Programa de “Josefina, a Cantora dos Ratos”
Texto publicado no programa da peça “Josefina, a Cantora dos Ratos”, ocorrido em 1990.
Acho que este não é um tempo de metáforas. É um tempo real em que é necessário falar, tomar posições. É um tempo em que o artista é necessário mais do que nunca. Em que o artista tem que assumir a sua condição de arauto, de instigador, de antena parabólica, captando e colocando no ar o dia a dia que é mais fantástico e dramático do que a mais fantasiosa imaginação possa criar.
É preciso colocar esse personagem em cena – o artista – e discutir sua fragilidade e sua grandeza, suas possibilidades e seus delírios, suas carências e pirraças, seu poder de sedução e a real necessidade que tem dele uma sociedade em crise. Mas é preciso que se faça isso com uma visão crítica, não com excesso de vaidade e amor próprio inflamado. Talvez com muitas dúvidas a nosso próprio respeito.
Acho que neste momento a palavra se faz necessária, a discussão, a descoberta de novos caminhos para a felicidade geral.
É um momento muito difícil, um momento terrível. Todas as antigas crenças e certezas estão desmoronando. E as novas não respondem às imensas questões que me colocam meus filhos pelo simples fato de existirem, crescerem, serem humanos e terem um futuro absolutamente imprevisível pela frente.
Eu tenho tantas dúvidas e tantas questões quanto meus filhos de 5 e 6 anos.
A única coisa que penso no momento é: algo tem de ser feito. Temos que abrir caminhos novos. E temos muito pouco tempo.
Por tudo isso dei a mão a Josefina, esta senhora que me foi apresentada há muitos anos por Cleise Mendes. Este pequeno conto de Kafka, que nada tem de teatral, só virou teatro em minhas mãos e nas da CIT, porque Cleise me disse que isso era possível e eu acreditei.
Josefina é um caminho novo para mim, não é uma resposta, são novas questões, novos desafios. Não precisamos de respostas, precisamos de uma saída. A saída para mim é o teatro, esse jeito coletivo de se construir coisas novas e refazer velhos sonhos, essa forma única de estar em convívio com outros homens, de gerar e resolver crises, de dizer coisas antigas de uma maneira única e viva e efêmera. Essa única forma e ato de amor.