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SOBRE JANGO DE GLAUBER

os textos de apresentação no programa de JANGO – UMA TRAGÉDIA surgiram de uma conversa por imeios trocados com paloma rocha e geneton moraes neto. além dos textos dele e meu publicamos o registro dessa possível coincidência e gênese dos textos. JANGO é uma peça de glauber rocha, encenada por mim para celebrar os 50 anos do vila [31 de julho de 2014] com os atores do teatro vila velha, coreografia de cristina castro e música do tropical selvagem [joão meirelles e ronei jorge]. 

e.flayer criado pelo TROPICAL SELVAGEM [lia cunha e iansã negrão] para o espetáculo

e.flayer criado pelo TROPICAL SELVAGEM - lia cunha e iansã negrão para o espetáculo -

De: Geneton Moraes Neto

Para: Paloma Rocha

Enviado: quarta, 04 de junho de 2014

Olá. Tudo bem? Carlos – nosso dentista – é que me passou o e-mail. Tinha tentado contato por telefone, na produtora, mas não consegui…

É apenas um pedido de informação:  vou fazer para o Canal Brasil um programa a partir de gravações que fiz, nos anos oitenta, no Recife, com Miguel Arraes e com Francisco Julião sobre encontros que os dois tiveram com Glauber Rocha no exílio.

Em resumo: quando voltou ao Brasil dizendo que os militares fariam uma abertura política, Glauber, como você bem sabe, foi “crucificado” por gente de todas as tendências. O que pouca gente sabia é que quem falou com ele sobre a futura abertura foi Miguel Arraes – e também João Goulart.

Arraes era meio arredio, mas terminou me dando esta entrevista. O filme passou um tempão sumido, mas, felizmente, a fita com a telecinagem foi encontrada. Agora, quero usar estes depoimentos inéditos ( e outros – que pretendo gravar agora) para fazer um programa que, no fim das contas, é também uma homenagem a Glauber, porque, historicamente, ele estava certo e os “detratores”, errados…

Estava pensando em citar algum trecho da peça de Glauber sobre Jango. Eu sei que ela foi encenada há tempos, mas creio que não foi publicada em livro.

Você por acaso sabe onde anda este texto ? 

Por fim: terminado o programa para o Canal Brasil, queria doar para o Tempo Glauber os depoimentos de Arraes e Julião – e, especialmente, umas gravações em áudio que fiz, em Paris, nos anos oitenta, com críticos importantes – como Serge Daney ( Cahiers du Cinema ), Louis Marcorelles (Le Monde ), o historiador Marc Ferro e o cineasta Jean Rouch – sobre Glauber.

Há anos e anos, fiz uma cópia dessas fitas e encaminhei para D. Lúcia – mas não sei se o material chegou a ser “indexado” no Tempo Glauber.

É isso. Já estou tomando teu tempo. 

Obrigado!

abs

Geneton 

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De: Paloma Rocha

Para: Geneton Moraes Neto

Enviado: sábado, 14 de junho de 2014

Caro Geneton,

Desculpe a demora em responder, mas estive ocupada e fiz uma cirurgia no menisco na semana passada.

Me parece incrível este material, além de importante neste  momento político do Brasil.

O Tempo Glauber está fechado. Desde Ana de Hollanda que não recebemos mais nada,

e não tive como manter mais. Agora que a Marta Suplicy liberou alguma coisa, trataremos de catalogar o acervo Lucia Rocha, composto de materiais recolhidos desde 1981 e objetos pessoais do Glauber.

Nunca soube do seu material no TG, mas  é um prazer obtê-lo e guardá-lo.

Preciso encontrar um mantenedor para aquele espaço-tempo, pois a casa sequer é nossa.

Os originais estão na Cinemateca Brasileira que está interditada.

Enfim…

Curiosamente Marcio Meirelles está fazendo uma nova montagem do Jango , que estréia dia 2 de julho no tradicional Teatro Vila Velha em Salvador .

Posso tentar que uma técnica  do TG retire do banco de dados uma cópia do texto em CD no dia 17 .

Também posso te colocar em contato com o Márcio.

Voltamos as atividades de preservação no TG no dia 2 de julho. Até lá os telefones serão religados.

