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O MUNDO NÃO É FEITO DE SONHOS

Texto de Marcio Meirelles, publicado em Abridor de latas, no  A Província da Bahia (Ano I – n. 5), em 19 de março de 1997.

 

Onde havia um palco agora existe um grande buraco de terra, o espaço que foi ocupado pela platéia durante 33 anos também foi engolido por uma escavadeira, personagem principal, durante uma semana, de um novo espetáculo em cartaz no Teatro Vila Velha: a segunda etapa de uma reforma que vai devolver à cidade um espaço essencial.

Terreno onde foi construído o Vila - entre 1962 e 64

Terreno onde foi construído o Vila - entre 1962 e 64

O teatro foi construído na década de sessenta pela Sociedade Teatro dos Novos – Carlos Petrovich, Carmem Bittencourt, Échio Reis, Othon Bastos, Sonia Robatto e Tereza Sá, dirigidos por João Augusto. Esse grupo moveu céus e terras para tornar concreto o seu desejo, porque, como nos conta o poema de Iderval Miranda: “O mundo não é feito de sonhos. É feito de pedras e sonhos”.

Durante esses 33 anos o teatro abrigou vários projetos: o do Teatro dos Novos, o Teatro Livre da Bahia, o Livre Teatro Livre, o Improviso, os shows, os festivais, abrigou o CUCA – Centro Universitário de Cultura e Arte – durante os duros anos setenta. Abrigou muitos sonhos entre suas pedras e tijolos e asfalto e madeiras.

Esses projetos conviveram naquele espaço, porque para isso aquele teatro foi criado: para discutir, tornar vivas idéias, esfregar na cara da intolerância possibilidades de mudança, de encontros. Pois nos encontros é que estão as chaves mágicas que abrem todas as portas.

Construção do palco original do Vila - 1964

Construção do palco original do Vila - 1964

Agora, com a escavação, muitas coisas são revolvidas com a terra que vai embora em caçambas. Muitas memórias, muitas emoções. Tudo fica mexido, e o que a gente sente é como a sensação que se tem com a preparação de um espetáculo que vai estrear em breve. O Vila Velha é, agora, como um texto clássico que ganha uma nova leitura e não deixa de ser o mesmo.

O Vila até 1998...

O Vila Velha foi construído em cima de uma estrebaria – onde ficavam os cavalos da Polícia Militar – a partir da adaptação de uma estrutura de galpão. Tinha um palco italiano e dois camarins. A platéia era revestida de asfalto (doação da Prefeitura, na época), e o foyer era calçado com paralelepípedos. Tinha uma área onde funcionava a administração, e um pátio esterno, nos fundos, com depósitos.

 

...e agora.

...e agora.

Agora, com projeto de Carl von Hauenschild, ele tem um cabaré, com palco e camarim; duas salas de ensaio; uma área para administração, outra para a produção; oficina de cenografia e depósitos; um grande guarda roupa e armário para arquivo e consulta de sua história. E isso já está funcionando a todo vapor, cumprindo a função do teatro.

Está sendo construída a nova sala de espetáculos, com um palco mutante que tanto pode ser uma grande arena, quanto um palco italiano, um palco elisabetano, ou um sambódromo. E os epetáculos podem ser assistidos de balcões, arquibancadas ou poltronas. Os artistas terão quatro camarins à disposição.

Silvio Robatto foi quem colocou o galpão industrial em cima da estrebaria do Passeio Público e, com os poderes de sua arte de arquiteto e suas artimanhas de baiano, transformou aquilo num teatro.

Trinta e três anos depois, eu o vejo satisfeito de ver que sua obra original já continha tudo que está sendo feito agora, assim como o projeto do Teatro dos Novos já continha o Novo Vila.

Assim é a obra dos grandes, Sílvio.

 

Publicado em 03/02/1997 | nenhum comentário

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