{"id":674,"date":"1981-10-26T10:34:50","date_gmt":"1981-10-26T13:34:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=674"},"modified":"2011-12-13T20:26:33","modified_gmt":"2011-12-13T23:26:33","slug":"teatro-salvador-1981","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/1981\/10\/teatro-salvador-1981\/","title":{"rendered":"Teatro * Salvador * 1981"},"content":{"rendered":"<p><em>Artigo escrito por Carlos Petrovich e\u00a0Nilda Spencer e publicado na ART &#8211; Revista da Escola de M\u00fasica e Artes C\u00eanicas da UFBA, n. 3, de outubro\/dezembro de 1981, pp. 61-67.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<pre><span class=\"Apple-style-span\" style=\"font-family: Georgia, 'Times New Roman', 'Bitstream Charter', Times, serif; font-size: 13px; line-height: 19px; white-space: normal;\"><a href=\"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2011\/09\/capa.jpg\" target=\"_blank\">Clique aqui para baixar a capa da publica\u00e7\u00e3o<\/a><\/span><\/pre>\n<p>Na regi\u00e3o fant\u00e1stica que entremeia o espa\u00e7o do palco e o da plat\u00e9ia, acontece o Teatro. O teatro somente existe na rela\u00e7\u00e3o &#8211; nos liames que se\u00a0criam entre os espectadores e o jogo da cena. O esfor\u00e7o de atualiza\u00e7\u00e3o dessa linguagem, de natureza artesanal e intimista, tem, gerado &#8211; diante de um meio maci\u00e7amente cibern\u00e9tico-industrializado -\u00acfrentes de experimenta\u00e7\u00e3o que \u00e0s vezes s\u00e3o desagregadoras e \u00e0s vezes excessivamente cautelosas&#8230; Enfim dissecar o mecanismo teatral,com o objetivo de criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para que aquela rela\u00e7\u00e3o com a plat\u00e9ia se d\u00ea, de uma maneira significativa.<\/p>\n<p>O ano de 1981, se caracterizou por uma s\u00e9rie de eventos que, embora tenham articulado a linguagem de uma forma heterog\u00eanea e m\u00faltipla, possu\u00edram em comum, uma coer\u00eancia interna no tocante ao universo c\u00eanico, que os fez portadores de significados pr\u00f3prios e resolvidos no contexto da obra. O p\u00fablico n\u00e3o foi insens\u00edvel a este fato e sua resposta foi positiva. Acreditamos que os sucessos mencionados, justificam a tentativa de apreens\u00e3o cr\u00edtica do anu\u00e1rio teatral de 1981 realizada nesse artigo com o painel de depoimentos de v\u00e1rias pessoas participantes do processo.<\/p>\n<p><strong>A Significa\u00e7\u00e3o em Cena<br \/>\n<\/strong>Hamlet, em meio ao ambiente fantasmag\u00f3rico do Castelo de Elsenor, ensina aos atores que o objetIvo do teatro &#8220;tanto em sua origem como nos tempos que correm, foi e \u00e9 o de apresentar, por assim dizer, um espelho \u00e0 vida&#8221;. (1) Quatro s\u00e9culos depois, ainda que pese (e como pesa!) toda a longa discuss\u00e3o em torno das contradi\u00e7\u00f5es que se abrigam sob o termo &#8220;realismo&#8221;, a advert\u00eancia mant\u00e9m sua for\u00e7a, se consideramos que o teatro \u00e9, em suas mais variadas formas, a arte onde reside o maior grau de mimetismo. A distin\u00e7\u00e3o tra\u00e7ada por Arist\u00f3teles entre epop\u00e9ia e trag\u00e9dia, sublinhando a caracter\u00edstica fundamental de, na segunda, termos &#8220;todas as pessoas imitadas&#8221;, permanece valiosa. No palco, pessoas e coisas reais sofrem um duplo processo de perda parcial de uma &#8220;verdade&#8221; anterior (a pessoa do ator transfigurada em le\u00e3o, o velho fog\u00e3o rec\u00e9m-pintado, a l\u00e3 que agora \u00e9 uma tran\u00e7a) e de re-presenta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de novas realidades,criadas por mero pacto entre cena e p\u00fablico.