Me fale.

Abraços

Paloma Rocha

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De: Geneton Moraes Neto

Para: Paloma Rocha

Enviado: quarta, 18 de junho de 2014

Olá. Tudo bem?  Obrigado pelo retorno. Também estou meio fora do ar – emendei as férias com uma licença do trabalho da TV, para organizar minhas coisas….Você deve ter recebido aquele aviso de ausência temporária no e-mail, mas acesso sempre aqui.

Quanto à peça Jango: já li trechos, mas nunca o texto inteiro. Gostaria de dar uma olhada, porque de repente uma frase ou outra da peça pode ilustrar ou complementar as entrevistas que vou gravar para o programa.

Se você puder pedir a alguém do Tempo Glauber para fazer esta cópia, ótimo. Passo lá e pego o CD. Ou – o que talvez seja mais simples – Márcio Meirelles poderia me mandar o texto por e-mail. Se você puder pedir a ele ou me passar o contato, agradeço.

Ficamos em contato.  Darei notícias sobre o programa no Canal Brasil – que terá a duração de um documentário.

Como disse, vai ser exibido só no Canal – mas vou ver com Paulo Mendonça se a gente não poderia promover exibições em festivais, por exemplo, ou percorrer uma espécie de “circuito alternativo”, já que o documentário não terá lançamento comercial. Vai ser uma maneira não apenas de homenagear Glauber, mas também de mostrar como ele estava profeticamente certo, no fim das contas, em meio àquela brigalhada política.

abraços

Geneton

PS:   É um absurdo que o acervo de um artista da dimensão da Glauber Rocha enfrente problemas para ser mantido – mas tenho certeza de que uma solução será encontrada.  ( aliás: você já pensou no Instituto Moreira Salles como uma opção para a manutenção do acervo? De vez em quando, vejo notícias de que acervos importantes, como o de Otto Lara Resende e outros, estão sob a guarda do Instituto – que recupera material, publica livros, promove exposições etc.etc. Glauber mereceria até um espaço permanente numa sala do Instituto. Ia virar uma “atração”. O importante é que eles dispõem de condições técnicas para manutenção de acervos de documentos e fotos, por exemplo. Um acordo operacional com o Tempo Glauber poderia ser uma alternativa. Estou dando “pitacos” aqui, não sei como estes coisas podem ser encaminhadas, mas talvez valha a pena uma conversa sua com eles ).

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De: Paloma Rocha

Para: Geneton Moraes Neto e Marcio Meirelles

Enviado: quinta, 19 de junho de 2014

Olá Genetton, te coloco,em contato contato com Márcio Meirelles aqui copiado. Vo tentar localizar a cópia na semana que vem . Se  Márcio puder enviar antes de 1 de julho é melhor. Caso  contrário dia 1 temos equipe no TG.

Abraços

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De: Marcio Meirelles

Para: Geneton Moraes Neto e Paloma Rocha

Enviado: quinta, 19 de junho de 2014

geneton e paloma

é um prazer enorme estar no meio desta história

e a convergência do tempo sempre é misteriosa mas existe e é fabulosa

é estar atento a ela

fico feliz q vc – geneton – esteja fazendo este documentário

é mto importante q as coisas sejam esclarecidas

o texto de glauber sobre jango na verdade é sobre o brazyl (como ele grafaria) de agora

é fantástico e estamos mto felizes e orgulhosos de poder encenar

tenho tb o material do acervo digitalizado

o projeto do romance e do roteiro cinematográfico

caso seja o caso – paloma – posso passar tb

por hora passo o texto digitado por nós

como está escrito

geneton – peço agora um favor e um presente p o aniversário do vila

vc toparia escrever um texto p o programa sobre isto q vc está tratando?

sobre a visão de glauber

sobre o texto jango

enfim

alguma coisa q pudesse ajudar o espectador a entrar mais no tema

e a poder formular melhor as idéias sobre este momento agora q é fruto daquele?

