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UMA ENTREVISTA COM HARILDO DEDA – 1985

Se cada ator não fosse uma peça única, rara e insubstituível, ainda assim Harildo Deda o seria. É um prazer vê-lo representar. Um prazer delicado e intenso, refinado. Ele é um que conhece bem sua arte e sabe o que fazer dela: de seu corpo, de sua voz, de sua imaginação e emoção ele extrai o melhor e entrega inteiro o fruto a platéia. Do papel-título à figuração sabe o que tirar de bom. Para ele não há papéis menores porque é um ator enorme.

Hoje à noite ele estréia, ao lado de outro monstro sagrado – Yumara Rodrigues – sob a direção de Ewald Hackler, no Teatro Santo Antônio (Canela), às 21:30h, Dias Felizes, de Samuel Beckett. Na próxima quarta-feira, dia 4, às 18:30h, na Sala 5 da Escola de Teatro, sob a direção de Wilson Melo, Canto do Cisne, de Tchecov. Assim teremos Harildo Deda em sessão dupla. Além disso, ele coordena o Curso Livre de Interpretação, promovido pelo Departamento de Teatro da UFBA, e prepara a montagem de final do curso: A Décima Segunda Noite, de Shakespeare. Aqui, Harildo fala de sua profissão, numa entrevista a Márcio Meirelles.

entrevista publicada no jornal A TARDE (salvador/bahia) – 30/11/1985

harildo deda (com maria eugênia milet e fernando fulco ao fundo) em SIMUN . texto strindberg . encenação marcio meirelles

MM – Harildo, o que é mentira, o que é verdade num ator em cima de um palco?

HD – Eu me pergunto sempre isso. Quando estou no palco, a satisfação que sinto vem do prazer de ser moleque: de estar inventando coisas, acreditando nelas e vendo até que ponto as pessoas acreditam também, caem na coisa e fazem o jogo com a gente. Na realidade, tem um momento em que você não sabe mais se é verdade ou mentira aquilo que está fazendo e sentindo, mas no momento em que o outro – o público – entra no jogo isso não importa mais, e aquela “peça”, que você estava pregando, deixa de ser uma “peça” para ser verdade. E a gente vai, continua, continua ad infinitum. O prazer que vem daí é maior do que qualquer verdade ou mentira que tenha surgido. 

MM – Então o prazer do ator é enganar?

HD – Até a si mesmo…

MM – Testar os limites de quanto pode enganar?

HD – De quanto pode enganar em função de uma coisa maior, que na realidade não sei bem o que seja. São estratégias que se usa para alcançar essa coisa. E, também, a gente faz isso pelo simples prazer de fazer.

MM – Por que uma pessoa se dispõe a ser ator? Que função um ator cumpre no mundo?

HD – Pra mim, esse é um ponto de questionamento muito forte agora: o que é ser ator? O que é fazer teatro na Bahia, agora? O que pode acontecer a partir disso?

Eu poderia tentar respostas bonitas mas, na minha cabeça, ser ator é uma coisa “pirata”. Acho que estou nisso por uma questão de continuidade. E encanta-me muito esse lado da profissão: ter a possibilidade de continuar mesmo quando você não está mais no palco ou não está mais aqui. Lembro-me de d’Aversa, Sônia dos Humildes, João Augusto, o quanto eles deixaram pra mim e o quanto tenho que passar pro outro. A possibilidade de transmissão, ainda mais do que para o outro colega, para o público. A possibilidade de dizer que a vida pode ser melhor.

MM – Uma das funções do ator é ser o elo entre um texto escrito e o ouvinte. Ele tem que dizer palavras que não foram escritas por ele e com as quais, às vezes, ele não concorda e fazer com que as pessoas acreditem nelas como se fossem reais. Como é a relação de um ator com o autor, com o texto?

HD – Ao pegar um texto, minha preocupação não é com o autor, mas com o que aquilo me diz. Meu trabalho é transmitir para o público aquela idéia, passando pelo meu filtro. É uma besteira isso de “não concordo com o que o personagem diz” – devo encontrar coisas com que concorde no que ele diz, porque existe uma coisa maior, que é a situação com os outros. E aí está uma coisa que eu acho muito importante em teatro, a relação: eu não existo sem o outro. O ator não é uma ilha, um foco de luz só. Ele é uma luz geral, junto com os outros.

MM – Que mecanismos você usa para tornar verdadeiras as palavras?

HD – As palavras são apenas o começo, a partitura que vai passar por certas cordas aqui dentro, que tem muito mais a ver com a emoção do que com a cabeça, mais com os nervos, a vibração, do que com o intelecto. Essas palavras são como uma vibração que passa através de cordas fazendo-as soar.

Durante muito tempo, principalmente quando se começou a fazer Brecht aqui na Bahia, a palavra era o importante e era como se estivesse fora do ator, era como se fosse uma coisa somente mental; o corpo, o resto não tinha nada a ver com a história. Era só aquela coisa fora, distante.

Eu acho que mesmo um texto brechtiano deve passar por essas cordas todas e fazê-las vibrar. Só assim pode-se escutar o som, e ele sai diferente conforme seja a pessoa que o esteja dizendo. Ainda que sejam as mesmas palavras, o mesmo papel.

O ator tem que se emocionar todas as noites, todos os dias, para o prazer da platéia ou isto se transforma numa técnica, num mecanismo qualquer, que não tem a ver com o teatro. O ator tem que estar preparado, ter um aprendizado técnico para deixar que a emoção chegue todas as noites, tem que ser como um instrumento bem afinado. Muitas vezes a emoção falha mas, em regra, deve vir porque todas as noites pelo menos uma das partes do espetáculo é nova, a platéia. Tudo depende da preparação do ator, deixar o corpo livre para que ela venha.

MM – Como é que surge um personagem? Como é que você inventa ser uma pessoa que não é?

HD – O primeiro estímulo é a própria palavra, o texto escrito. Agora, como surge o personagem…  Às vezes ele é difícil de surgir, outras, vem na hora e não posso nem colocar o dedo onde ele começou, de onde partiu. Às vezes o personagem vem inteiro a partir de um detalhe, uma voz.

MM – Existe, no folclore do teatro, a famosa frase “ainda não encontrei meu personagem”. Você acha que ele é encontrado ou construído?

HD – Encontrar pressupõe que ele exista pronto e certo  em  algum lugar, é só alcançar e vestir. Eu não acredito nisso. Acho que ele é construído. Mas para isso é preciso que você permita se reconstruir de várias formas diferentes para ser os personagens diferentes. Assim, se o teatro não serve pra nada, pelo menos serve para um crescimento pessoal. Nessa reconstrução pessoal tem-se a possibilidade de se conhecer mais e se resolver melhor. É tão fascinante conhecer certas facetas de você mesmo. O leque de probabilidades de um ator se resolver é bem maior do que o das outras pessoas. É claro que na profissão existe um outro lado que dificulta muito isso e torna as pessoas neuróticas, mas prefiro pensar nesse que é mais sadio.

Publicado em 04/09/2014 | nenhum comentário

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