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MEDEAMATERIAL EM SÃO PAULO

Entrevista para a revista Projekt, realizada pela professora Ruth Róhl, da Universidade de São Paulo (USP), e publicada em 13 de março de 1994.

 

Capa de revista Projekt

Capa de revista Projekt

O diretor Márcio Meirelles e os atores Guilherme Leme, Vera Holtz e Adyr D’Assumpção falam da encenação da peça.

RUTH ROHL – Como foi construída a montagem, Márcio?
MM – O texto não traz indicação alguma, mas há chaves, como a possibilidade de montar as três peças ao mesmo tempo, ou quando Medéia pede o espelho e diz “Essa não é Medéia”, negando ser a negra. E esse é o caminho de volta, o meio para se reencontrar. A força de Medéia é a força de sua cultura, de sua raça. A baleia é outra chave que ganhei do Hélio Eichbauer; aliás, todo o grupo deu chaves. O Hélio queria só o pano, aí a gente conversou, fui criando imagens e organizando. Geralmente as imagens são muito barrocas, e vou limpando. Joguei todas as imagens para o Eichbauer, que sintetizou assim: só ficou a baleia e o pano. É um impacto que mexe com imagens conscientes e inconscientes: destruição, mamífero, animal pré-histórico, identificação com Medéia e com navio, enfim, um elemento-síntese.

V. HOLTZ (MEDÉIA): Medéia é cruel. Quando ela vê o seu espelho – a memória viva do passado – vem tudo à sua cabeça. E ela assume a vingança da traição.

G. LEME (JASÃO): Jasão é calculista, frio, não se emociona nem com a sua morte. Não fiz Jasão muito interpretativo, mas como se ele estivesse relatando a sua própria morte, o que o homem está fazendo com o próprio homem.

RR – A montagem passa muito a Bahia, a cultura afrobrasileira. Você pode explicar isso?
MM – Eu sou baiano. Há quatro anos, Heiner Müller queria montar a peça na Bahia, e ele me contou isso, quando estive na Alemanha, em abril, para conversar sobre a montagem. O final só é possível fazer na Bahia, região interétnica, intercultural – é a vitória do negro, do colonizado, quando ele toma consciência de sua situação.

RR – Qual é a função do bando de teatro Olodum e das canções?
MM – A função é a do coro, que conta a história paralela: a história do negro escravo, do colonizado, recuperando a Africa mítica, um referencial de identidade. É o nosso ritmo, a nossa música vencendo o colonizador. O povo da Cólquida, como o povo negro, traído, o povo brasileiro que perdeu suas raízes.

RR – É essa a importância da montagem para nós, brasileiros?
MM – Para o Olodum, a música é apenas a ponta do iceberg. Como disse o João Ubaldo, na Bahia só há um branco – o cônsul da Noruega.

RR – O que você buscou na cultura baiana, além da música, do ritmo?
MM – O gestual do candomblé foi um referencial. Quando a Medéia branca abraça a Medéia negra, é como se ela reincorporasse a si mesma. É como no candomblé, quando o orixá baixa e possui o cavalo, é a energia que vem. A montagem incorpora a linguagem da cultura afro-baiana. No que diz respeito à ama, a gente se inspirou muito nas figuras de Ekedi e Mãe Pequena. Ambas são figuras do candomblé que nos rituais não incorporam, não são mãe-de-santo, mas têm toda uma função ritualística de condução. Elas conhecem, tanto quanto Medéia – sacerdotiza – mas não têm o seu status. Outro elemento é o berimbau, a capoeira, a luta transformada em dança como resistência. E também um referencial de identidade: o povo de Medéia com ela, resistindo, porque Medéia se perdeu seguindo o colonizador.

ADYR D’ ASSUMPÇÃO (AMA): A ama conta a história, ela é guardiã dos preceitos, mas só quem pode agir é Medéia. Medéia perdeu a identidade, a ama traz a imagem que ela não quer ver, e é a par!ir daí que o processo se desenvolve. É mais um símbolo.