<\/p>\n<p>Mas, \u00e9 claro, h\u00e1 espelhos e espelhos: dos de estojo de p\u00f3 compacto aos dos parques de divers\u00e3o que transformam o que refletem. Aprendemos, com a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o, que espelhar a vida \u00e9, inescap\u00e1vel, signific\u00e1-la, pois aquele que retrata escolhe os \u00e2ngulos, amplia, reduz, omite, inventa.<\/p>\n<p>Isto, que \u00e9 condi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria da representa\u00e7\u00e3o e em todas as artes, revela-se brutalmente, violentamente na representa\u00e7\u00e3o teatral, por seu aspecto material de &#8220;espessura de signos&#8221; (2). Qual urna l\u00edngua que combinasse de modo complexo, no sentido f\u00edsico mesmo, m\u00faltiplas dire\u00e7\u00f5es e planos de leitura (imagine-se um &#8220;texto&#8221; cujas linhas fossem tantas quantas as poss\u00edveis retas dos poss\u00edveis planos tra\u00e7\u00e1veis dentro de uma caixa) o idioma teatral desconhece a linearidade. Tudo est\u00e1 l\u00e1, sempre (no sempre que \u00e9 o agora da atua\u00e7\u00e3o) e gerando significados a um s\u00f3 tempo simult\u00e2neos e sucessivos na mente do espectador.<\/p>\n<p>Um balan\u00e7o mesmo superficial dos \u00faltimos espet\u00e1culos apresentados em Salvador mostra n\u00e3o o surgimento, mas o amadurecimento de uma consci\u00eancia da manipula\u00e7\u00e3o dos signos c\u00eanicos pelos encenadores. Digo n\u00e3o o surgimento pois pelo menos h\u00e1 uma d\u00e9cada o fato se registra, mas de forma descont\u00ednua e esparsa, em urna ou outra montagem, como se o acaso (esse brilhante matem\u00e1tico) preparasse a aprendizagem de palco e p\u00fablico. Dentro dos limites deste coment\u00e1rio, para enfocar uma amostra exemplar, discrimino apenas um elemento da linguagem teatral &#8212; o cen\u00e1rio e, mais exatamente, seus materiais &#8212; no trabalho de um dos v\u00e1rios grupos dignos de nota em tr\u00eas das talvez sete encena\u00e7\u00f5es que em 1981 justificaram o crescente ingresso de p\u00fablico nas salas de espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Ao longo de seis anos de vida e densa atividade, o Grupo Avel\u00e3z y Avestruz se comprometeu com os grandes temas, as grandes personagens, ignorando os assuntos &#8220;oportunos&#8221;, retomando e invertendo a &#8220;sagesse&#8221; popular: colocou seu chap\u00e9u onde bra\u00e7os humanos n\u00e3o podem alcan\u00e7ar. Em seq\u00fc\u00eancia, os cumes: a sede do absoluto (Fausto), a viagem no maravilhoso, no lado de l\u00e1 (Alice), a anarquia como desespero e esperan\u00e7a (Baal), a f\u00faria de Eros banhando-se em sangue humano (Salom\u00e9). At\u00e9 que acontecem &#8220;O Pai&#8221; e &#8220;Rapunzel&#8221;.