ficaria mto grato

por outro lado gostaria mto de ver o material do filme – nos ajudaria na encenação

sei q deve ser complicado

mas saiba q o teatro vila velha está de portas abertas caso vc se interesse em fazer o lançamento na bahia qdo estiver pronto

temos um cine clube funcionando desde o mes passado no teatro

numa ação q estamos realizando junto c a 3a bienal de artes da bahia

focada tb na memória

– n sei se vc sabe a 2a bienal de artes da bahia foi realizada em 1968 e fechada pelo regime

só agora, 46 anos depois é q temos uma nova bienal –

bom

segue em anexo o texto

gostaria de trocar idéias c vc sobre estes personagens

(as listas de personagens n estão no original de glauber colocamos p facilitar nosso trabalho)

p saber sobre alguns deles q ainda n encontramos referências

como por exemplo o julio souza (possível participante do sequestro do embaixador mas q n figura em nenhuma lista a q tivemos acesso) e o padre arthur (q imagino possa ter sido inspirado em frei beto mas n encontro razão p n ser o próprio já q glauber coloca todo mundo c os nomes verdadeiros)

bom, mto obrigado

seguimos

mm

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De: Geneton Moraes Neto

Para: Marcio Meirelles

Enviado: sexta, 20 de junho de 2014

Olá. Tudo bem?  Obrigado pela remessa do texto.  Paloma ia providenciar uma cópia do texto em CD quando o Tempo Glauber retomasse as atividades, mas você já adiantou as coisas.

Por ora, ainda estou bem no começo da produção. Falta um bocado ainda: gravações, entrevistas etc.etc.

Quando o documentário ficar pronto, é óbvio que a gente pode programar uma exibição em Salvador. Vamos combinar com o Canal Brasil. Poderia ser no Vila Velha, como você sugere.

Quando é que vocês vão estrear a peça em Salvador?

Uma coisa não ficou muito clara: o texto que você pede seria para o programa da peça ?   Se for, qual seria o prazo?

Ficamos em contato.

abraço

Geneton

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De: Marcio Meirelles

Para: Geneton Moraes Neto

Enviado: sexta, 20 de junho de 2014

ola

fiquei mto empolgado c o seu projeto

espero q tudo corra bem

o nosso JANGO estréia no dia 31 de julho

se vc topar escrever o texto poderia ser dentro de uma semana?

se n der diga p qdo vc poderia

seria um grande presente p nós

o elenco ficou empolgado tb c o seu projeto

falei p eles da idéia

me diga uma coisa

vc sabe se o padre arthur e o julio souza q aparecem no texto

são personagens reais ou fictícios?

seguimos

mm

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De: Geneton Moraes Neto

Para: Marcio Meirelles

Enviado: sexta, 20 de junho de 2014

Caro Márcio:

Vai aí alguma coisa que escrevi – e completei com um texto que eu tinha feito sobre um encontro com Glauber Rocha em Paris.

Se servir para vocês, pode usar como quiser.

abraços e boa sorte à tropa

Geneton

PS: Quando o documentário que estou fazendo ficar pronto, adiante, talvez no fim do segundo semestre, a gente pode programar uma exibição aí no Cineclube. Creio que seria o local ideal. Ficamos em contato.

 

JANGO-ensaio-JoaoMiletMeirelles-4910-12 de julho de 2014

primeiro ensaio no palco - foto: joão milet meirelles 12/07/2014

 

E GLAUBER & JANGO DESEMBARCAM NO PALCO DO TEATRO VILA VELHA

Geneton Moraes Neto (*)

Não, ao contrário do que diz o personagem de Terra em Transe, a poesia e a política não são demais para um homem só 

A poesia, a política, o cinema, a literatura, o teatro não eram demais para Glauber Rocha – um criador, um incendiário, um brasileiro que sonhava, para o Brasil, um destino de grandeza e originalidade.

“Que falta faz uma voz assim nestes tempos medíocres!” – exclamaria algum inconformado. Não, a voz de Glauber não faz falta – porque, a rigor, nunca saiu de cena. Jamais deixou de ressoar – nos filmes, nos artigos, nos livros, nos documentários, nos palcos, numa herança repartida em mil estilhaços. “Vida aos outros legada”, diria o poeta Drummond. É assim que caminha a humanidade: “vida aos outros legada”, a voz e os delírios e os discursos e as labaredas de um brasileiro feito Glauber se desdobrando e incandescendo e ressoando e tinindo no ar, novos em folha.    

