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De que lado olhar Gregório?

Texto do programa do espetáculo “Gregório de Mattos de Guerras”, publicado em 1987.

 

 

De que lado olhar Gregório, eis a questão. Olhar ou falar ? De quem falar, como falar, para que falar ?
Falar ou fazer ? Pôr em cena: eis a tarefa. Muitas questões e uma tarefa.

O olhar teatral, um olhar brasileiro. Olhar Gregório de cabeça para baixo, ao revez. Olhar Gregório não como alguém que foi mais ou menos coerente, ou insensato. Herói, traidor, canalha, rebelde com causa ou sem, por razões pessoais, olhares próprios, nomes.

Fazer. Fazer Gregório e refazer seu universo barroco. Seu universo de sombras e luz. Afundar nas sombras. Construir um espetáculo. Trazer a luz, a história, a vida, a construção de uma cidade como uma brincadeira de armar.

O teatro é um jogo de armar. Um jogo de encaixes. Uma jogada coletiva. Jogar com Gregório e com outros poetas, misturá-los. Remexer os textos. Refazer os textos, rever a Bahia, “dessemelhantemente igual”.

Juntar um bando de gente, negras, mulatas, mestiças, cafusas, cfusas mas confiantes, trilhando um caminho dessemelhantemente igual. Caminho de atores e diretor, caminho de músicos, cenógrafos, figurinistas, costureiras, marceneiros, aderecistas, poetas, caminhos dessemelhantemente iguais. Antes trilhas que desembocam no mar.

E no mar um navio que leva Gregório a Angola. Por que foi mandado não importada, importa que um poeta foi tirado de sua terra, de seu motivo, e proibido de poetar. E no caminho para o exílio a possibilidade de reflexão. Um espetáculo que seja mais reflexivo que narrativo. Não me interessava contar a hitória de Gregório, nem fazer um recital de seus poemas. Interessava pôr em cena – pôr o dedo na ferida – um poeta que “se apropriou de sua

época”. Uma época em que a nossa cultura ainda mamava nas tetas de uma mãe negra e escarrava sangue no cauim.

Interessava repensar nossa cultura. Revisitar o berço. Sem saudades. Restaurar o teatro, repensar a Bahia através do teatro. Não foi à toa que Gregório foi o primeiro tema trabalhado pelo PROJETO-TEATRO. Nossos planos são muitos bons e se nos deixam, vamos longe.

Quando pensamos o PROJETO-TEATRO, Maria Eugênia, Ângela, Isa e eu, pensamos na restauração, cansamos de prantear o teatro baiano, cansamos de culpar, de nos auto-flagelar, de nos obrigar a estar em cena de qualquer forma para manter a chama acesa, cansamos dos chavões e das palavras de ordem e pensamos em restaurar o que se perdeu.

Pensamos em repensar todos os anos que investimos em teatro. Todos os tempos em que se fez teatro na Bahia. Pensamos em repensar o teatro baiano. Pensamos em um projeto que pudesse aglutinar de uma vez só, muitas gentes, pra repensar nossa história. Assim se fez de nossos sonhos este projeto. Assim surgiu Gregório em nossa vida, numa esquina com sua boca em chamas a fazer das palavras fogo de artilharia. Assim se envolveram conosco estudiosos, pesquisadores, compositores, poetas, dramaturgos, em caminhos dessemelhantemente iguais.

E assim vamos, cortando pelo mar fundo numa barquinha, desviados de nossas rotas cotidianas de comer, beber, dormir, para ficar no limite entre a vigília e o sonho. Que é isto teatro: estar desviado do caminho natural que vai do nascer ao morrer, e assim poder tocar com dedos do inferno no absurdo cotidiano e, com olhos de ver, tentar, tentar, tentar.

 

Publicado em 22/09/1987 | nenhum comentário

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