<\/p>\n<p>Coordenando o grupo, M\u00e1rcio Meirelles acumula as fun\u00e7\u00f5es de diretor, cen\u00f3grafo e figurinista. Na evolu\u00e7\u00e3o de sua cenografia, e figurinos observa-se a passagem do fe\u00e9rico, do monumental de &#8220;Fausto&#8221; e &#8220;Alice&#8221;, onde usando e abusando da polifonia da linguagem teatral a que nos referimos, investe nos efeitos m\u00faltiplos e a profus\u00e3o de cores, formas e volumes por vezes emba\u00e7a o desenho c\u00eanico global, para a precis\u00e3o e economia de uma articula\u00e7\u00e3o eficaz de significantes, em &#8220;O Pai&#8221;. J\u00e1 &#8220;Baal&#8221; instaura um corte, uma ruptura, um exerc\u00edcio de despojamento &#8212; e aqui \u00e9 preciso tamb\u00e9m despojar a palavra de certos ecos adquiridos &#8212; que \u00e9 sin\u00f4nimo de maior riqueza justo pela determina\u00e7\u00e3o do processo significativo, abrindo leituras a partir de um fechamento fundamental.<\/p>\n<p>Perseguindo esse caminho, isolemos alguns elementos usados em seus cen\u00e1rios para tr\u00eas recentes espet\u00e1culos que produzem, a partir dos v\u00e1rios materiais, um fundamento sem\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Em &#8220;Rapunzel&#8221;, tecidos leves, leves arma\u00e7\u00f5es de madeira, fitas, tudo contribui para uma id\u00e9ia geral de leveza, de modo que o contraste dram\u00e1tico com a chegada da bruxa se estabelece \u2013 num certo plano digamos t\u00e1ctil de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 a partir do peso de seu volumoso vestido negro. Quando perguntei a M\u00e1rcio se as tran\u00e7as da protagonista seriam de corda, ele disse: &#8220;N\u00e3o, corda era muito pesado. S\u00e3o de l\u00e3.&#8221; E a natureza de l\u00e3 se funde \u00e0 natureza da personagem: leve, aparentemente fr\u00e1gil, mas firme, terna, e aconchegante.<\/p>\n<p>Em &#8220;Ubu Rei&#8221;, pl\u00e1stico na roupa e nos cen\u00e1rios, eletrodom\u00e9sticos, acr\u00edlico. Sem tentar&#8217; uma reflex\u00e3o pormenorizada da vasta rede sem\u00e2ntica do espet\u00e1culo e do texto de Jarry, aqui invi\u00e1vel, Pomos em foco o tra\u00e7o &#8220;viol\u00eancia&#8221; e o modo como esses materiais o veiculam, de imediato, \u00e0 sensibilidade do espectador. Sim, estamos aqui defendendo a motiva\u00e7\u00e3o do signo teatral, sua n\u00e3o-arbitrariedade malgrado todo o esfor\u00e7o poss\u00edvel de &#8220;dist\u00e2ncia&#8221; que uma encena\u00e7\u00e3o busque introduzir. Trata-se, nos exemplos que examinamos, de espelhar n\u00e3o o veross\u00edmil, mas o verdadeiro. O espectador sente a verdade das rea\u00e7\u00f5es do ator aos corpos com os quais entra em contato, e tem, ele pr\u00f3prio, sensa\u00e7\u00f5es de leve\/pesado\/liso\/\u00e1spero\/frio\/profundo\/alegre\/hostil, \u00e0 simples vis\u00e3o de certos elementos. Nenhum &#8220;como se&#8221; m\u00e1gico transforma sensivelmente o pl\u00e1stico em madeira ou algod\u00e3o, e o que n\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel ali n\u00e3o tem lugar.<\/p>\n<p>Comentando os mitos da sociedade moderna, Barthes reflete sobre a natureza e os efeitos do pl\u00e1stico.<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;\u00c9 uma subst\u00e2ncia alterada: seja qual for o estado em que se transforme, o pl\u00e1stico conserva uma apar\u00eancia flocosa, algo turvo, cremoso e entorpecido, uma impot\u00eancia de atingir alguma vez o liso triunfante da Natureza. Mas aquilo que mais o trai \u00e9 o som que produz, simultaneamente oco e plano. O ru\u00eddo que produz derrota-o, assim como as suas cores, pois parece poder fixar apenas as mais qu\u00edmicas: do amarelo, do vermelho e do verde s\u00f3 conserva o estado agressivo, utilizando-as somente como um nome, capaz de ostentar apenas conceitos de cores.