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UM TEATRO EM DIÁLOGO COM O SEU TEMPO

 

Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber

Por que Hecuba de Matei Visniec por Marcio Meirelles Foto Joao Kleber

Não é de hoje que venho questionando o teatro e sua necessidade/importância para a sociedade atual. Concordei com Ariane Mnouchkine, concordo com ela com muita frequência pois sua lucidez aliada a uma capacidade de análise e síntese são imbatíveis, quando ela propôs um plebiscito na França para saber se o povo francês gostaria de continuar subsidiando a cultura. E sempre imaginei que se um dia – não temam, esse dia não chegará nunca, não estamos capacitados para esse tipo de debate – essa proposta fosse colocada em prática no Brasil todos nós que trabalhamos, direta ou indiretamente, com a cultura estaríamos na rua da amargura e sem a direção do Gabriel Villela – desculpem o private joke – para nos redimir. Pois a resposta do brasileiro médio seria, obviamente, dar uma banana para subsídios para a cultura. Afinal quando o teatro não cumpre seu papel social, não estabelece um diálogo permanente com o tempo presente, ele serve a que ou a quem? Os que fazem do teatro uma ação entre amigos estão fadados a desaparecer, posto que teatro sem público não é teatro.

Por isso me apaixona o movimento que se instalou no Teatro Vila Velha nesse último ano. O Teatro Vila Velha está formando não apenas homens e mulheres de teatro, mas formando um público. Há dez dias fazendo portaria no teatro o vejo invadido por um pessoas que NUNCA foram ao teatro. E isso é muito, muito mais importante do que qualquer modismo, principalmente se pensarmos que isso acontece em pleno verão baiano onde os psiricos e os siricuticos dão as cartas do jogo. Se os soteropolitanos ainda não acordaram para o que se passa e se o eixo Rio-São Paulo ignora totalmente o que acontece, afinal Narciso acha feio o que não é espelho, já dizia Caetano, posso afirmar que se passa algo muito importante nas salas da minha Cartoucherie Bahianaise.

Márcio Meirelles com mais de 40 anos de teatro e quase 60 anos de vida, antecipando as comemorações dos 50 anos do mais belo e importante teatro da Bahia (merecedor de um capítulo especial na história do teatro brasileiro pelo papel de formador de grandes nomes da cena nacional) implementou um ritmo ensandecido de produção e trabalho no Passeio público, local onde se situa o Vila, como chamamos aqui esse charmoso teatro.

Com a criação da “universidade LIVRE de teatro vila velha” – essa é a grafia escolhida por eles – repudiando os cânones das universidades estabelecidas, e aqui com todas as diferenças que nos separam, pois que faço parte – com muita honra e orgulho – da Escola de Teatro de uma universidade tradicional, a Federal da Bahia, tenho que reconhecer que Márcio está na origem de um movimento que certamente marcará a renovação do teatro soteropolitano. O tempo dirá.

São 23 atores-aprendizes circulando diariamente no Vila Velha, ocupando todos os espaços, e nas palavras de Tiago Querino ser ator da LIVRE, é ser “ator braçal, ator do Vila Velha. Ator em formação o tempo todo na verdade.”.

Esses meninos e meninas, compraram a ideia de Márcio Meirelles e estão em cena nesse momento em dois espetáculos diferentes: Espelho para cegos Por que Hécuba, textos do romeno de expressão francesa Matéi Visniec ainda pouco conhecido no Brasil mas reconhecido mundialmente como o novo Ionesco enquanto preparam a estreia para fevereiro de Frankenstein, da escritora inglesa Mary Shelley. E last but not least, três deles: Claudio Varela, Jean Pedro e Yan Brito fazem uma participação em Troilus e Créssida, espetáculo de formatura do XXVIII Curso Livre de Teatro da UFBA que nessa edição contou com a direção luxuosa de Márcio Meirelles e a coordenação geral dessazinha que vos escreve.

Não, não sou crítica e portanto não vou comentar o resultado desse trabalho, os espetáculos. Para isso existe gente mais competente do que eu. Mas afirmo sem medo de errar: corram para assistir Por que Hécuba. São apenas mais três dias de espetáculo: 20, 21 e 22 de janeiro.

Por que Hécuba fala do “teatro do absurdo do nosso tempo, porque Matéi Visniec, atualiza o clássico grego de Eurípedes sobre a guerra de Tróia, para falar da violência do tempo em que vivemos. O escritor propõe um voo sobre um humor triste. Para o autor, a Tróia de nossos dias pode estar na Bósnia, na Chechênia, em Beirute, na Somália, na Síria ou em qualquer país repartido e assombrado pelo espectro da guerra civil. Ou também, na visão do encenador e diretor Márcio Meirelles, em qualquer canto de qualquer periferia do Brasil deste início de século XXI. A peça é ambientada no Carnaval de Salvador, aonde os deuses do olimpo vêm se esconder e se divertir na farra dos camarotes, enquanto, no chão da praça, Hécuba chora a dor universal das mães que dão à luz carne para canhão.”.

