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O VILA DEVOLVIDO

carlos petrovich e mais 59 atores e atrizes em cena de UM TAL DE DOM QUIXOTE peça q reinaugurou o teatro vila velha em 1968 - foto: marcio lima

carlos petrovich e mais 59 atores e atrizes em cena de UM TAL DE DOM QUIXOTE peça q reinaugurou o teatro vila velha em 1968 - foto: marcio lima

 

O Teatro Vila Velha sempre foi um sonho coletivo. Continua sendo, mas no dia 5 de maio vai ser entregue de volta ao mundo real. Agora com a capacidade de abrigar em seu espaço físico, um projeto cultural que vem sendo desenvolvido desde a sua criação.

Em 1959, liderados por João Augusto Azevedo, professor de dramaturgia, seis alunos da primeira turma da recém criada Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, planejavam criar uma companhia, tão logo se formassem.

Um atrito com o diretor da Escola, precipitou as coisas e fez com que o grupo abandonasse o curso, alguns meses antes da formatura. Criaram então o primeiro grupo profissional de teatro da Bahia: a Companhia Teatro dos Novos.

Como em Salvador não existiam outros teatros, além do Santo Antônio (da Escola de Teatro), os Novos decidiram criar o seu próprio. E durante quatro anos lutaram por isso. Finalmente, em pleno 1964, inauguram o Teatro Vila Velha.

Um dos shows da temporada de inauguração marcou a história da cultura brasileira: com Gal Costa, Tomzé, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia e outros, o show Nós por Exemplo plantou a semente da Tropicália no Brasil.

Daí para cá o Teatro Vila Velha se manteve como um marco, uma referência da cultura baiana: mexendo nos baús desse Brasil e tirando deles o novo, o vivo, o arrojado, onde estivessem – no Cordel, nas tradições afro brasileiras, no desvario urbano de uma cidade que crescia pós implantação da Petrobrás e criação do Polo Petroquímico, na roça, no coração de um Brasil que sofria com a repressão de uma ditadura militar.

O Vila Velha foi principalmente um local de resistência, criando um teatro político, burlando a censura, servindo de local para a reestruturação do Diretório Central dos Estudantes e criação do CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte) – organismos decisivos para a comunidade universitária que discordava do regime.

Depois e durante, o Vila foi também palco para a geração do desbunde, com seus Improvisos onde todos podiam se expressar. Foi berço também dos Novos Baianos. Foi onde Fa-tal de Gal aportou na Bahia e muitos shows de Caetano, Gil, Cor do Som, Mautner e tantos e tontos outros.

Com a morte de João Augusto, seu projeto cultural e político ficou a deriva. Seus criadores, os Novos, dispersos há muito tempo, mantinham o teatro, mas não o projeto.

Então, em 1994, novos Novos entraram na história – entramos – Ângela Andrade e eu, que sempre nos sentimos herdeiros culturais de João e sua turma, entramos na sociedade com a meta de restaurar o projeto original do teatro.

Durante esses quatro anos que estamos juntos, teatro Vila Velha e nós, uma multidão de artistas, consagrados e emergentes, tem se juntado em torno das idéias que geraram essa usina cultural e feito o Vila reviver.

Agora, com recursos do Ministério da Cultura, da Secretaria de Cultura do Governo do Estado, da Petrobrás e da Eletrobrás, o Velho Vila volta à cena, novo e único: um teatro de muita gente e de muitas possibilidades. E de uma concretude que só os sonhos costumam ter.

marcio meirelles

salvador, maio de 1998

 

Publicado em 09/03/2014 | nenhum comentário

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