&#8221; (3) .<\/p><\/blockquote>\n<p>O pl\u00e1stico \u00e9 bem o signo de um mundo que gera monstros inc\u00f4modos, n\u00e3o elimin\u00e1veis, n\u00e3o-degrad\u00e1veis.<\/p>\n<p>Em &#8220;O Pai&#8221; destacamos tr\u00eas elementos: um novelo de barbante manipulado pelas personagens femininas, uma escada em que elas se sentam como num trono (e \u00e0 qual o protagonista s\u00f3 tem acesso arrastando-se), o pr\u00f3prio umbigo da casa e centro do poder de Laura, e alguns tijolos desalinhados em semic\u00edrculo que constroem, limitam, e simultaneamente vazam, explodem, negam a viabilidade do per\u00edmetro dom\u00e9stico onde poderosas for\u00e7as antag\u00f4nicas colidem. Mesmo sem analisar os m\u00faltiplos aspectos da saga tr\u00e1gica de Adolph, tecida de muitos fios na pe\u00e7a de Strindberg (muitos dos quais &#8220;amputados&#8221; pelos cortes no texto), &#8220;O Pai&#8221; \u00e9, sobretudo, a est\u00f3ria de um homem &#8220;enredado&#8221; at\u00e9 a loucura e a morte, e este sentido capital foi realizado, constru\u00eddo cenicamente, fisicamente, de modo que a vis\u00e3o do enovelamento real do ator colava-se subitamente \u00e0 nossa sensa\u00e7\u00e3o da teia crescente onde a mente da personagem se debatia.<\/p>\n<p>Discriminamos estes exemplos para n\u00e3o saltar ainda mais rapidamente no coment\u00e1rio das \u00faltimas montagens realizadas em Salvador, por\u00e9m h\u00e1 mais, muito mais que se destacar. Em 1981 amadurece nos palcos baianos a luta corporal dos signos: ali tudo \u00e9 corpo, verbo feito carne, e n\u00e3o apenas o corpo do ator: o corpo do veludo, da seda, da madeira, do pl\u00e1stico, do metal, do leve, do pesado, do esvoa\u00e7ante, do molhado. S\u00e3o corpos, s\u00e3o espessuras que falam \u00e0 nossa pele. Quem nos falava melhor da aventura de um ingl\u00eas em terras negras do que o corpo do ator Wilson MeIo (L\u00edngua de Fogo)? Mat\u00e9ria branca suando, esvaindo-se, transmutando-se em pavor e deslumbramento.<\/p>\n<p>No percurso que vai desses corpos \u00e0s id\u00e9ias e sensa\u00e7\u00f5es que provocam, no trajeto, enfim, da significa\u00e7\u00e3o, o teatro baiano construiu um sentido, uma armadilha onde prendeu a consci\u00eancia de muitos espectadores.<\/p>\n<p>Cleise Mendes<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> SHAKESPEARE, William. Hamlet. Ato III, Cena 2.\u00a0Obra completa, R.J., Aguilar, 1969.<br \/>\n<sup>2<\/sup> BARTHES, Roland. Critica e Verdade. S.P.,\u00a0Perspectiva, 1970. p. 166.<br \/>\n<sup>3<\/sup> Mitologias. R.J.\/S.P., Difel, 1978. p. 112.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 o que \u00e9?<\/strong><br \/>\n<strong> Que pula pra cima e faz \u00e9 \u00e9 \u00e9!<\/strong><\/p>\n<p>\u00cah, v\u00f3h, \u00eah, Marfuz: L\u00edngua de fogo: Carranca de fogo. Gira no Mambemb\u00e3o com Leoa nua, cheia de fogo e tudo o mais que a Bahia tem raiz.<\/p>\n<p>\u00cah, v\u00f3h, \u00eah, Dourado: Ub\u00fa Roi: Rei Ub\u00fa. \u00eah, v\u00f3h, \u00eah, Edy Ribeiro: Viveu e, morreu completamente, com seus vinte anos, duas, vezes, no palco da sala do coro do TCA. \u00cah, v\u00f3h, \u00eah, Eug\u00eania, Cleise, Iumara, Sonia Rangel, Arly, Irema, Hebe, Rita Assemany, Nilda, Ana Pinto e Joana, algumas das mulheres que fizeram personagens, textos, cen\u00e1rios e espet\u00e1culos nos palcos da Bahia.