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MÁRIO PARA SEMPRE

Texto de Marcio Meirelles, publicado na coluna Abridor de latas, no A Província da Bahia (Ano I – n. 3) em 3 de fevereiro de 1997.

 

ZUMBI ESTÁ VIVO E CONTINUA LUTANDO - último papel de Mário, primeiro grande papel de Lázaro Ramos

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Perdemos Mário.

Quando perdemos um ator como Mário Gusmão, além dele, perdemos todos os personagens que fez. E, pior, perdemos todos os personagens que ele poderia fazer.

Um personagem só existe inteiramente quando um ator, com seu corpo, sua voz e seu engenho, dá-lhe vida. Um personagem é o personagem de um ator. Assim, não existem Macbeth, ou Édipo, ou quem seja. Existem o Macbeth de Fulano ou o Édipo de Sícrano.

Quando um ator se vai, perdemos a possibilidade de personagens. Com Mário, perdemos a possibilidade do Rei Lear de Mário, do Próspero de Mário, do Galileu de Mário e de uma infinidade de outros. Porque um ator é sempre uma possibilidade infinita.

Pensei em Mário para o Sr. Peachum da Ópera de Três Mirréis, na montagem do Bando de Teatro Olodum. Pensei em Mário para Jubiabá, na adaptação que Claudius Portugal e eu planejamos fazer do romance homônimo de Jorge Amado, para o Bando. Pensei em Mário muitas vezes em minha vida. Mas perdemos Mário e, com ele, muito.

Sei pouco de Mário Gusmão. Não sei quando nasceu, nem onde. Nem quantos anos tinha quando se foi. Não sei quantas peças, nem quantos filmes, nem quantos trabalhos fez na televisão.

Sei que vi muito pouco. Todos vimos Mário muito pouco, muito menos do que merecíamos. Poucos filmes, poucas peças, poucos trabalhos na televisão. Por mais que tenha feito peças e filmes e trabalhos para a televisão, e os fez muito.

Não se deu a atenção necessária a um ator daquele quilate que, como tudo no teatro, é efêmero. Passa rápido, como um por de sol, que é único e precisa ser visto e lembrado para que se torne eterno.

Mário se foi. Um homem negro que era ator. Num país que ainda não descobriu sua própria identidade e que dificulta, e muito, a vida e a carreira de um homem negro que escolhe ser ator. Que decide ajudar a construir essa identidade através dos personagens que só ele pode criar.

Adeus, Mário. Fica pra sempre a falta de todos os personagens que não serão feitos por você. E uma saudade grande de todos aqueles que você levou embora. E fica também uma felicidade imensa de termos tido a benção de sua presença entre nós.

 

Publicado em 03/02/1997 | nenhum comentário

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