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O OLHAR DO OUTRO É MAIOR DO QUE O OLHAR DE DEUS

chica carelli, sonia robatto e fernando fulco - foto: joão milet meirelles

chica carelli, sonia robatto e fernando fulco - foto: joão milet meirelles

Aquele momento em que as coisas são e ainda não no processo de um espetáculo, em que o conceito foi estabelecido, a peça está montada, os atores preparados, o figurino experimentado e se espera o cenário, os equipamentos, a luz, o som – que é como a calmaria antes da tempestade – passou.

Agora a tempestade começou. Os equipamentos não chegam, chegam com avarias, as coisas que foram cortadas por falta de orçamento fazem falta e precisam ser compensadas por outras. É quando a economia feita pela produção por vezes resulta em gastos a mais, aluguéis de última hora, empréstimos…. tudo não funciona, mas sabemos que vai.

Atores e atrizes, por mais prontos que estejam, teimam em sinalizar a falta de algo e a necessidade de mais ensaios. Tensões quase palpáveis. Explosões de temperamento e insegurança frutos de doações extremas de talento e emoção. Resultados de esperas infinitas nos camarins pelo início do ensaio, pela demanda e atenção do diretor, do técnico de som, do iluminador, da produção. Ansiedade pelo olhar do público, tão temido quanto esperado. O olhar do outro, maior do que – senão o próprio – olho de Deus.

Tudo parece ruir e virar um caos. Este é um tempo de superar as notícias. De estar atento aos acidentes de percurso, porque virão. De ter habilidade para adaptar o planejado ao acontecimento e talvez obter um resultado melhor. É tempo de descobrir o diálogo real entre o humano e o tecnológico que é outra forma de ser humano. De finalmente ver como as imagens pensadas trabalham… como criam e provocam e são.

Mais alguns dias e o objetivo de tudo isso se realiza. O público vem. As pessoas para quem fizemos tudo isso vão vir. Com certeza virão. E essa é outra dúvida: virão? Quem? Pra quem fizemos? Por que fizemos? Para não perdermos o sentido de estar no mundo. Para continuar a dizer o que sempre tivemos pra dizer neste momento. Pra dizer isso: O OLHO DE DEUS O AVÊSSO DOS RETALHOS.

neyde moura - foto: marcio meirelles

neyde moura - foto: marcio meirelles

Sonia Robatto me apresentou o texto que tinha ganho o edital da Chesf e seria montado, com Fábio Espírito Santo na direção de um elenco de quase 40 pessoas. Adorei sem saber que seria eu a montá-lo.

Como Espírito está morando no Rio e teria dificuldade de vir para o trabalho, Sonia me perguntou se eu o faria. Sim.

Mas para mim, neste momento de minha vida, não era toda a alegoria barroca, proposta por Sonia, que me interessava encenar. Eram as duas irmãs costurando a colcha de retalhos da memória de uma vida toda. O discurso sobre os valores de uma Bahia do século passado e que se foram com o tempo. O que aconteceu com o mundo burguês no último meio século. Como se dão as relações políticas entre quem serve e quem é proprietário. Relações mescladas de afetos, favores, ressentimentos, desprezo. Isso é o que me atraia no texto.

O que me interessava era a frase “o tempo passa e a gente não sente”. Eram os retalhos que o tempo deixa e se grudam uns aos outros e não desgrudam jamais. A história é assim. O problema não é costurar. Isso é o que é feito, queiramos ou não. A grande tarefa é não deixar que os retalhos se soltem, que mudem de cor, que desbotem, que se percam as memórias. Tarefa do teatro, da história, das narrativas todas, das reuniões humanas, das assembléias: refletir sobre o tempo que vivemos e fizemos, mas também sobre o tempo que nos foi legado. Não deixar que passe em vão. Por isso fazer teatro. Por isso guardar, emocionar-se com, tocar suavemente ou duramente com, restaurar, manter a memória.

Me interessava aquele diálogo das duas irmãs num tempo que não é mais. Num tempo de esperar Godot/Riquião, o barco, a viagem pra onde? Que Ítaca? Me interessavam aquelas duas mulheres. Mas as outras duas também eram necessárias: Calu e Filu. O contraponto. A vida que ainda é num tempo que não se pode perder. Num tempo que passa ainda cronológica, sequencialmente. Isso depois aquilo.