<\/p>\n<p>Ano hum da d\u00e9cada de oitenta. Neste ano o teatro na Bahia quase re-nasceu. Passou raspando os umbrais. Fez-se o poss\u00edvel e muito mais. Elencos de multid\u00f5es de atores houve v\u00e1rios e foi-se a cena com apenas, uma pessoa. _ preciso dizer que um espet\u00e1culo chegou a conseguir o m\u00e1ximo de s\u00edntese, ou &#8220;quebrou as leis do teatro&#8221;, pois autor, diretor, ator, produtor, cr\u00edtico, e no dia que n\u00e3o houve gente na plateia \u00eale, unicamente \u00eale, foi e, fez de tudo, inclusive de p\u00fablico: E Maria Antoni\u00eata p\u00f5e-se na torre a sonhar (correspondente de um jornal da terra), via-se tamb\u00e9m como estrela, via-se doidamente a brilhar. E sentou a &#8220;ripa&#8221; numa por\u00e7\u00e3o de coisas se mostrou nas cenas de Salvador. E parece que repercutiu. Diz-se, \u00e0 b\u00f4ca pequena, que por causa dela Wilson Meio fez vestibular para dire\u00e7\u00e3o teatral na UFBA. Imaginem, o Wilson: Vinte e cinco anos de tarimba. De parab\u00e9ns a escola de teatro. Bom, acho at\u00e9, que a &#8220;ti\u00eata&#8221; deve ter influenciado um pouco na pol\u00edtica de fazer m\u00e9dia com as bases. Constru\u00edram um teatro nos alagados: Muito embora a Funda\u00e7\u00e3o conseguisse mais uma vez deixar de equipar com o m\u00ednimo, os trinta e tantos audit\u00f3rios que existem nas escolas, nos bairros e sub\u00farbios de nossa cidade. Apesar disso e de muito _ o nosso pessoal f\u00eaz e ref\u00eaz. Muitos grupos fizeram trabalhos bons. Alguns se prepararam nas \u00faltimas pra pegar o boi\u00e3o da Funda\u00e7\u00e3o. Bem, isso tamb\u00e9m faz uma das partes. Numa terra onde n\u00e3o h\u00e1 teatro tradicional e todos querem \u00e9 fazer vanguarda. Haja vanguarda: E \u00e9 tanta que alguns vizinhos nossos, l\u00e1 da Vila, j\u00e1 est\u00e3o em &#8220;guarda&#8221; por que acham que nada entendem do que se mostra no teatro. Disse-me Crispim, assim assim pra mim; &#8211; o bom mesmo, fora carnaval e foot ball, \u00e9 show de cantor e novela de televis\u00e3o. E continuou, assim assim, &#8211; Porque voc\u00ea n\u00e3o faz l\u00e1 na universidade alguns shows e umas novelas e traz aqui pra gente v\u00ea&#8230; \u00c9, disse-lhe eu, \u00e9 isso a\u00ed. Sa\u00ed d\u00eale. Busquei outra cena, pensando: qualquer dia d\u00easses vou propor aos colegas que em vez de Escola de Teatro, dever\u00edamos nos ocupar com uma escola de novelas. Acho que daria mais certo. Isto \u00e9 s\u00e9rio. Tem muito o que pensar. Quando o p\u00fablico n\u00e3o vai mais ao teatro o espet\u00e1culo morre, o teatro implode e passa a ser feito como exerc\u00edcio de ser (o ator faz para si). Faz-se teatro como auto-educa\u00e7\u00e3o (o que fazer, se a educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9?). H\u00e1 a quest\u00e3o da chama. A luz \u00e9 a luz. E, por outro lado, h\u00e1 o risco do enclausuramento nos &#8220;dialetos est\u00e9ticos&#8221; que possibilitam alguns grupos sobreviverem por algum tempo apenas, realimentando-se com um trabalho tit\u00e2nico. Pirandello aconteceu. \u00caste nos mostrou Harildo, outro. Dourado e M\u00e1rcio, dois exorcistas, purgaram a cena. O Pai e Ub\u00fa marcaram um limite na implos\u00e3o. Casas cheias diariamente. Mesmo porque nem toda nudez \u00e9 castigada. Nelson Rodrigues, Pirandello, Strindberg e Jarry, a Bahia os merece. E muito mais. O grupo de dan\u00e7a do TCA.