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Baianos for export

Matéria publicada na Revista Veja, na edição de 7 de setembro de 1994. Escrita pelo jornalista Ernesto Bernardes.

 

Artistas de Salvador têm mais facilidade para vender seu trabalho no exterior do que em outros estados

Pouca gente no Brasil sabe quem é Sérgio Otanazetra, músico baiano que toca afoxé com um berimbau elétrico. Seu nome artístico saiu da palavra artesanato, escrita com z e ao contrário. Suas músicas nunca foram ouvidas no rádio e os discos que gravou não são encontrados em loja alguma do país. Mesmo assim, Otanazetra tem três CDs lançados na Europa por gravadoras francesas, recebe convites para ministrar oficinas em universidades americanas e faz shows em cassinos de Monte Carlo. Seu cachê beira os 2.000 dólares e sua arrecadação de direitos autorais é de cerca de 10.000 dólares anuais. Ele é o exemplo típico de uma carreira que está em alta: a do artista baiano modelo exportação. Como ele, dezenas de músicos, artistas plásticos, dançarinos e teatrólogos da terra de Jorge Amado descobriram que a saída para o sucesso pode estar no aeroporto ou na fundação internacional mais próxima.

Otanazetra, que antes de fazer: sucesso no exterior tentou a sorte no sul do Brasil e só conseguiu apresentar-se em shows de travestis, ilustra bem um fato do qual a maior parte dos artistas baianos já se deu conta: que o mercado exterior é o melhor para quem faz cultura popular regional. “É mais fácil levar uma companhia de teatro baiana para um festival na Alemanha do que para um palco paulista”, constata o alemão Roland Schaffner, diretor do Instituto Goethe de Salvador.

Há dois anos, o Goethe baiano patrocinou uma montagem do clássico Wozzeck, de Georg Büchner, na qual o enredo se passava no Pelourinho. A montagem era dirigida por Marcio Meirelles, encenador que é o rei do patrocínio externo. Pouco conhecido no eixo Rio-São Paulo, ele já tem data marcada para estrear em Londres (julho de 1995) uma adaptação para a cena da vida de Zumbi dos Palmares. A peça será uma co-produção entre o Bando de Teatro Olodum, que Márcio dirige há quatro anos, o Lift (London International Festival of Theatre) e a companhia inglesa Black Theatre Co-op.

“Há grande interesse no mundo atual pela cultura de extração africana”, explica o percussionista brasileiro NanáVasconcelos, que mora desde o final da década de 70 em Nova York. “O Brasil é o único país que recebeu negros escravos de todas as regiões da África. E a Bahia é o lugar em que essa cultura está preservada.”

ORIGINALIDADE – Fundações estrangeiras também têm apoiado dançarinos baianos. O coreógrafo Elísio Pita, por exemplo, fatura em média 45.000 dólares anuais por conta de seu trabalho na Alujá Center Cultural Development, um instituto de pesquisas de cultura negra, e no California lnstitute of Arts, uma fundação mantida pelos estúdios Disney. “A dança baiana não é melhor do que a que se faz em São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba. A vantagem é que a Bahia tem mais a cara do mercado internacional de hoje”, diz outro baiano, Marcelo Moacyr, de 40 anos, que conseguiu emprego em uma ONG de Nova York, a Capoeira Foundation, da qual recebe 28.000 dólares anuais.

Do ponto de vista das entidades que a patrocinam, a cultura baiana agrada mais do que a proveniente de outros pontos do Brasil por sua originalidade. “Temos muito mais a aprender com a Babia do que com Santa Catarina, por exemplo”, sentencia o alemão Schaffner, que gasta 40.000 dólares. por ano em projetos culturais. A próxima investida do Instituto Goethe será levar para a Alemanha, numa turnê de dois meses com 22 apresentações, uma montagem da diretora Maria Eugênia Milliet. A peça é uma adaptação de Hamlet interpretada por meninos de rua. O nome do espetáculo é O Rei do Trono de Barro.

 

Publicado em 07/09/1994 | nenhum comentário

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