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MEMÓRIAS DE UM PROJETO POLÍTICO

escrito por marcio meirelles, em salvador / 9 de dezembro de 2010 – para o livro comemorativo dos 30 anos do balé teatro castro alves

cristina castro em BOCEJO INÚTIL de guilherme botelho - foto: isabel gouveia

1.
A primeira memória é a do artista.

Fui contratado como figurinista e cenógrafo de uma das coreografias de estréia do BTCA. Instituição bastante diferente de tudo o que havia por aqui. Tratava-se de uma estrutura estatal e o que havia de mais parecido eram os corpos artísticos da Universidade Federal da Bahia, com os quais já havia trabalhado. Mas estavam longe do rigor impessoal e autoritário do novo balé.

O espanto do artista ao ver aquele corpo instalar-se, sem diálogo prévio nem posterior com a categoria. Mas não eram tempos de diálogo por aqui.

Perguntava-me quais as motivações para sua criação: Criar um mercado para a dança na Bahia? Criar um grupo de excelência que servisse de referência para os outros grupos? Ter uma representação oficial da dança baiana que pudesse ser como um cartão de visitas no resto do país e no exterior?

Ainda com essas questões, fui contratado mais duas vezes para fazer figurinos e cenários para o Balé. A situação agora era outra: havia mudado governo e direção que criaram o BTCA. E era evidente a crise entre o corpo e sua condução.

Lia Robatto, que substituiu Antônio Carlos Cardoso, o primeiro diretor, é uma criadora sem a formação em companhias oficiais como de seu antecessor. E, ao contrário dele, aparentemente se propunha a trabalhar com artistas e não com executores, num processo de troca e não sob um forte regime disciplinar. Como ela mesma narra em seu artigo neste livro, não se entenderam e a crise é mostrada pelos jornais da época que estampam manchetes como: O BTCA ameaçado, e coisas assim.

2.
A segunda memória é a de gestor do Teatro Castro Alves.

Em 1987, depois de 23 anos administrada pelo mesmo grupo político, instalado no poder em 64, a Bahia elegeu um governo democrático. Foi um tempo de possível diálogo, um governo de participação popular num país que ainda não havia se recomposto totalmente da ditadura. Dirigi o teatro até 1990.

O BTCA assim como a Orquestra Sinfônica da Bahia e os funcionários do TCA se faziam representar por comissões e pelos seus sindicatos, ambos com acesso aos gabinetes do diretor do teatro e do secretário de Cultura, quando não ao do próprio governador. Isso lhes dava personalidade política.

Mas numa democracia renascente, não se tem a prática do debate nem do exercício de cidadania plena. O que é uma construção difícil, especialmente para uma geração nascida e criada na ditadura. E os embates muitas vezes serviam a causas que estavam longe de responder questões como: qual a função e para que existe um grupo de dança oficial?

O sistema autoritário de funcionamento do Balé foi questionado. Seu diretor – novamente Cardoso, agora nomeado para um segundo mandato por pedido dos próprios dançarinos – foi posto em questão e exonerado. Uma nova direção que, seguindo a orientação geral do Governo, escutou e valorizou cada bailarino e técnico, foi instalada e aproximou mais o grupo artístico da cultura baiana.

Foi emblemático que Debbie Growald, a nova diretora, tenha montado Retratos da Bahia. A peça abria com uma canção, composta especialmente por Caetano Veloso, cujo primeiro verso era: Chegar à Bahia… No palco, além dos bailarinos, pessoas comuns, percussionistas, cantores e dançarinos populares davam vida às imagens de Pierre Verger.

Em nossa gestão foi criado um plano de cargos e salários para os artistas e técnicos do Estado, que valorizava com gratificações diferenciadas as apresentações e os solistas. Isto permitiu a criação de projetos com pequenos grupos, no Balé e na Orquestra, capazes de representar o todo, Bahia a fora. E aumentar o vencimento de quem trabalhava.

3.
A terceira memória é a do BTCA fora do Estado.

Cardoso assumiu pela terceira vez a direção da companhia. O mesmo grupo político que o contratou para criar o Balé foi novamente eleito. Durou um longo período.

No início, talvez tenha sido o momento em que a companhia mais viajou representando a dança baiana no exterior. Foi o período em que a multiplicidade musical baiana foi sufocada pela indústria do Axé Music; em que o Pelourinho reformado, com a expulsão de seus moradores, virou marca, assim como outras marcas, criada com dinheiro público e sem sustentabilidade prevista.

Numa política de cultura e turismo unidos na mesma Secretaria, a primeira se subordinava ao segundo e ajudava a vender a Bahia da alegria, passando por cima de todas as nossas mazelas sociais. Em três gestões consecutivas do mesmo grupo, nos transformamos no penúltimo estado em qualidade de educação, com um saldo de dois milhões, cento e cinqüenta mil cidadãos, com idade superior a 15 anos, analfabetos.

Muitos dançarinos tinham se afastado e outros foram afastados pelo diretor. Estes deviam apenas assinar mensalmente a folha de freqüência uma vez por mês para receber seu salário porque, na condição de funcionários públicos, não podiam ser demitidos apenas pela vontade do gestor.