A voz de Glauber ressoará de novo agora, num lugar e numa data mais do que apropriados: os cinquenta anos do Teatro Vila Velha. Quem dá a notícia, entusiasmado, é Márcio Meirelles. É bom saber que a única investida de Glauber Rocha na dramaturgia – a peça Jango, uma Tragedya – volta a ser encenada, no Brasil de 2014.

O que explode em Jango, uma Tragedya é uma visão poética, histórica, trágica, totalizante, antropofágica, dilacerada e, paradoxalmente, esperançosa sobre este pedaço da América que Caetano Veloso definiu com belas palavras: “Ilha Brasil pairando eternamente a meio milímetro do chão real da América”.

A dez metros do chão real – era assim que Glauber Rocha parecia caminhar quando fazia seus atos públicos em defesa de um Brasil que haveria de ser capaz de se reinventar.

Transformado por Glauber em um dos personagens da peça, Francisco Julião –  o líder das Ligas Camponesas que, nos anos pré-golpe de 64, agitava messianicamente os campos nordestinos em defesa de uma reforma agrária – pronuncia uma bela sentença:

“Não tivemos a gloria de fabricar novas auroras”.

Não, o Brasil não teve esta glória – mas a busca por “novas auroras” , sejam elas políticas, poéticas, cinematográficas, pictóricas, teatrais, literárias ou televisivas, é o belo combustível que move criadores como Glauber Rocha e como todos os que não se contentam com o “chão real”.

Reviro meus arquivos não tão implacáveis. Eis as anotações de um encontro com Glauber:

A imagem ressurge clara e límpida na memória: Glauber Rocha desembarca numa sala de cinema acanhada, no bairro de République, Paris.

Era uma manhã de sábado. O mês: fevereiro. O ano: 1981. Os cabelos estavam ligeiramente desgrenhados. Os olhos, inchados, pelo sono recente. 

A nove mil quilômetros dali, o Brasil fervia à espera do carnaval. Mas, em République, fazia um frio desgraçado. Um inverno cinzento engolia a cidade. O homem chega envolto num sobretudo escuro.

O Glauber das minhas lembranças era o cineasta falante que incendiava o vídeo nos fins de noite de domingo no programa “Abertura”, transmitido pela falecida TV Tupi. Mas o Glauber Rocha real que chega a esta sala, com uma cópia do recém-concluído filme “A Idade da Terra” debaixo do braço, não exibe o vigor incendiário que marcava aquelas aparições na TV.

Ainda assim, espalha fagulhas de vitalidade por onde passa: fala como se estivesse discursando, usa um tom apaixonado para tratar do cinema e do Brasil. Dispara um petardo verbal contra um crítico “burro” do Jornal do Brasil, quer saber o nome, a ocupação, a procedência dos forasteiros que lhe são apresentados ali, no hall do cinema, pouco antes do início da projeção.

Anima-se quando sabe que nós – eu e o também brasileiro Marcos de Souza Mendes – somos estudantes de cinema em Paris. Aumenta o tom de voz, faz gestos largos com as mãos, chama a atenção dos críticos franceses que desfilavam no saguão do cinema com seus cachecóis entediados: “Olhem aí: são os jovens cineastas, é a juventude brasileira estudando cinema! Isso me interessa! Vocês me interessam! Quero saber o que é que vocês vão achar do filme!”. Os franceses olham para nós, o objeto do entusiasmo glauberiano. Procuro um lugar no chão para me esconder.

Conselhos que ele dava a jovens que sonhavam com o cinema: ver filmes de Jean-Luc Godard, estudar Serguei Eisenstein, ler o Cahiers du Cinema.

Depois, Glauber Rocha reclama de que a cor da cópia não é ideal, começa a falar francês com sotaque nordestino inconfundível. “Je vais rester ici; j´attende un ami” – declama, diante da porta de entrada da sala, enquanto avisa que os espectadores já podem ocupar seus lugares.

Em seguida, vai até a cabine, falar com o operador. O filme começa. Glauber sairá da sala umas duas vezes durante a projeção. Terminada a sessão, ele, que estava sentado três fileiras adiante, se vira para trás, olha para nós, a dupla de estudantes: “Como é? Fizeram as ligações? Fizeram as ligações?”.