Falei pra Sonia que faria, que adoraria fazer, mas só com as duas, as quatro… mas João e Maria não descolavam. Estavam alí e cobravam participação. Eram necessários. E João trouxe com ele o barco, a possibilidade de ir. E Maria touxe com ela o ar, o vento e o fogo de uma geração que tentou mudar o mundo: minha geração. O tempo duro que testemunhei passar e passou como tudo, e como tudo deixou marcas, veio com Maria.

Sonia generosamente deixou que eu fizesse o que bem entendesse com o texto e sempre acolheu o proposto. Repropunha, recolocava, questionava certas opções, manteve um diálogo intenso, interessado no novo destino de sua cria, mas sempre entendeu os porquês das mudanças e generosamente aprovou O AVÊSSO DOS RETALHOS. Mesmo porque nunca duvidou da minha admiração pelo texto e de minha incapacidade de montá-lo exatamente como foi escrito. Mas também sabia de minha persistência em contar porque foi escrito.

O elenco já estava escalado, ou quase todo, com atrizes que admiro e gosto de conviver em sala de ensaio, no palco ou em qualquer lugar. Pessoas que fizeram parte da restauração de um projeto: o Teatro Vila Velha. Que vieram pra minha vida com Barba Azul e Dom Quixote e ½ noite se improvisa. Faltavam uma e um. Chamei Chica e Fulco, companheiros de Avelãz y Avestruz, vindos do tempo duro que passou e deixou marcas. Vindos de outra construção. E que nunca me deixaram. Compartilho com cada um dos seis retalhos importantíssimos de minha colcha.

Dificuldade de horários de ensaios. Outros compromissos. A vida de cada um. Trouxe a necessidade da tecnologia. Pensei inicialmente em resolver a dificuldade de ensaiar de manhã para algumas atrizes – aproveitando sugestão do uso de vídeos, que está no texto – mostrando o núcleo dos “vivos” em projeções de material previamente filmado e editado. Uma memória de atuação, de qualquer jeito. Depois, sanada essa dificuldade e conseguindo que todos pudessem ensaiar no mesmo horário, pensei na hipótese de transmissão ao vivo: o núcleo de Calu estaria numa sala de ensaios e seria visto numa tela no palco. Depois, finalmente, pensei em dois espaços compartilhados pela transmissão, atores, público e imagens.

Essa forma dá também ao público a possibilidade da escolha de onde ele quer ver. De que ponto de vista. Na verdade são duas narrativas paralelas que se tocam em pontos. É preciso que se acompanhe as duas porque os dois universos são indissossiáveis. A memória e seu trabalho na construção do futuro e sua interferência nas decisões do presente. O agora como resultado da história e de decisões a serem tomadas para que o mundo mude ou se mantenha como é.

Por isso mostrar a peça assim. Para isso a tecnologia. 

foto: marcio meirelles

Isso é o princípio do NOVO VILA DIGITAL. Projeto que vai transformar o Teatro Vila Velha na base física de um teatro virtual. Uma plataforma digital que, em tempo real, poderá acolher comunidades dispersas territorialmente para uma celebração, torná-las presentes virtualmente em assembléias de debates sobre assuntos que lhes interessam, que são necessários.

Criar redes de colaboração entre artistas e coletivos. Ser um registro e cadastro de propostas e ideias e processos.

Esse OLHO DE DEUS virou um ensaio de dramaturgia. Um exercício de como construir narrativas cênicas montadas com presenças físicas e virtuais.

Muitas possibilidades foram abertas pelas novas ferramentas recém inseridas em nosso cotidiano, em nossa comunicação. Muitas experiências estão em curso desde os nos 90, do século passado. Muitos artistas e projetos têm investigado sistemática ou pontualmente a relação das artes cênicas com os novos meios de transmissão de conteúdos. Se isso vai criar um novo gênero, o teatro digital, ou que nome tenha, não sei e não acredito. Teatro é teatro. Acredito em tudo isso como uma amplificação da presença do ator e do público. Acredito em tudo isso como em microfones ou refletores, coturnos e máscaras. Amplificações, próteses, que podem ser usadas para que o que temos a dizer seja capaz de alcançar o mundo que queremos, a sociedade que um dia poderemos ter. 

Salvador, fim de maio de 2012

marcio meirelles

Publicado em 24/05/2012 | um comentário

Um comentário

  1. PH Dias disse:

    Belo texto Márcio, sua leitura é perfeita. A tecnologia amplifica nossa voz. Um megafone de bits que escoam pela rede signica globalizada. Sucesso meu caro e que tua voz e a de Sonia (com aquele respeito profundo que ela tem pelo teatro) ecoem para que todos os retalhos possam ouvir, em algum lugar, que não foram esquecidos.

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