{"id":749,"date":"2010-04-02T23:20:50","date_gmt":"2010-04-03T02:20:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=749"},"modified":"2012-02-21T22:12:14","modified_gmt":"2012-02-22T01:12:14","slug":"pina-bausch-contato-com-o-humano","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2010\/04\/pina-bausch-contato-com-o-humano\/","title":{"rendered":"PINA BAUSCH: CONTATO COM O HUMANO"},"content":{"rendered":"<p><em>Artigo de Marcio Meirelles para o jornal <\/em><strong>A Tarde<\/strong><em>, sobre a core\u00f3grafa Pina Bausch (1940-2009)<\/em><\/p>\n<p>\u201cEra para todos terem mais de 65 anos, assim como era para serem todos daqui de Wuppertal&#8230;mas foram se infiltrando. E tem alguns com 60, mas tamb\u00e9m tem alguns com mais de 80. E nem todos moram na cidade, alguns moram nos arredores\u201d \u2013 Os olhos de Pina Bausch brilham quando ela fala de seu novo elenco: n\u00e3o-dan\u00e7arinos, n\u00e3o-atores. Pessoas com mais de 60 anos. A dan\u00e7a j\u00e1 tinha tido passagem pela vida de alguns deles. Mas passou, e, para outros, veio o novo, a descoberta do palco e suas possibilidades: um universo paralelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Pina Bausch escolheu esse elenco depois de uma sele\u00e7\u00e3o, anunciada, para a qual compareceram 110 mulheres. Os homens vieram em menor quantidade. Mas ainda assim foram muitos. Pessoas com at\u00e9 mais de 80 anos. Foram escolhidos 25, dois a mais do que o elenco original.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Simultaneamente foi realizada, com o elenco regular da Wuppertal Tanz Theater, a remontagem a mesma pe\u00e7a <em>Kontakthof<\/em>, de 1979. O espet\u00e1culo se passa numa sala com paredes altas, teto, duas portas, um piano de arm\u00e1rio, um janel\u00e3o por onde entra uma forte luz em diagonal. Circundando as paredes da esquerda, do fundo e da direita, est\u00e3o cadeiras enfileiradas, como numa sala de espera. \u00c9 o que \u00e9 aquela sala de algum modo. As pessoas v\u00e3o ali esperar que algo aconte\u00e7a. Um encontro, um contato.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Nada se interp\u00f5e entre n\u00f3s e o espet\u00e1culo. O contato entre esses dois mundos \u00e9 poss\u00edvel. E muitas vezes o elenco interage diretamente com o p\u00fablico. Uma das dan\u00e7arinas pede constantemente dinheiro a algu\u00e9m da plat\u00e9ia para fazer funcionar um desses cavalinhos onde as crian\u00e7as sentam-se, os pais colocam uma moeda e ele simula uma cavalgada, como movimentos mec\u00e2nicos. A dan\u00e7arina n\u00e3o consegue fazer o brinquedo funcionar. Tenta v\u00e1rias vezes, e cada vez pede uma nova moeda a algu\u00e9m. At\u00e9 que uma outra dan\u00e7arina mostra a ela como se faz, pressionando um bot\u00e3o ao lado do receptor de moedas. Ent\u00e3o, com o cavalinho funcionando, ela senta-se e comp\u00f5e uma das imagens mais bonitas sobre a solid\u00e3o, que o espet\u00e1culo nos mostra. Ela cavalga o brinquedo com movimentos sutis de quadris, que at\u00e9 poderiam sugerir uma masturba\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 feito de um modo t\u00e3o melanc\u00f3lico e delicado, que o que nos aparece \u00e9 toda a solid\u00e3o feminina, num mundo povoado por regras masculinas, onde se busca desesperadamente contatos que quebrem essas regras. Que tragam mais poesia \u00e0 vida e a tornem mais real.