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CRISTAL PURO

Em 1983, quando o Avelãz y Avestruz fez SIMUN, de Strindberg, no antigo Teatro Sto Antônio, Fernando Bélens escreveu este texto sobre o espetáculo:

A viagem de SIMUN, última produção do Avelãz y Avestruz (by Marcio Meirelles) não tem escala; pegando o público viciado num tempo de espetáculo teatral comercial, vai num crescendo de emoções e significações estéticas do mais puro requinte, beleza e pique. O texto e o contexto estão tão profundamente entelaçados que torna-se no mínimo redutor analisar a encenação em suas partes estanques. Nesta minha primeira relação com SIMUN fui absolutamente seduzido pelo triângulo geométrico da colocação cênica das estruturas “maiores” dos músicos/atores/coro. Determinados por esta clássica formação teatral, estas estruturas maiores repetem inconsciente ou conscientemente na movimentação esta equidade mágica e não é menos importante um toque de tambor do ANTICÁLIA ou um sussurr-vento-coro.

Numa nação muçulmana talvez no início do século a mulher recebe do homem a tarefa de matar o invasor francês. A partir daí surge a pergunta: – de que maneira matar? A resposta é a magia-cultural-loucura. Desterrado de seus amigos/mulher/filhos/pátria/sonhos e acima de tudo invadindo outros que também têm amores/filhos/pátria/sonhos, a mulher parte para a resitência através da ilusão (profunda síntesis com os elementos mais intuitivos do inconsciente). Talvez seja esta a estória. A resolução é profundamente superior e vemos desfilar perante nós um encadeamento de imagens sons e palavras que nos remetem a questões bastante atuais como do colonialismo que persiste mesmo de formas disfarçadas, camaleônicamente muda de cor/de jeito/forma… Líbano, Arábia, Omã, Iêmen e quem sabe Argélia… O Coro parece a multidão árabe que espera/vê/registra/participa/vivencia e responde a todas as funções básicas de que já falava Aristóteles (IDADE DO OURO).

JOGO-DIALÉTICA-JOGO-DIALÉTICA = as oposições cristalinas deste SIMUN de Marcio Meirelles chegam a transparências sem nenhum (PODER X MAGIA) (HOMEM X MULHER) (COLONIZADOR X RESISTÊNCIA) (INVASOR X INVADIDOS) (CONSTRUÇÃO DESTRUIÇÃO) (EROS X TANATOS) (FILHO X CADÁVER) e outras de menos importância ou que não consegui penetrar nesta primeira apreciação. FICA FÁCIL VIAJAR. E viajamos todos como num frenesi onde a economia e o detalhe parecem substituir o grandioso quase grandiloquente que foi MACBETH de Marcio. O toque do tambor que marca a “morte” do filho do francês / o piano que nos transporta a um emocionante clichê de feliz vida familiar burguesa / o pano atado à cabeça do militar invasor em processo de destruição / a areia / os figurinos deslumbrantes do coro / a sonoridade das vozes / a linda barriga de Biskra/Eugênia que por metalinguabruxaria mostra o filho que no texto pede ao HOMEM / os tijolos / qualquer momento do som do ANTICÁLIA / E O PIQUE!

PS: Com um elenco de tal qualidade: Harildo/Fulco/Eugênia o trabalho dos atores poderia ser 3.485.231 milhões de vezes melhor, but a capacidade de interpretar deste elenco é tal que se não participam com grandes parcelas para este grande brilho de SIMUN, dão inequivocamente sua contribuição. O belíssimo coro de claros contornos clássicos “segura” a extrema vibração que sabemos ter as dançarinas Ana Nossa e Lilian Graça, prontas para todos os palcos da vida, mas sem nenhuma dúvida saltam do conjunto do coro pela própria postura de um corpo-sempre-sendo-trabalhado transformando-as juntamente com Joram Macedo em corifeus inconscientes do grupo, ouso o inconscientes.

Qui-Bom ver Teatro-teatro

Fernando Bélens

Publicado em 18/03/2012 | nenhum comentário

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