{"id":769,"date":"2010-10-03T00:54:45","date_gmt":"2010-10-03T03:54:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/?p=769"},"modified":"2019-08-13T19:23:33","modified_gmt":"2019-08-13T22:23:33","slug":"cartas-abertas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/2010\/10\/cartas-abertas\/","title":{"rendered":"Cartas Abertas"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto escrito por Marcio Meirelles, publicado no programa de &#8220;Cartas Abertas&#8221;, apresentado pelo Teatro dos Novos, no Teatro Vila Velha, entre 07 a 22.03.2005<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois da estr\u00e9ia de Barba Azul, com o elenco que viria a ser o n\u00facleo da nova Companhia dos Novos, falei que queria fazer um espet\u00e1culo a partir de cartas femininas, ou melhor, cartas escritas por mulheres. J\u00e1 que desde ent\u00e3o se instalou uma quest\u00e3o sobre a exist\u00eancia de uma escrita feminina.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos a fazer Um tal de Dom Quixote, para re-inaugurar o Vila, depois veio Sonho de uma noite de ver\u00e3o e depois Fausto # Zero, depois, depois, depois&#8230; as cartas ficaram sem destinat\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 2002, quando fiz 30 anos de teatro, quis comemorar com as cartas. V\u00e1rias atrizes se interessaram pelo projeto, chegamos a divulgar, v\u00e1rias mulheres nos mandaram cartas, se interessaram, come\u00e7ou a haver um tr\u00e2nsito pela internet. Nos reunimos, lemos, lemos, lemos. Muitas cartas nos encantaram.<\/p>\n<p>O espet\u00e1culo chegou a ter t\u00edtulo: Cartas f\u00eameas, Mulheres epistolares e outros. A discuss\u00e3o se uma escrita feminina \u00e9 necessariamente produzida por mulheres ou se existe, sequer, uma escrita feminina seja ela produzida por quem for.<\/p>\n<p>Creio que existe uma alma feminina, n\u00e3o s\u00f3 nas mulheres ou nas f\u00eameas, mas em toda a natureza. Como existe uma alma masculina. Como separar uma de outra? Deve-se separar uma de outra? Quais as caracter\u00edsticas espec\u00edficas? Ou isso de feminino e masculino n\u00e3o est\u00e1 na alma e sim no corpo? S\u00e3o detalhes anat\u00f4micos envolvidos por um esp\u00edrito de g\u00eanero, este sim constru\u00eddo masculino ou feminino, atrav\u00e9s de experi\u00eancias de vida? E nisso cultura e civiliza\u00e7\u00e3o e sociedade humana se metem.<\/p>\n<p>E onde se metem cultura, civiliza\u00e7\u00e3o e sociedade, pode haver teatro. Tratando agora do assunto, quero, com essas atrizes, Jarbas, Wanderley e Jo\u00e3o V\u00edtor, discutir isso. Qual o papel que a mulher, corpo\/recept\u00e1culo desse esp\u00edrito ou alma femininos, tem na sociedade. \u00c9 estranho que, sendo homem, dirija um espet\u00e1culo que d\u00e1 voz a mulheres. Como \u00e0s vezes me sinto estranho dirigindo o Bando de Teatro Olodum \u2013 muitas vezes, publicamente, j\u00e1 foi denunciado o fato de um n\u00e3o negro dirigir um grupo de atores negros e fazer um discurso negro. Pois \u00e9, talvez tenha passado minha vida em busca de entender o outro atrav\u00e9s de seu discurso. Fazendo-o meu tamb\u00e9m. Talvez eu seja uma farsa, em busca de ser alguma coisa que n\u00e3o sou. O tempo vai dizer.<\/p>\n<p>Agora, quando a Companhia dos Novos retoma o projeto 3 &amp; Pronto e cabe a mim a dire\u00e7\u00e3o da primeira pe\u00e7a da s\u00e9rie, a id\u00e9ia das cartas retorna. Muitas das atrizes do espet\u00e1culo, estiveram nos dois momentos anteriores desse projeto. Nos reunimos de novo e desarquivamos as cartas escritas e coletadas. Novas ep\u00edstolas foram escritas para complementar o material que t\u00ednhamos em m\u00e3os. E era um material vasto. As atrizes se mobilizaram para trazer o maior n\u00famero de cartas poss\u00edvel. Cartas pessoais, publicadas; de personalidades hist\u00f3ricas que admiramos, de mulheres an\u00f4nimas, de m\u00e3es, av\u00f3s, amigas. Cartas escritas pelas atrizes, como se fossem personagens a falar de assuntos que nos interessava colocar no espet\u00e1culo \u2013 cartas fict\u00edcias, portanto. Dentro da fic\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m procuramos: cartas em romances, contos&#8230; cartas escritas por personagens femininos.<\/p>\n<p>Todo esse material foi dividido entre as atrizes que selecionaram o que lhes interessava e iam passando as outras para as colegas que separavam. Depois foi escolher fragmentos e organizar com uma certa ordem, por temas. Cacilda Povoas, que ia compilar o material e assinar o texto, resolveu participar do espet\u00e1culo no palco, ent\u00e3o assumi a tarefa de dar a forma final aos fragmentos e cartas que selecionamos. Nisso ela me ajudou muito e tamb\u00e9m Wanderley Meira.<br \/>\nDepois foi ir para o palco. Decidi fazer um espet\u00e1culo confessional, onde cada atriz atuar\u00e1 especialmente para tr\u00eas pessoas que estar\u00e3o sentadas nas mesmas mesas que elas. Isso limitou o n\u00famero de pessoas no p\u00fablico. Tr\u00eas para cada atriz, s\u00e3o 39, j\u00e1 que Sonia Robato n\u00e3o estar\u00e1 no mesmo ambiente que as outras. Selecionei para ela o espa\u00e7o mda mem\u00f3ria, do sonho. E apenas duas cartas e um post scriptum que nos abrem a alma de tr\u00eas mulheres: uma m\u00e3e\/autora, uma filha\/destinat\u00e1ria, uma amante que espera e uma \u00faltima personagem que nos dizem que a alma de uma mulher precisa de poesia para que qualquer amor sobreviva.<\/p>\n<p>Para Sonia entreguei essa fun\u00e7\u00e3o no espet\u00e1culo. E o prazer, muito especial, de poder estar outra vez com ela em um trabalho meu. Dedico a ela essa pe\u00e7a. A ela, a Chica e a todas as mulheres que generosamente me ensinaram a import\u00e2ncia da beleza e da poesia.<br \/>\nE dedico de uma forma especial a Cristina Castro, com quem vivo a beleza e a poesia, dia a dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto escrito por Marcio Meirelles, publicado no programa de &#8220;Cartas Abertas&#8221;, apresentado pelo Teatro dos Novos, no Teatro Vila Velha, entre 07 a 22.03.2005 &nbsp; Depois da estr\u00e9ia de Barba Azul, com o elenco que viria a ser o n\u00facleo da nova Companhia dos Novos, falei que queria fazer um<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[7,24,5],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769"}],"collection":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=769"}],"version-history":[{"count":4,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2621,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/769\/revisions\/2621"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=769"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=769"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/www.marciomeirelles.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=769"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}