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p><em>Kontakthof<\/em>, uma pe\u00e7a de Pina Bausch, \u00e9 como diz o programa, o cartaz e todo o material impresso. Ali\u00e1s \u00e9 o que diz todo o material sobre todos os espet\u00e1culos criados pela core\u00f3grafa. E \u00e9 f\u00e1cil saber porque. Sua marca est\u00e1 l\u00e1, evidente. Todos os elementos sempre comparecem e sempre surpreendem. Ela usa sistematicamente o vocabul\u00e1rio que criou: pequenos gestos, curtas seq\u00fc\u00eancias coreogr\u00e1ficas, texto. Depoimentos dos atores, situa\u00e7\u00f5es l\u00edricas, po\u00e9ticas, catastr\u00f3ficas, absurdas, mas veross\u00edmeis \u2013 poss\u00edveis de serem vistas na rua, em casa, em qualquer lugar onde o homem habita. A marca de Pina Bausch \u00e9 esta: a marca da humanidade. Em tudo o que ela faz est\u00e1 o humano e a capacidade de entender, de alguma forma, e, principalmente, de amar essa criatura que tamb\u00e9m povoa o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p><strong>Novo rumo<br \/>\n<\/strong>\u201cEles eram incr\u00edveis\u201d. Trabalhavam sem parar e com muita alegria. Trabalhavam muitas horas por dia, s\u00f3 tinham um intervalo para o lanche e voltavam, n\u00e3o queriam parar . \u00c0s vezes Pina ficava com medo, achava que estava sendo demais, mas eles diziam: tudo bem. De vez em quando algu\u00e9m faltava um dia, geralmente para fazer exames m\u00e9dicos de praxe, mas isso era muito raro. Ensaiavam avidamente. \u201cCom mais energia que os dan\u00e7arinos\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei porque ela resolveu montar a pe\u00e7a com esse elenco especial, al\u00e9m de remontar com seu elenco regular.<br \/>\n&#8211; \u201cKontakthof \u00e9 sobre o desejo de contato entre as pessoas. E isso todo mundo tem. As pessoas mais velhas n\u00e3o perdem esse desejo. Ao contr\u00e1rio, eu quis ver como era isso\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Pina Bausch est\u00e1 sempre colocando a sua marca por onde toca e est\u00e1 sempre falando sobre o amor. Li uma entrevista, onde ela dizia que mais do que nunca nesse fim de s\u00e9culo \u00e9 necess\u00e1rio se falar sobre o amor. E amor aqui se traduz por contato. A necessidade de estar junto, de vencer o tempo. E ela fez isso em dose dupla para n\u00e3o deixar d\u00favidas sobre seus prop\u00f3sitos. Com seu elenco regular. E com esse elenco especial que coloca sobre o palco quase dois mil anos de humanidade, se somarmos as idades dos n\u00e3o-atores participantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>O diferencial desse elenco tamb\u00e9m \u00e9 o fato de que a busca \u00e0 qual se lan\u00e7a \u00e9 verdadeira, n\u00e3o \u00e9 somente uma busca est\u00e9tica ou profissional, mas, antes uma necessidade. Para esse elenco de pessoas com mais de 65 anos fazer <em>Kontakthof<\/em> e estar no palco \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o exata de uma necessidade vital de ser e estar no mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Nosso encontro foi na ter\u00e7a-feira, ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o da companhia regular, a estr\u00e9ia do novo elenco seria na sexta. Eles fariam tr\u00eas apresenta\u00e7\u00f5es e tudo terminaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 come\u00e7o a pensar na segunda-feira. O que eles far\u00e3o na segunda-feira? Divagou a core\u00f3grafa. \u00c9, o que far\u00e3o?, perguntei. Seus olhos se apagaram ali e acenderam em outro lugar qualquer, em algum mundo poss\u00edvel. Os convidados do jantar deram novos rumos \u00e0s conversas e deixaram-na se perder por a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Comecei a conversar com Ruth Amarante, a dan\u00e7arina brasileira da companhia, sobre o trabalho da Wuppertal Tanz Theater. Ela est\u00e1 na companhia h\u00e1 oito anos. J\u00e1 participou de algumas montagens e algumas remontagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Todo o processo de montagem \u00e9 muito longo. Eles est\u00e3o trabalhando na pr\u00f3xima produ\u00e7\u00e3o, sobre o Leste Europeu, desde setembro. Estr\u00e9iam em maio. \u201cN\u00e3o me lembre disso\u201d, disse uma sorridente e resignada Pina Bausch.