O dedo indicador da mão esquerda de Glauber toca no indicador da mão direita. Ao perguntar a dois jovens estudantes de cinema se eles tinham absorvido o impacto de “A Idade da Terra”, Glauber cumpria ali, informalmente, o grande papel que sempre lhe coube: o de provocar reações.

Lá fora, pergunta pela mulher, a colombiana Paula, procura por ela no café ao lado, fala mal desses “filmes reacionários, com história”, dá o toque de que “o cinema materializou  o desejo de ser imagem e som da palavra”.

“A Idade da Terra” seria o último filme de quem fizera  obras-primas como “Terra em Transe” e “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”.

Cinco meses depois daquele sábado em Paris, Glauber estava morto. Coincidência: o coração do guerreiro parou de bater num sábado.   

A saúde de Glauber já era assunto de conversas ao pé do ouvido. O guerreiro não andava bem. Tinha passado uma noite vomitando, dormira durante a projeção de documentários brasileiros no cinema “Le Denfert”.

Um diálogo sobre cinema brasileiro com um estudante brasileiro que fora visitá-lo na casa em que ele passava a temporada parisiense teve de ser interrompido. O estudante terminou tendo de ir a uma farmácia, para comprar remédios.

Pouco tempo depois, Glauber levantara vôo para Portugal, onde trabalharia num projeto. As más notícias não demoravam a chegar a Paris: falava-se de complicações cardíacas, coisas assim.

A última palavra surgiu, enfim, na primeira página do “Le Monde”: “o cineasta brasileiro Glauber Rocha, um grande autor lírico e barroco”, tinha morrido no Rio de Janeiro.

Um articulista do “Le Monde” escreveu que ele ficará para as “gerações futuras” como um testemunho da “necessidade de mudar  mundo”. Guardo comigo os jornais.

Por que diabos as imagens daquela manhã de inverno em Republique estão passando agora, nítidas e claras, na minha cabeça, como se saídas de um filme doméstico que a gente deixa guardado durante anos no fundo da gaveta ?  

Uma imagem que vi por puro acaso numa TV a cabo funcionou como um gatilho detonador dessa torrente de lembranças : a voz de Glauber Rocha fazia um discurso grandiloquente sobre imagens de Brasília. Falava de Terceiro Mundo, capitalismo, socialismo, revolução soviética confrontando a riqueza americana, a roda da História, invasões, Europa conquistando o Novo Mundo, catequeses, cristianismo, utopias, barbáries, caudilhos, a América Latina pagando o preço da progresso alheio, o sonho de que aquela paisagem do Planalto Central produzisse iluminações planetárias.               

O discurso de Glauber Rocha acendeu um devaneio tropical numa madrugada sul-americana: quem sabe, o que falta ao Brasil, hoje, é um toque épico, uma fagulha daquele delírio que Glauber Rocha articulava sobre imagens de Brasília.

Glauber Rocha apostava tudo no sonho de que o Brasil poderia ser, sim, um país original, uma voz que pronunciasse novidades para o resto do planeta, um laboratório bárbaro que emitiria luzes belas e grandiosas. Por que não ?

Hoje, quando a mediocracia e ausência de ambição desfilam de mãos dadas diante do Cemitério das Causas Perdidas, a figura de Glauber Rocha aponta para a direção contrária.  

O Brasil precisa de delírios glauberianos de grandeza. Ambição de originalidade. Explosões de gestos, imagens e palavras. Torrentes e vulcões contra a pequenez. “Ondas de civilização”.

Meninos, eu vi, num sábado cinzento, a fagulha de um visionário brilhar no saguão de uma sala de cinema em Paris. Glauber Rocha sonhava grandezas para o Brasil, quebrava os catecismos políticos, imaginava um destino épico para esta república ancorada na porção sul da América.

”Acorda,Glauber. Eles enlouqueceram!”.             

(*) É jornalista. Documentarista. Dirigiu, entre outros, o documentário Canções do Exílio – com depoimentos de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Jards Macalé e Jorge Mautner sobre os tempos em que viveram em Londres.

