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BRINCANDO DE SER LATINO AMERICANOS

Escrito por Marcio Meirelles durante a turnê do Viladança pela rede equatoriana de festivais de dança, em Manta (Equador), em 17 de junho de 2011.

Viajamos 30 horas. Aeroporto, avião, aeroporto, avião, aeroporto, avião, aeroporto, van, estrada. Salvador, São Paulo, Panamá, Guayaquil, Manta. Então o teatro. Um teatro coberto de cortinas vermelhas. Toda a platéia, uma possibilidade de palco e cena.

platéia do Teatro Chushi

O Teatro Chushig, teatro da universidade administrado pelo grupo de Teatro La Trinchera. Coletivo que completa este ano, 29 anos. Quatro atores e um técnico. Administram, fazem a bilheteria, montagem, limpeza, cantina, escrevem, encenam, atuam, promovem um festival internacional de teatro há 25 anos e um de dança, há 12. Também trabalham com crianças e jovens, em grupos de formação. Tudo isto é teatro.

Estou aqui acompanhando a artista Cristina Castro. Ela veio com o grupo que dirige, Viladança, apresentar José ULISSES da Silva e dar oficinas em quatro cidades, num circuito de festivais. ULISSES fala do herói em viagem urbana em busca de sua Ítaca, a saída.

A emoção de entrar num teatro da América Latina, coberto de cortinas vermelhas, com pouco mais da metade da platéia ocupada por um público que pagou três dólares por ingressos, comprados na mão de Rocio Reyes, atriz da companhia, que pouco antes – e ainda durante – recortava jornais, numa mesa do salão de entrada do teatro, para fazer a pasta de imprensa do festival.

Rocio Reyes

Outra parte do público era de crianças, índigenas equatorianas litorâneas do Pacífico. Eram dos grupos de formação em teatro e estavam muito felizes de estar alí, com seus orientadores, compartilhando o espetáculo de dança contemporânea, do grupo Cortocineses, da Colômbia. Esstavam muito felizes de estar num e fazer teatro. Apresentaram-se: Fabian, Welington, Edson e seus colegas. Atores entre os dez e os 13 anos, mais ou menos. Falavam conosco, os brasileiros, sobre a experiência de ter visto na noite anterior um espetáculo peruano sobre lo cuerpo humano, diziam. Sabíamos que os atores se apresentavam nus na abertura mas isso não foi dito. E o não dito colocava em seus olhos um brilho especial de marotice e transgressão.

O que estavamos fazendo alí, naquela cidade da costa pacífica, naquele teatro de cortinas vermelhas, gerido por um coletivo teatral quase familiar de tanto tempo juntos, de tantas tarefas compartilhadas; com aquele público equatoriano, aqueles garotos atores? Me emocionava tudo isso. Essa permanência da possibilidade de ser humano e compartilhar emoções, imagens, fantasias coletivas, reflexões sobre o mundo, tentativas de transformação.

Ao mesmo tempo pensava em como as companhias de aviação tentam ganhar cada vez mais, como tudo no mundo real é bandidagem; quando se extravia uma mala num voo, não é dito ao passageiro que ele tem direito a uma taxa, a título de seguro, para que possa comprar uma muda de roupa, escova de dentes e sabonete, para ser um pouco civilizado, enquanto sua mala é encontrada. Em como a bandidagem está nas mínimas coisas. Em 20 reais a mais que você pode pagar para sentar em lugares no avião com alguns centímetros a mais entre você e a cadeira da frente, para que se possa colocar um leptop no colo e aproveitar o tempo do voo e continuar a trabalhar, escrever, fazer contas, planilhas, projetos, relatórios. De outra forma, por 20 reais a menos você coloca o computador na barriga, quase tocando o queixo e se vira com braços, mãos e dedos, para ocupar-se no tempo do voo.

Pensava no que o espetáculo me dizia: como é difícil ser latino americano, numa partida de futebol, numa sala de migração onde (não) se consegue o visto para um país do norte por sermos latino americanos, portadores de toneladas de cocaína que se esparramam, num ato brutal do ator (negro) do coletivo colombiano que joga uma pacote de papel pardo no chão, num diálogo com um embaixador colocado na platéia, o nosso lugar, e espalha o pó pelo palco inteiro com um grande cartão plástico, repetindo o gesto de bater fileiras dos usuários. Depois se joga no chão e se mescla com o pó branco, seguido por todo o grupo, numa coreografia desesperada.

Aquilo somos nós. Uma voz chamava os números da senha em francês e inglês, fazendo com que os personagens perdessem sua vez. Por fim a voz anuncia que a embaixada está fechada, que voltem amanhã, das sete as 18 horas.

Pensava e via aqueles meninos.

Edson

Depois dos aplausos, depois do palco vazio, enquanto os técnicos desmontavam o cenário e refletores, dois garotos subiram à cena e, divertindo-se muito, imitavam os gestos dos atores, as coreografias. Brincando de ser latino americanos e se divertindo muito com isso.

Manta, 17 de junho de 2011.

 

Publicado em 17/06/2011 | nenhum comentário

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