\u00a0Embora Burty n\u00e3o goste de dan\u00e7ar. \u00c9 mercado para o trabalhador da dan\u00e7a. Logo,outros grupos! \u00c9 hora de mostrar tudo o que temos al\u00e9m do &#8220;folclore&#8221;. Circular (mambembar) no interior, em toda a Bahia, com tudo o que na capital se faz. &#8220;Painel&#8221; de n\u00f3s para n\u00f3s. Ou, ent\u00e3o, quem sabe, qualquer dia desses os h\u00e1bitos e os costumes ser\u00e3o varridos pelas eficient\u00edssimas repetidoras da televis\u00e3o e Bahia n\u00e3o haver\u00e1 mais.<\/p>\n<p>Como diz um amigo nosso: &#8220;Tr\u00eas televis\u00f5es, tr\u00eas cachorras da molesta, vivem de fazer festas sem usar o bom da terra. E toda a beleza se encerra nos enlatados do Sul&#8221;. E Rei Ub\u00fa pro c\u00eas, aqui do lado de f\u00f3ra. E muitas avel\u00e3s. Outro tanto de avestruz. Porque teatro houve e h\u00e1. Pra quem te v\u00ea e quem te viu. Muita for\u00e7a organizada. H\u00e1 produto de qualidade. Entretanto a fal\u00eancia \u00e9 absoluta na distribui\u00e7\u00e3o e\/ou circula\u00e7\u00e3o desse produto. Fun\u00e7\u00e3o esta, da Funda\u00e7\u00e3o Cultural, que isolada das demais institui\u00e7\u00f5es, se restringe \u00e0 fal\u00e1cia da promo\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>O problema do teatro entre n\u00f3s ficou claro no ano hum da decada. N\u00e3o est\u00e1 centrado no &#8220;fazer&#8221;. Temos criadores e mantenedores de espet\u00e1culos em cartaz. O que falta a nosso teatro \u00e9 lev\u00e1-Io ao p\u00fablico aonde \u00eale se encontrar. O que falta ainda \u00e9 apoio \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o, \u00e0 venda e \u00e0 circula\u00e7\u00e3o do produto art\u00edstico. Um espet\u00e1culo girando, capital e interior do estado, pode manter o trabalhador da arte empregado com um ano corrido de contrato. Qualidade, na continuidade assegurada. Isto \u00e9 vital. O Sindicato vem a\u00ed, quem chora tem que r\u00ed. Benvindo seja: Eh, v\u00f3h, \u00eah, e ach\u00e9, para \u00easse pov\u00e3o teatral: Ei, a\u00ed vem o metr\u00f4 do Rio Vermelho. Vamos todos \u00e0 &#8220;F\u00e1brica&#8221; do Avel\u00e3z e Avestruz. De oitenta e dois, a luz!<\/p>\n<p>Carlos Petrovich<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Panorama<\/strong><br \/>\nQuem acompanhou o movimento teatral baiano no ano de 81, p\u00f4de verificar que dentro dos pr\u00f3s e contras, das boas e m\u00e1s apresenta\u00e7\u00f5es, um ponto fixo, verdadeiro tra\u00e7o de uni\u00e3o entre os diversos grupos continuou existindo: a insist\u00eancia em se fazer bom teatro na Bahia. Conseguindo ou n\u00e3o, isso contribuiu para a evolu\u00e7\u00e3o dos nossos artistas, para a amplia\u00e7\u00e3o do nosso mercado de trabalho, para a conserva\u00e7\u00e3o do pequeno p\u00fablico existente e quem sabe, atraindo at\u00e9 novos adeptos para a dif\u00edcil arte de representar.<\/p>\n<p>N\u00e3o querendo cometer lapsos de mem\u00f3ria ou injusti\u00e7a com quem quer que seja, preferimos salientar aqui, o trabalho homog\u00eaneo de todos aqueles que fizeram do ano de 81 mais uma etapa progressiva para as suas diversas metas. Assim o fez o Teatro Castro Alves com a sua programa\u00e7\u00e3o e o seu j\u00e1 t\u00e3o conceituado Curso Livre, o Teatro Gamboa com a perseveran\u00e7a e sensatez do seu diretor, o Teatro Vila Velha com a nova dire\u00e7\u00e3o, o teatro Maria Beth\u00e2nia com a sua luta constante, o grupo Avel\u00e3z Y Avestruz que j\u00e1 conseguiu at\u00e9 uma boa cr\u00edtica no exterior, e tantos outros grupos, incluindo os amadores, que constituem um todo no panorama teatral baiano, apesar das diferen\u00e7as essenciais.