e9 direto, tem novos c\u00f3digos. A qualidade n\u00e3o se mede por letras de m\u00fasicas que podem sobreviver sozinhas como poesia apaziguadora. A beleza \u00e9 outra beleza. A desist\u00eancia da aspira\u00e7\u00e3o pelo eterno vem da consci\u00eancia da finitude e fragilidade da vida, que acaba com uma bala perdida, uma batida policial. Tudo \u00e9 fugaz e recicl\u00e1vel. Tudo \u00e9 reposto com muita velocidade, como os grafittes. Os novos \u00eddolos que surgem como revela\u00e7\u00e3o e se extinguem como fogos de artif\u00edcio, n\u00e3o s\u00e3o \u00eddolos, s\u00e3o objetos de desejo que, consumado, os devora. N\u00e3o \u00e9 preciso sofistica\u00e7\u00e3o para o fast food, apenas uma boa campanha de marketing e um sabor impactante.<\/p>\n<p>Quando as barreiras pol\u00edticas e sociais s\u00e3o detonadas pela cultura. Quando est\u00e9tica e repert\u00f3rio da periferia invadem o centro. Tanto faz onde vamos enfiar o que est\u00e1 todo enfiado. Precisamos repensar valores. Incluir. Porque \u00e9 a exclus\u00e3o que gera a viol\u00eancia. Os parametros est\u00e9ticos, os paradigmas formais, os conceitos dos contempor\u00e2neos antenados, a cultura e a civiliza\u00e7\u00e3o, eles que se danem. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Viva o Rebolation e a alegria de mexer os quadris.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Escrito por Marcio Meirelles, em Salvador, em abril de 2010. &nbsp; Meu gosto pessoal \u00e9 inclusivo: gosto tanto de ouvir Rebolation quanto Bach ou Cage ou Beatles ou Lucas Santana. Assim como monto Goethe ou Brecht e leio hist\u00f3rias em quadrinhos e me comovo com novela das seis ou afox\u00e9s.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=656"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":657,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/656\/revisions\/657"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}