Programa da ópera “ALBA”, com Luccia di Lammermoor
Texto do programa do espetáculo “ALBA”, com Luccia di Lammermoor, publicado em outubro de 1987.
ALBA – LUCCIA DI LAMMERMOOR
Porque fomos gostar de ópera ?
Porque montar uma ópera na Bahia ?
Porque eu disse sim quando Pino e Luciano me convidaram para dirigir uma ópera ?
O que em mim vibra ao ouvir esta palavra: ópera ?
Que fascinação tem essa coisa ?
O que é uma ópera ?
É teatro ?
Música ?
O que é isso que leva as pessoas a subirem no palco e catar como se fossem o que não são: reis e rainhas de amores violentos, terríveis vinganças e mortes sonoras, transviadas, boêmias, lúcias e butterflyes ?
O que é essa coisa que faz Fitscarraldos carregarem barcos sobre montanhas para a terem na selva ?
Que poder tem essa coisa ópera que faz girar tantas engrenagens ?
Sem dúvida é alguma coisa vital, essencial e necessária, ainda hoje, ainda aqui.
A ALBA sabe disso. Conhece esse mistério. Fitscarraldos carregando barcos sobre montanhas. Lúcia é o quarto barco. A quarta viagem rio acima. A quarta busca, a quarta descoberta.
Fiquei orgulhoso de ser o escolhido para conduzir esse barco, junto com Pino, rumo ao desconhecido. E foi isso que pretendi ao dizer que sim: seguir rumo ao desconhecido, rio acima, até a nascente.
Uma ópera não é um amontoado de “verdades” que a tradição acumulou sobre um palco, a partir de uma partitura. Uma ópera é uma idéia, é uma história a contar. E quem conta um conto aumenta um ponto, não só pelo prazer de aumentar, mas pelo prazer de ir além do conhecido, de experimentar novas possibilidades.
Não pretendi nesta encenação contar a história do trágico amor frustrado de Lúcia, mas mostrar como se frustra um amor, como os interesses se interpõem e destróem a única coisa que empresta um sentido a esta invenção que não deu certo – a raça humana.
Mais que sobre o amor é importante agora que se reflita sobre os mecanismos de destruição do amor, antes que tudo acabe. Antes que tudo, como no início, volte ao caos esperando que o amor recoloque uma ordem e tudo seja obrigado a recomeçar. Talvez Amor não esteja interessado nessa brincadeira outra vez.
Outubro, 1987.
MÁRCIO MEIRELLES