Isso aconteceu quando os artistas ficaram mais velhos. Coisa que não foi levada em conta quando da criação do Balé: o tempo, que faz a idade dos artistas aumentar enquanto sua capacidade de atender às exigências acrobáticas dos coreógrafos convidados diminui. E novos dançarinos, na sua maioria de outros estados, eram contratados por temporada ou em regimes especiais de contratação.
Entretanto os que saíram foram desenvolvendo projetos em outros países ou aqui, como frutos de suas vivências no BTCA, de alguma forma. Como ainda recebiam salários para não dançarem no Balé, mesmo que seus projetos fossem financiados por outras fontes, era uma espécie de trabalho de extensão. Aí está o início da resposta e o embrião da nossa atual política.

Pude acompanhar de perto o desenvolvimento de três projetos. Dois deles, porque se realizaram no Teatro Vila Velha, onde eu trabalhava.

O primeiro foi o Baila Vila, que acolhia todas as tendências da dança na Bahia e também sua memória, homenageando personalidades historicamente importantes para a dança baiana. O projeto foi concebido e produzido por duas dançarinas do BTCA: Cristina Castro e Rita Brandi, e por Selma França. Quando acabou foi repaginado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia como Quartas que dança.
Findo o Baila Vila, Cristina Castro criou a Cia. Viladança. A contribuição estética e a visibilidade, através de prêmios e turnês nacionais e internacionais, que o grupo trouxe para a cena coreográfica baiana, foram fundamentais num momento em que outros grupos também estavam sendo criados. Pela primeira vez na cidade, um grupo de dança fazia temporadas de um mês ou mais – quando geralmente duravam um ou dois fins de semana – com a casa cheia.

O terceiro projeto, conheço bem porque participei de duas edições como cenógrafo, foi o Ateliê de Coreógrafos, criado e coordenado por Eliana Pedroso, que trouxe pensadores e artistas de vários estados, ajudando a oxigenar a cena baiana.

Os três projetos e uma renovação da dança na Bahia ocorreram num momento em que o Balé viveu uma nova crise, dançava com a maioria de dançarinos contratados por regime especial, os funcionários com estabilidade afastados retornaram e formaram um sub grupo intitulado Companhia Ilimitada e Antonio Carlos Cardoso saiu da direção do grupo mais uma vez.

4.
Por último, a memória recente de secretário.

As questões agora precisavam ser respondidas.

Seguindo as linhas gerais da recém criada Secretaria de Cultura – descentralizar a ação do Estado territorial e setorialmente, criar acessos aos mecanismos de produção e aos bens produzidos para todos e fomentar a economia da cultura – o BTCA passa a ser visto como instrumento de política cultural e não como um grupo artístico apenas.

A peculiaridade dos corpos estáveis oficiais é que num único cidadão habitam dois personagens: um artista e um funcionário, ambos agentes de serviços públicos. A questão é saber como transformar o funcionário em servidor e como conciliar sua natureza impessoal, objetiva, normatizada com a do artista, pessoal, subjetiva, transgressora. E antes, como fazer com que o artista de fato seja intérprete ao invés de mero executor?

A criação do Balé Teatro Castro Alves foi um projeto político. É evidente a importância de ter marcas e símbolos artísticos e estéticos para os regimes autoritários. Isto fica claro no artigo de Ana Teixeira, deste livro, quando ela fala da gênese dos balés oficiais. A arte agrega valor simbólico, compensa com o espírito e com a beleza as ações desumanas desses regimes, legitima para as elites o que não tem legitimidade social.

Essa é a resposta. Um único grupo não pode representar a rica diversidade de movimentos da Bahia. 30 ou 40 postos de emprego não fomentam um mercado nem a economia da dança. Um grupo oficial, com as condições de trabalho e a natureza de serviço público que tem, não pode ser referência para os outros grupos locais. Ter uma excelência é obrigação e não será a única. Existem muitas excelências na multiplicidade de valores estéticos dos diversos grupos de dança do estado, incluindo aí a dos grupos de tradições populares, de carnaval e quadrilhas, cada um com a sua excelência.

Manter o Balé funcionando é um projeto político também. O BTCA deve ser um dos instrumentos das políticas do Estado para a Dança. Deve dialogar cada vez mais com os grupos e artistas locais, sem deixar de trazer artistas do mundo para também dialogarem com a Bahia; ir cada vez mais para todos os 417 municípios, sem que o Estado descuide de promover a circulação dos outros grupos; ajudar a formar novos artistas e a consolidar a carreira dos que já atuam; ter projetos em conjunto ou complementares com a Escola de Dança da Funceb/SecultBA e com outras escolas de dança do estado. Promover o apoio ou implementação de projetos a serem desenvolvidos por seus dançarinos intramuros ou junto a outras instituições da sociedade civil. Deve integrar-se à rede produtora da dança na Bahia.
Com seus 30 anos, talvez o BTCA esteja chegando a um amadurecimento capaz de transformar seus integrantes em artistas convivendo em paz com os servidores públicos, que são também, e que um ilumine as ações do outro.

Mas este aniversário é importante na medida em que nos ajuda a refletir sobre o poder e a partir daí, sobre as políticas públicas para as artes.

 

Publicado em 09/12/2010 | nenhum comentário

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