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JUSTAPOSIÇÃO DE RETALHOS: O OLHO DE DEUS

por MÔNICA SANTANA

foto: cristina castro

foto: cristina castro

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http://papoteatral.blogspot.com.br/2012/06/justaposicao-de-retalhos-o-olho-de-deus.html

Ao chegar no Teatro Vila Velha para assistir ao espetáculo O Olho de Deus, o público precisa optar se vai ficar com os retalhos de cena no Cabaré dos Novos ou no Palco Principal. Escolhas, enquadramentos, camadas e camadas de vozes e imagens que se justapõem são algumas das palavras chave que emergem do espetáculo, que conta com texto de Sônia Robatto, com a colaboração de Márcio Meirelles e é a mais recente produção da Companhia Teatro dos Novos, que já acumula 53 anos de trajetória.

Em O Olho de Deus, Márcio Meirelles dá continuidade a uma busca de integração de novas tecnologias, especialmente da linguagem fragmentada o vídeo, com a presença do teatro. Contudo, em O Olho de Deus é notória a capacidade de harmonizar os diferentes retalhos e cores da colcha que se propõe a costurar. E consegue colocar em equilíbrio a presença do vídeo e da cena, sem hierarquias, nem inviabilizando a escuta por parte do espectador. As imagens em vídeo, realizadas por Ana Rosa Marques e Danilo Scaldaferri, somam poesia, sentidos e agudeza à cena. Mas de modo algum, ofusca o trabalho de artistas maduros e muito afinados em cena.
As cenas ocorrem simultaneamente nos dois espaços do teatro e se amalgamam para o espectador por meio do vídeo, que transmite ao fundo de ambos os palcos o que ocorre na outra sala, somada a outras imagens que se justapõem a cena. No palco principal, estão as irmãs Dos Anjos (Chica Carelli) e Sinhá (Sônia Robatto), sozinhas costurando uma enorme manta de retalho que cobre horizontal e verticalmente a cena. As irmãs mantém a diferença de temperamento, ora uma mais prática, impaciente, a outra mais etérea e sonhadora. Ao costurar, elas vão recolhendo lembranças, memórias e a constatação da morte.
No Cabaré, o palco é convertido numa sala de uma casa, na qual a costureira Calu (Neyde MouraO trabalha, tentando esquecer o desaparecimento de Riquião, não disfarçando a ansiedade que paira no ar. Ao fundo, sentado e apático João (Fernando Fulco) parece ausente e assiste a tudo, agindo muito pouco. É inevitável, vivendo em Salvador e no momento de abandono gerencial da cidade, não estabelecer pontes ao ouvir os gritos das irmãs, que esbravejam, conclamando João a alguma ação: “João a casa é sua! João, você vai deixar vender a Vila Matilde? Você vai deixar acabar com tudo João? Você é o homem da casa!”. João diz que vai agir…, mas é sabido que não. E tão logo, transporta-se para o outro plano, cruzando a linha da vida e juntando-se às irmãs.
Ainda a figura de Filu (Marisa Motta), cliente de Calu, que frequenta a casa da costureira e lhe encomenda vestidos. Discutem a impossibilidade da virtude hoje, a banalização do pecado, a derrota dos santos que agem pouco e todo o apodrecimento do mundo que tão bem conheciam. Por fim, a estudante Maria (Anita Bueno) que revela porque Riquião desapareceu e num diálogo sofrido, cujas vozes se somam divergentes de forma tal que formam uma única massa, com Calu. Maria traz a crueza do presente e a morte de Riquião pela ditadura. Ao não suportar lidar com a realidade, Calu cala a moça, sufoca sua voz, numa cena de grande intensidade.
As influências brechtianas, tão já digeridas no trabalho de Meirelles, permeiam todo o espetáculo, notadamente político, sem ser panfletário, mas também repleto de memória e das vozes autorais dos intérpretes que ali estão. Ao fundo, as inserções de vídeo trazem manchetes da depredação do patrimônio brasileiro nas privatizações, os rostos dos militantes acusados pela ditadura, o sangue que jorra da torneira, os rostos dos atores transformados pelo tempo. E a especial leveza da dupla Carelli e Robatto, proferindo memórias, evocando santos, ritos, rezas, causos, aproxima afetivamente o texto do espectador – porque não somente aquela História, que transpassa nos vídeos é nossa, como as histórias de vida também se identificam com a platéia. Tempo, tempo, tempo.
Meirelles assina a cenografia e os figurinos do espetáculo, contando com o desenho de luz de Pedro Dultra e a direção musical de João Meirelles. O Olho de Deus encerra temporada neste domingo, dia 1 de julho e merece ser visto pela sua delicadeza, pela sua honestidade e pelo cuidado como se constituiu.
30/06/2012

Publicado em 02/07/2012 | nenhum comentário

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