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POR QUE HÉCUBA…

texto de matéi visniec:

Japão, Brasil, Romenia… Três países onde minha peça “Por que Hécuba” foi encenada. Três países em três continentes. Ouso ver aqui um sinal, um símbolo, uma esperança. Sinal de que os artistas em qualquer lugar do mundo partilham os mesmos valores. Símbolo de uma Internacional de pessoas de teatro que é viva e vital, reativa aos problemas da atualidade e sensível à herança cultural da humanidade. E vejo também nessa aventura humana e artística a esperança de que a cultura e a arte possam formar pouco a pouco o mundo, dirigindo-se ao espírito, conquistando o público…

“Por que Hécuba” é uma peça sobre a violência, como “Hécuba” de Eurípedes. Mas na minha o olhar vai além, além do sofrimento e da vingança. Eu quis “empurrar” Hécuba para a revolta. Eu quis que essa mulher fruto da mitologia grega interpelasse os deuses, e com isso os próprios fundamentos da nossa civilização. Pois o verdadeiro debate está aí: por que construímos tantas coisas sobre o sangue e a violência, sobre a guerra e o sofrimento? Vivemos num mundo onde, há quatro mil anos ou até mais, as guerras nunca terminam, onde os crimes se encadeiam sem parar, onde a violência é banalizada, pior, transformada em base narrativa da industria do entrete- nimento e em modelo de comportamento.

Onipresente, glorificada pelos jogos eletrônicos e pelo cinema, a violência tornou-se um alimento cotidiano, uma droga que precisamos consumir diariamente em doses cada vez mais fortes…
Tem também uma violência da imagem e da linguagem, uma agressividade da publicidade e da informação. Estamos enfim em guerra contra nós mesmos, filhos de uma violência milenar que se transmite pela mitologia, educação, política, cultura popular e o culto da competição.

Aqui estão apenas algumas pistas da reflexão que esta peça pode engendrar, sabendo que o teatro não pode nunca dar respostas completas, mas é importante que ele possa trazer a tona questões essenciais.
Gostaria também de saudar a toda a equipe reunida em torno do encenador Marcio Meirelles, que me fez descobrir o Brasil, a cidade de Salvador e um mundo de pessoas apaixonadas pelo teatro e pelo diálogo. Minha primeira viagem ao Brasil, em outubro de 2013, foi uma revelação, fonte de emoções e trocas, de inspiração e reflexão. A Internacional de pessoas de teatro existe, a esperança é possível. A prova é a montagem da minha peça “Por que Hécuba” em Salvador, no Teatro Vila Velha!

Matéi Visniec

dezembro de 2014

texto escrito para  o programa de POR QUE HÉCUBA – montagem da universidade LIVRE de teatro vila velha q teve pre estreia no vila em 04/01/2014

Publicado em 25/01/2014 | nenhum comentário

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