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O ETERNO RETORNO – a ressurreição do sublime

O ETERNO RETORNO – a ressurreição do sublime na cena soteropolitana ou o avesso da máscara cômica

por: Ricardo Ottoni Vaz Japiassu

postado em: http://observecult.blogspot.com.br/2012/07/o-eterno-retorno-ressureicao-do-sublime.html

foto: joão milet meirelles

foto: joão milet meirelles

Sempre de olho na viagem pela colcha de retalhos de nossas vivências, Deus cuida para que possamos cumprir o que determina Sua Providência – assegurando-nos o livre-arbítrio (escolha) dos modos, ritmo e rotas a trilhar…
Este olhar providente de Deus nos atemoriza, por pairar silente e inexorável em cada tímida ocorrência, tangível ou intangível, de nossas vidas.
Na Mitologia, algumas representações antropomórficas de Deus que mostram um homem ou mulher com a fronte alapalada (encoberta) dizem da tentativa malsucedida de seus rivais em aniquilar o olhar divino que tudo vê. Neste sentido, Horus-Anúbis é exemplar, por apresentar a divindade ressurecta com a cabeça recoberta pela máscara de um chacal para esconder o olho vazado pela fúria invejosa de seus rivais, despeitados de sua onipresença e poder…
Tanto as máscaras aterrorizantes de animais monstruosos imaginários, como os capuzes de palha ou tela de miçangas (chorões) – usadas nas representações das deidades – parecem querer ocultar a face desconhecida e misteriosa da divindade.
É sobre a Sombra ou o “Olho de Deus” alapalado impactando a condição humana que trata o belíssimo espetáculo multimídia O avesso dos retalhos apresentado ao público pelo Teatro dos Novos.
A peça tem por base o texto A viagem dos retalhos da escritora e atriz baiana Sonia Robatto e sela o retorno de Marcio Meirelles como grande encenador soteropolitano.
O compromisso de Marcio com a militância partidária na gestão das políticas culturais do Estado não lhe deixou tempo para animar as práticas de pesquisa cênico-estética que sempre caracterizou a produção teatral soteropolitobaiana (dos habitantes do entorno da Baía de Todos-os-Santos). O retorno de Meirelles à vanguarda artística de Salvador deve ser celebrada com grande alegria por todos os soteropolitanos porque fortalece o espírito e vocação cosmopolita da cidade originalmente planejada para  ser a capital do Reino d’Além Mar e Rainha do Atlântico Sul.
Salvador tem sido sucateada e maltratada por gestores totalmente rendidos aos interesses pessoais e à fúria de grupos culturais que buscam hegemonizar suas preferências estéticas “populistas”, orquestrando um vociferar intolerante em defesa da rendição de todos aos seus “semblantes” cinicamente apregoando o “não saber”, o “não querer saber” e o “não deixar saber”… L
VILLAGE STUDIOS
A encenação do texto de Sonia por Marcio propõe o uso estético de recursos das tecnologias de comunicação e informação propondo a veiculação “em direto” (síncrona) dos ritos dionisíacos permitindo a fruição e apreciação duplamente mediadas pelas telas de computadores, celulares, TV e rádio em todo o planeta.
Trata-se de uma ousada iniciativa que sinaliza a necessidade de assegurar espaços físicos destinados para a produção e transmissão de conteúdos de natureza artística; uma exigência posta pela própria reorganização contemporânea das forças de produção estéticocênicas.
Seja através da fruição síncrona, mediada pelo videorregistro das práticas teatrais, ou via imersão presencial do público no ambiente em que ocorrem os ritos dionisíacos, Marcio e seus numerosos colaboradores oferecem a oportunidade de escolha de rotas para apreciação seletiva do material cênicamente disponibilizado ao modo de zapping no qual o controle do que se quer ver está nas “mãos” do espectador.
Uma vivência estética prazerosa de acompanhamento simultâneo do que se passa em várias “janelas” – que podem ou não serem abertas pelos fruidores.
Porém, mais importante que todo o esplendor e fascínio gerado pelos recursos tecnológicos usados pela encenação é a chance de comungar solidariamente a trágica condição humana em um mundo rendido ao mercantilismo e poder pensar.
A máscara trágica eleva-se sobre a cena soteropolitana e provoca o sabor amargo das nossas angústias pelo mal-estar gerado pelos processos civilizatórios.
Parabéns ao afinadíssimo conjunto de técnicos, assistentes e elenco regido magistralmente por Marcio.
Poucas vezes se conseguiu reunir um elenco com tantos excelentes intérpretes.
Evoé Anita, Carelli, Fulco, Marísia e Sônia!
Evoé todos os bacantes da vila!
Evoé Marcio Corifeu!
Bem-vindo de volta ao gueto Meirelles!

 

Publicado em 02/07/2012 | nenhum comentário

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