RR – o Heiner Goebbels fez a trilha musical?
MM – O conceito do espetáculo passa pela música. Antes de conhecer o texto de Medeamaterial, trabalhei com o Heiner Goebbels na Libertação de Prometeu. Colaborei com ele na montagem e gostei muito de sua música. Aí a gente falou muito sobre Medeamaterial. O texto traduzido era só a parte central-as duas pontas: a destruição de uma cultura, uma do ponto de vista do colonizado e outra, do colonizador. Ele me mandou o texto em inglês, e eu o convidei para fazer a música do espetáculo. Mas eu já tinha idéia da música, a dos tambores, como memória cultural de Medéia, elemento recorrente e que explode inteiro no final, e a música dele como a do colonizador, narrando a destruição e delineando o perfil do colonizador. Ele veio e viu o ensaio, viu o Olodum tocando e ficou dois dias questionando: a música que eu tinha era muito mais forte do que qualquer coisa que ele pudesse fazer. Mas ele entendeu o conceito, que era necessário que tivesse um contraponto – não mixar, mas pôr as duas músicas como um diálogo, como a voz de Jasão e a voz de Medéia. A música do Olodum, percussiva, mexe – ninguém pode ficar alheio a ela. O Olodum a sintetizou de uma música tribal, ela é orgânica, humana, diferente da música eletrônica. E também na interpretação foi, num primeiro momento, um choque cultural em relação a todo mundo, a Vera, Guilherme, etc. E optei por juntar as duas coisas, a formação cultural da Vera, do Guilherme e a do Adyr, do Bando. Quando Rejane (a Medéia negra) fala: “Vestígios de argonautas de testa chata”, ela conta a história toda dela.

RR – Nota-se uma diferença até mesmo em termos de interpretação.
MM – A interpretação grandiloqüente de Vera e a dos meninos, olhando para os lados nem aí – é um efeito de distanciamento: o espectador não deve se envolver, mas refletir sobre o que está acontecendo. O espetáculo é uma guerra, um conflito entre vivências, culturas, interpretações, sons. Viva a diferença! Todas as culturas podem conviver de forma harmoniosa, aceitando a diferença, mas não há alternativa para o resgate, o renascimento, sem a morte do colonizador.

RR – Como foi trabalhar com um texto de Heiner Müller?
MM – Heiner Müller é uma casualidade em minha vida. Conheço poucas coisas dele, mas gosto muito delas. Lamento não conhecer um dramaturgo brasileiro que tenha esse poder de síntese e entregue ao encenador um material para se criar um espetáculo. Em geral todos os textos estão amarrados a uma narrativa, mesmo com flash-backs, a uma historinha. O teatro transcende a historinha, são imagens, são fragmentos. O teatro contemporâneo prescinde de historinha.

RR – Você considera o seu espetáculo pós-moderno?
MM – Não sei, de alguma forma é. O espetáculo é pop. Tem elementos pós-modernos: acúmulo de imagens, informações, desde o mito até o momento presente. Quando o texto foi escrito, não havia o conflito da Bósnia, mas está tudo aí. É um acúmulo de estratos, um sobre o outro. Mas não tem outras coisas do pós-moderno, como o esteticismo do fragmentário. Acho que não há rótulo para Heiner Müller ele ultrapassa o seu tempo. Medeamaterial foi escrita ao longo de trinta anos, antecede acontecimentos e fala de uma destruição por vir. O último cenário é uma estrela destruída o que o teatro pode fazer é falar sobre ela.

RR – Mas o final de sua montagem é outro.
MM – Na Bahia, o final pode ser outro. Nós temos outra chave: força cultural e possibilidade de virar o jogo através da atividade humana.

FICHA TÉCNICA
Título: Medeamaterial (Margem abandonada Medeamaterial Paisagem com Argonautas)
Autor: Heiner Müller
Tradução: Marcos Renaux e Christine Roehrig
Direção: Márcio Meirelles
Cenografia: Hélio Eichbauer
Música: Heiner Goebbels e Neguinho do Samba
Elenco: Vera Holtz, Guilherme Leme, Adyr D’ Assumpção e o Bando de Teatro Olodum

 

Publicado em 13/03/1994 | nenhum comentário

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