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COMO OS PEITOS DE GAL

Texto escrito em Salvador, em 26 de fevereiro de 1997, a partir do convite de Zé Celso Martinez Correia para a participação do Bando de Teatro Olodum no espetáculo As Bacantes.

 

O Bando de Teatro Olodum foi criado em 1990 através de uma oficina. A idéia era que a oficina servisse para selecionar os atores que formariam o grupo e a partir daí, com esse grupo, seria montada As Bacantes, de Eurípedes. Para apresentar o grupo, no término da oficina, montamos Essa é Nossa Praia. Apresentamos esse espetáculo durante uns três anos.

Quando falei na imprensa que montaríamos As Bacantes pela proximidade que esse texto tem com nossa vida, nossa cultura, com a invenção do carnaval, alguém se apressou a me dizer: mas isto é um projeto de Zé Celso. Que alguém sempre diz essas coisas, pelos motivos mais diversos. Mas especialmente porque supõe-se as vezes que uma peça de teatro só comporta uma encenação.

O sucesso de Nossa Praia e a notícia do projeto de Zé – “deixa ver primeiro o que o mestre vai fazer desse texto”- me fizeram desistir do espetáculo..

Agora, seis anos depois, Zé Celso convida o Bando para participar de sua montagem. O que é um privilégio, como disse Caetano Veloso a propósito do fato de ter participado do espetáculo, mamando no seio de uma das atrizes e sendo desnudado na cena em que as bacantes destroçam a divindade. Coisa que acontece todas as noites com alguém da platéia. Mas o fato de o rei ter ficado nu – e de o rei ser sempre mais bonito nu – trouxe notoriedade nacional ao espetáculo.

Desnudar um ídolo é tocar num tabu. E aí vem a controvérsia, o diz que diz, o acho isso acho aquilo. Igual aos peitos de Gal no show dirigido por Gerald Thomas. Tocar um tabu mexe com a galera. Daí todo mundo quer ter seu dia de Caetano nAs Bacantes,
ou ver alguém correr esse risco.

Mas As Bacantes de José Celso Martinez Corrêa é muito mais do que quer a mídia. Zé é o mais teatral dos diretores brasileiros, o mais político, o mais autoral, o mais necessário, o mais brasileiro, o mais polêmico, the best.

Zé criou um espetáculo magnífico. Ele e seu grupo contam a história do triunfo da paixão. A vitória do instinto, dos sentidos. A vitória do teatro, da arte sobre a mídia; do Homem sobre o Estado. Da vida sobre os interesses, o comércio.

Desnudar um espectador nesse espetáculo é absolutamente pertinente e necessário para que a idéia se realize. Quando isso acontece, toda a ordem é invertida, tudo fica fora do prumo; tudo, momentaneamente, fica fora de controle, e é nesse momento que a verdade triunfa, que o equilíbrio e a paz são possíveis.

Quando a gente perde a casca e renasce num ritual de passagem inesquecível. Quando a gente fica completamente desprotegido e frágil. Quando a divindade em forma de touro é destroçada pelas bacantes. Quando não existe mais o símbolo Deus, Deus se espalha pelo mundo e por todas as coisas, como deve ser.

 

Publicado em 26/02/1997 | nenhum comentário

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