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NO PROGRAMA DE SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO – 1999

capa do programa

publicado no programa de SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO (1999)

Partimos do princípio de que Shakespeare era um gênio, de que o “Sonho” é uma de suas melhores peças – uma obra-prima da dramaturgia ocidental – e de que ele era um autor popular. Além do que, a tradução de Bárbara Heliodora é um presente, porque mantém a estrutura, o ritmo e a alternância entre verso e prosa originais num português contemporâneo e cênico – bom de ser dito em palco.

Portanto, não tínhamos que cortar nada, adaptar nada, mexer em nada do que estava ali escrito. Nosso trabalho foi desvendar a maneira de dizer aquelas frases de maneira a trazer ao palco o seu humor, que poderia estar encoberto depois de tantos séculos desde que foi escrito. Não queríamos também transformar uma comédia tão brilhante e delicada e sobre o amor num pastelão para conseguir o riso fácil.

Na verdade queríamos era divertir um público popular, não erudito e contemporâneo com essa história que fala do amor e dos perigos que corremos quando o amor e a natureza não estão colocados na ordem e na medida em que devem estar.

Para isso tínhamos dois grupos e uma turma de jovens atores que passavam por uma oficina de preparação apoiada pelo Projeto Cena Aberta dos ministérios da Cultura e do Trabalho. Como fundir esses grupos sem descaracterizá-los? Separando-os segundo os diferentes núcleos de personagens da peça? Preferimos entrelaçá-los, como faz o texto com seus personagens. Assim, o Bando de Teatro Olodum, que, devido à sua pesquisa de teatro popular, teoricamente deveria fazer os artesãos, estão também no núcleo das fadas e dos amantes. A Companhia dos Novos, que deveria fazer as fadas e os amantes, também faz artesãos. E os jovens atores que deveriam, ainda teoricamente, fazer o elenco de apoio, estão fazendo personagens principais.

Assumimos que a peça é uma comédia, ainda que trabalhada a partir de diferentes estruturas de humor, de que é uma comédia popular e erótica. Erótica não é sensual e muito menos sexy. Descobrir e deixar o erotismo aflorar naturalmente só era possível se as fadas e duendes não fossem aquelas clássicas fadinhas esvoaçantes que datam do final do século passado, mas que fossem fadas e duendes da natureza, da natureza vegetal, mineral e animal. Encontramos a referência real e concreta para construir estes seres naqueles que ainda hoje estão mais ligados à natureza e seus fenômenos, os aborígenes da Nova Zelândia, da Austrália, nos nossos índios e em alguns povos africanos que ainda vivem em paz com o universo, quando o deixam aqueles que não mais.

Os humanos, esses nós os reconhecemos na classe trabalhadora, naqueles que querem dizer algo através do teatro por amor e necessidade; na classe dominante que deixa as normas falarem mais alto que o amor; e nos jovens que se atiram à aventura de viver um grande amor não importa como.

Assim construímos o nosso sonho, com as pedras que tínhamos.

marcio meirelles

salvador, 1999

Publicado em 22/09/1999 | nenhum comentário

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