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Durante a primeira parte do processo, eles s\u00f3 improvisam. Ela traz perguntas que eles procuram responder das mais variadas formas, sozinhos ou em grupos. \u00c0s vezes pedem um tempo, ensaiam um pouco e apresentam para ela, que apenas olha e n\u00e3o diz nada. Anota o importante nas profundezas esf\u00edngicas de seus olhos azuis.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>O elenco sai \u00e0s vezes arrasado, \u00e0s vezes exultante dos ensaios. Isso depende exclusivamente deles, porque a core\u00f3grafa n\u00e3o comenta nada, nem avalia os desempenhos. Isso para um dan\u00e7arino ou ator significa morte lenta. Eles saem dos ensaios e anotam tudo, porque depois de meses de improvisa\u00e7\u00f5es, intercaladas por remontagens, turn\u00eas e apresenta\u00e7\u00f5es, come\u00e7a a constru\u00e7\u00e3o de mais uma pe\u00e7a de Pina Bausch e ela o faz tecendo todo o material que foi trazido pelo elenco. Caso n\u00e3o lembrem do que fizeram nas improvisa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o faz mal, \u00e9 porque n\u00e3o era t\u00e3o importante assim. E seguem adiante. Ela mesma, al\u00e9m das perguntas e anota\u00e7\u00f5es, traz muito pouca coisa para essa constru\u00e7\u00e3o. Seu verdadeiro trabalho \u00e9 o de tecel\u00e3. Com dedos delicados vai emendando, costurando um gesto no outro, uma imagem na outra, colando, polindo, limpando. Com toda a propriedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>No caso das remontagens eles n\u00e3o improvisam nada. Ao contr\u00e1rio, cada detalhe, cada olhar do elenco da montagem original \u00e9 refeito pelo novo elenco. Primeiro eles assistem muitas vezes os v\u00eddeos, depois come\u00e7am a restaura\u00e7\u00e3o, e o fazem com esmero e precis\u00e3o, com toda a fidelidade poss\u00edvel, para que o original resplande\u00e7a e a pe\u00e7a fique viva como na primeira apresenta\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a magia do teatro e da dan\u00e7a, \u00e9 a magia dif\u00edcil de ser conseguida, mas poss\u00edvel: ser sempre uma obra viva.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>De repente, os olhos de Pina Bausch se iluminam outra vez, depois de terem vagado por outras paragens, ainda que estivesse atenta a tudo, e os circundantes da mesa se voltam para ela. \u201cTem outra pe\u00e7a que posso fazer com o elenco dos mais velhos. \u00c9 uma sobre velhas can\u00e7\u00f5es baratas dos anos 30, 40. Tem uma mesa no centro do palco, e tudo gira em torno dessas can\u00e7\u00f5es sentimentais\u201d. Assim, mais uma teia pode come\u00e7ar a ser tecida.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">xxx<\/p>\n<p>Mas antes, o pr\u00f3ximo trabalho de Pina, depois da produ\u00e7\u00e3o sobre o Leste Europeu, ser\u00e1 sobre o Brasil. Ela ainda n\u00e3o sabe o que ser\u00e1. Ir\u00e1 com a companhia no fim do ano a S\u00e3o Paulo, onde apresentar\u00e1 <em>Mazurca Fogo<\/em>, \u201cpe\u00e7a criada em Lisboa, mas com tantas m\u00fasicas brasileiras que parecer\u00e1 familiar\u201d. Depois ela e parte do elenco ficam mais um tempo no Brasil, pesquisando, vendo coisas, vendo gente. \u2013 \u201cO trabalho de Pina sempre \u00e9 sobre gente\u201d, observa sua produtora. E a Bahia est\u00e1 nos seus planos, \u00e9 claro. \u201cSempre foi um sonho visitar a Bahia\u201d. Ela sorri.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de Marcio Meirelles para o jornal A Tarde, sobre a core\u00f3grafa Pina Bausch (1940-2009) \u201cEra para todos terem mais de 65 anos, assim como era para serem todos daqui de Wuppertal&#8230;mas foram se infiltrando. E tem alguns com 60, mas tamb\u00e9m tem alguns com mais de 80. 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