<\/p>\n<p>Mas um fator marcante, digno, e, sobretudo animador, \u00e9 o trabalho que os alunos do Departamento de Teatro da Escola de M\u00fasica e Artes C\u00eanicas da UFBa v\u00eam realizando dentro da sua programa\u00e7\u00e3o, vencendo todas as dificuldades que se apresentam num malabarismo \u00edmpar, concorrendo, de certo modo para as modifica\u00e7\u00f5es e vantagens que certamente ter\u00e3o no ano de 82. Suas montagens t\u00eam conseguido sensibilizar os seus superiores e agradar em cheio o p\u00fablico baiano t\u00e3o acomodado nos dias atuais com os enlatados dos canais televisivas. Com pouca verba, os alunos, futuros diretores, se tornam tamb\u00e9m produtores atrav\u00e9s de contatos com o com\u00e9rcio e a ind\u00fastria da Bahia, fazendo-os, indiretamente, co-produtores dos diversos espet\u00e1culos. A miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil em se tratando de um processo j\u00e1 t\u00e3o explorado, mas a verdade \u00e9 que eles conseguem tudo ou quase tudo o que querem. O exemplo vivo de uma juventude lutando por um ideal, numa aceita\u00e7\u00e3o quase grega, \u00e1vida para realizar um trabalho que \u00e9 o grito direto de suas voca\u00e7\u00f5es. Sem querer supervalorizar esse trabalho, mas fazendo a justi\u00e7a que merece, as montagens dos alunos de Teatro, sejam elas de gradua\u00e7\u00e3o ou do Curso de Dire\u00e7\u00e3o Teatral t\u00eam correspondido \u00e0 expectativa de seus incentivadores, un\u00e2nimes em sustentar uma credibilidade em todos esses valores.<\/p>\n<p>Por outro lado sentimos em 81 a necessidade urgente de um grupo profissional real, completamente desligado de ajudas de Funda\u00e7\u00f5es. Um grupo que tenha produ\u00e7\u00e3o independente e por isso mesmo poss\u00edvel de chamar a aten\u00e7\u00e3o para outros produtores profissionais. O nosso teatro carece de produtores. Infelizmente o interesse destes se centraliza nos shows de m\u00fasica popular com os grandes nomes e n\u00e3o depositam nenhuma f\u00e9 nas montagens teatrais.<\/p>\n<p>Nilda Spencer<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo escrito por Carlos Petrovich e\u00a0Nilda Spencer e publicado na ART &#8211; Revista da Escola de M\u00fasica e Artes C\u00eanicas da UFBA, n. 3, de outubro\/dezembro de 1981, pp. 61-67. &nbsp; Clique aqui para baixar a capa da publica\u00e7\u00e3o Na regi\u00e3o fant\u00e1stica que entremeia o espa\u00e7o do palco e o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[122],"tags":[38,138,139,33,140,64,141],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/674"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=674"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/674\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":677,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/674\/revisions\/677"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=674"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=674"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=674"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}