Minha colega Hebe Alves, grande atriz, educadora e diretora, afirmou na estreia que “ver Chica Carelli atuar é um presente“. Eu assino embaixo. Mas não faço crítica de espetáculos, apenas comento quando gosto e ignoro quando gosto, porque eu não gostar não significa nada além do fato de eu não ter gostado. Mas eu gosto muito de Por que Hécuba e gostar muito não significa que eu não veja algumas falhas. Márcio é um grande encenador, mas fez essa opção por estrear três espetáculos no espaço de 30 dias, o que significa conceber e dirigir quase que simultaneamente três espetáculos, e ainda que conte com o auxílio luxuoso de atores com a experiência de Chica Carelli no final sinto falta de trabalho de ator. Há espetáculos lindos. Cenicamente dignos de prêmios. É um encenador no seu auge de criação e explosão. Mas falta a paciência para burilar. Há a urgência em produzir, sem o tempo necessário para gestar. E mais uma vez sou mnouchkiniana o tempo é o único luxo que o Théâtre du Soleil se dá. Eu gostaria de ver todos esses espetáculos dessa safra 2013-2014 de Márcio Meirelles com tempo para amadurecer. Discordo dessa lógica de produzir para não difundir. Discordo de espetáculos que são produzidos para permanecer duas semanas em cena. Um espetáculo, do meu ponto de vista, precisa de tempo para existir. Mas respeito a opção do moço…

Confesso que vejo com esperança esse movimento que surge. Confesso também que sou sempre avessa ao que nasce sem planejamento, organização e disciplina. E Márcio com seu lado artista muito forte parece renegar tudo isso. Somos opostos e superar isso no trabalho diário é uma aventura. Não tenho vocação para Poliana. Mas torço para que eles estejam certos e que do completamentebordélique nasça algo de novo. Afinal, é no mínimo um alento ver a garra com que esses meninos estão trabalhando, numa cidade onde não há tradição de teatro de grupo, onde a cultura do evento e da festa parece reger os caminhos, onde vícios seculares fortaleceram uma cultura baseada na política de balcão, onde o lema “farinha pouca meu pirão primeiro” ainda é defendido, ver um teatro onde existe uma produção efervescente e que nas palavras do capitão do navio é um teatro que “não precisa de Malhação (alusão a soap opera global), temos o Vila e nossa Tróia pra defender. Podemos cair, mas não pela força do inimigo, só pela nossa fraqueza…. que às vezes parece existir às vezes não…”.

Por isso digo a vocês, corram ao Teatro Vila Velha, há algo de novo em gestação; algo de novo que não rompe com o passado apenas por romper; algo de novo sendo feito em resposta a um vazio presente e que incomoda que quer fazer um teatro que seja mais do que ação entre amigos, exibição de processos ou coisa que o valha. Para Deleuze resistir é construir. No caso do novo Teatro Vila Velha, opor-se ao sistema estabelecido é exatamente isso: resistir construindo. Afinal de contas opor-se a qualquer coisa deve surgir como consequência. Ser oposição por ser oposição, sem construir é altamente insuficiente. Vá ao Vila, velho.

Deixei para o fim as sábias palavras de Matéi Visniec sobre o lugar que pode e deve ocupar o teatro numa sociedade em pleno século XXI:

“A queda das ideologias deixa sim um vazio. Um vazio que a literatura, a cultura, o debate artístico podem preencher. É certo que hoje não há uma ideologia dominante, salvo a ideologia ultraliberal que impõe um modelo econômico que se está globalizando.  O debate ideológico nos dias atuais é muito pobre porque depois da queda da última utopia planetária (a utopia comunista) não há outra utopia que fascine. A globalização não é uma utopia fascinante, nem sabemos bem o que é. O pensamento ultraliberal não entusiasma aos jovens, nem as massas. O pensamento econômico único que afirma que os mercados podem solucionar tudo pela mecânica da oferta e da demanda é a mesma coisa, é um pensamento que não pode excitar ninguém, nem provocar efusões ou entusiasmo da juventude.

Estamos numa época de transição, na busca de uma nova utopia, de um novo humanismo, de uma nova doutrina da generosidade. E, o debate literário, cultural, precisamente, é feito para isso, para tentar preencher esse vazio: esse vazio de ideias, esse vazio filosófico, sociológico, ideológico. Penso que o teatro pode contribuir com isso, sobretudo agora, como lugar de encontro, como lugar de socialização, como lugar de troca, como lugar de emoções coletivas, como lugar de debate, de experimentação artística e de busca de novas alternativas para escapar ao pensamento oficial ou à pobreza ideológica.  O teatro é um lugar vivo onde pessoas vivas se encontram, onde as emoções podem ser fontes de inspiração e de reflexão. Um espetáculo interessante pode marcar, por toda a vida, os jovens. Eu mesmo me formei na escola da literatura e da liberdade que emanava dos livros que lia dos espetáculos que assistia e das músicas que escutava. Acho que precisamos hoje dessa vida teatral e cultural, uma vez que não há utopias dominantes e a última fracassou estrepitosamente, deixando um campo de ruínas, países devastados, gerações sacrificadas, pessoas desencantadas e duzentos milhões de mortos.”.

Iana Nascimento e Chica Carelli em Por que Hecuba Foto Joao KleberIana Nascimento e Chica Carelli em Por que Hecuba Foto Joao Kleber

artigo de DEOLINDA VILHENA publicado originalmente em 17/01/2014 no TERRA MAGAZINE

http://terramagazine.terra.com.br/patchworkcultural/blog/2014/01/17/um-teatro-em-dialogo-com-o-seu-tempo/

Publicado em 19/01/2014 | nenhum comentário

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