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capa do perfil no facebook pelo tropical selvagem - lia cunha e iansã negrão

De: Marcio Meirelles

Para: Geneton Moraes Neto e Paloma Rocha

Enviado: sexta, 20 de junho de 2014

muito obrigado geneton

estou ainda chorando de ler o q vc escreveu

aqui em mindelo – cabo verde ensaio agora um espetáculo chamado exatamente

EM DEFESA DAS CAUSA PERDIDAS – um ensaio sobre d quixote

c jovens caboverdianos entre 14 e 24 anos

o impacto do seu texto sua memória seu pensamento

me fazem bem e me provocam

qdo quase penso em desistir mais uma vez do teatro e dos projetos de mudança

que o teatro me obriga a formular e por em marcha

quase q diariamente

qdo quase penso q n vale a pena cavar este cemitério de causas perdidas

n vale a pena tentar restituir ao brazyl a vida perdida em nevoeiros de entretenimento

e distração de copas novelas ficções  democráticas representativas

manipulações religiosas mercadológicas imperialistas

que tudo isso é muito sufocante e q as utopias muito negociadas

precisam novas utopias p se salvarem

seu texto para o programa de JANGO me lembra q n dá pra desistir

q é preciso ir em frente q a hystória exige e cobra essa marcha

fiquei muito feliz e emocionado com a convergências de nossos projetos

seu documentário e nossa montagem

acho q alguma coisa no brazyl agora pede uma revisão política e poética urgente

foi isso que me instigou qdo ao pensar em como celebrar os 50 anos do teatro vila velha

me veio JANGO à memória não de graça não à toa

pelo q significam neste momento ou podem significar para o brazyl

jango e glauber e o teatro vila velha

enquanto isso no vila jovens ensaiam JANGO

trabalham para q seja concluida e apresentada a encenação qdo eu voltar

ensaiam músicas e coreografias

do espetáculo q glauber nos deixou como missão realizar

mesmo q n soubesse qdo escreveu a peça

ele nos destinava a isso de alguma maneira

há importantes registros da presença de glauber no teatro vila velha

cinco anos atras para ser anistiado politicamente

para receber o pedido de desculpas oficial

pelo exílio prisão confinamento maus tratos tortura e morte

que o brazyl q ele sonhava mudar lhe impôs oficial ou inoficialmente

física ou simboicamente

e vi no palco onde vamos apresentar o seu JANGO

o governo pedir desculpas a d lúcia à família rocha

e a todos nós pelo q foi feito ao homem brazyleiro glauber rocha 

outro registro de glauber no teatro vila velha foi na platéia

de onde escreveu um artigo sobre ter assistido em STOPEM STOPEM

– de joão augusto/teatro dos novos –

a reconstrução do teatro brasileiro coisa q achava impossível

depois de te-lo visto ser desconstruído por zé celso no REI DA VELA

outra registro monumental da relação de glauber com o vila velha

é seu corisco othon bastos do teatro dos novos

levado imediatamente após uma leitura dOS FUZIS DA SENHORA CARRAR feita pelo grupo

para o sertão baiano para filmar DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL

e este registro além do próprio filme está na cópia de um recibo de 100 cruzeiros que ele pagou

pela ausência de othon nos ensaios de ELES NÃO USAM BLEQUETAI

primeira peça de teatro encenada no vila

o brazyl deve muitas coisas a glauber

mas a maior dívida é uma rebelião conduzida politica e poeticamente

por suas idéias de soberania que nos leve a um futuro único destinado a este país

diferente do presente negociado q estamos vivendo

ele previu este presente em sua obra

ele previu este presente em JANGO está lá tão translúcido qto água

mas ele também previu um futuro antropofagicamente possível para o brazyl

um futuro q devemos a ele e a muitos outros q sonharam e lutaram

de diversas formas em defesa de causas perdidas

….

pronto, meu velho

por fim minha resposta à emoção q vc provocou acabou virando meu texto para o programa

e aí me veio a ideia de publicar a gênese toda destes 2 textos

seu imeio seminal para paloma e as respostas q se seguiram

peço sua autorização

peço também a paloma

obrigado mais uma vez

seguimos

 

Publicado em 28/07/2014 | nenhum comentário

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