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ACHO QUE ESTE NÃO É UM TEMPO DE METÁFORAS

George Mascarenhas em Josefina, a cantora dos ratos

George Mascarenhas em Josefina, a cantora dos ratos

Texto escrito por Marcio Meirelles, em 15 de março de 1997, a partir da apresentação no programa do espetáculo Josefina, a cantora dos ratos – adaptação do conto de Kafka – e publicado na coluna Abridor de Latas, no jornal Província da Bahia (ano 1, n. 8) em 17 de março de 2000.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acho que este não é um tempo de metáforas. É um tempo real em que é necessário falar, tomar posições. É um tempo em que o artista é necessário mais do que nunca. Em que o artista tem que assumir a sua condição de arauto, de instigador, de antena parabólica, captando e colocando no ar o dia a dia que é mais fantástico e dramático do que a mais fantasiosa imaginação possa criar.

É preciso colocar esse personagem em cena – o artista – e discutir sua fragilidade e sua grandeza, suas possibilidades e seus delírios, suas carências e pirraças, seu poder de sedução e a real necessidade que tem dele uma sociedade em crise. Mas é preciso que se faça isso com uma visão crítica, não com excesso de vaidade e amor próprio inflamado. Talvez com muitas dúvidas a nosso próprio respeito.

Acho que neste momento a palavra se faz necessária, a discussão, a descoberta de novos caminhos para a felicidade geral.

Este é um tempo sem ideologias, sem causas, um tempo em que o poder supremo de duplicar a vida foi conquistado. Em que a gente perde o interesse em acompanhar as notícias sobre crimes monstruosos contra o cidadão porque já se sabe o fim da história. Um tempo em que os clones e a impunidade ocupam lado a lado as notícias dos jornais.

É um momento muito difícil, um momento terrível. Todas as antigas crenças e certezas estão desmoronando. E as novas não respondem às imensas questões que me colocam meus filhos pelo simples fato de existirem, crescerem, serem humanos e terem um futuro absolutamente imprevisível pela frente.

Eu tenho tantas dúvidas e tantas questões quanto meus filhos adolescentes.

A única coisa que penso no momento é: algo tem de ser feito. Temos que abrir caminhos novos. E temos muito pouco tempo.

Venho construindo, com todas essas questões e desafios, um caminho para mim, não uma resposta. Não precisamos de respostas, precisamos de uma saída. A saída para mim é o teatro, esse jeito coletivo de se construir coisas novas e refazer velhos sonhos, essa forma única de estar em convívio com outros homens, de gerar e resolver crises, de dizer coisas antigas de uma maneira única e viva e efêmera. Essa única forma e ato de amor.

 

Publicado em 15/03/1997 | nenhum comentário

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