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CARTA ABERTA À CRÍTICA FÁTIMA BARRETO

yumara rodrigues e nilda spencer - as mais fortes


Nunca em minha vida respondi a alguma coisa que tenha sido escrita a meu respeito nos jornais. Mas hoje resolvi escrever de volta. Pelo simples exercício de responder. Não que exija a publicação destas mal traçadas, ou para bater boca ou criar polêmica. Não sou afeito a essas coisas. Mas hoje, aos quarenta e três anos de idade e vinte e cinco de aprendizado teatral, está sendo importante pra mim ordenar minhas idéias e registra-las. Então - talvez porque já estou mais perto do fim do que do começo e a angustia do desaparecimento esteja me forçando a tentar me perpetuar e o teatro seja quase tão efêmero quanto a vida ou, talvez, porque tenha comprado um computador e ele me fascina - tenho escrito muito ultimamente.

O que disse acima pode parecer que não me importe, ou me sinta superior às críticas. Ao contrário: leio-as com atenção e releio-as e, às vezes, as não afetuosas me trazem mais material para trabalho do que outras carregadas de adjetivos elogiosos.

Sempre pergunto aos amigos o que não gostaram nos meus trabalhos e por quê? É uma forma de me situar, de saber aonde estão chegando as coisas que distribuo. E se faço isso com amadores, pessoas que gostam de teatro e lá vão apenas para se divertir, imagine com os críticos – profissionais que estão, como eu, construindo seu discurso, refletindo o mundo através de sua leitura de uma obra de arte.

Portanto tome esse escrito apenas como uma reflexão a partir do que lí no seu trabalho.

É curioso como a relação entre o crítico e o artista é parecida com a das duas personagens de A Mais Forte. Nesta peça Strindberg coloca em cena uma situação, que pode ser lida como uma discussão a respeito das relações, como uma metáfora. Quem é mais forte: o silêncio ou a palavra? A sombra ou a luz? O frio ou o quente? A forma ou o conteúdo? A superfície ou as entranhas? O yin ou o yiang? Apenas quando uma das partes resolve colocar a questão como um exercício de poder é que o caos se estabelece e inevitavelmente alguém – ou todo mundo – se machuca, ficando evidente que tudo é necessário e o importante é que os diferentes consigam conviver em harmonia.

Quando você entra no seu carro para dirigir, você tem em mente para onde quer ir, porque caminho vai, as condições da máquina que você está pilotando e a sua urgência de chegar aonde quer que seja. No momento em que dá a partida, você se encontra num estado emocional X. Começa a dirigir e pode ser que o caminho que você tenha escolhido esteja com problemas de trânsito, isso a obriga a mudar de rota. Pode ser que o pneu fure, ou algum problema no motor a obrigue a parar para consertá-lo. Pode ser que algo faça com que você se dê conta de que naquele momento deveria ir para outro lugar, e não para onde estava se encaminhando. Pode ser que as sinaleiras ou algum outro acontecimento façam com que você se atrase, obrigando-a a correr ou pegar atalhos. Pode ser que seu estado emocional mude devido a circunstâncias diversas, de ordem externa ou íntima. Enfim, o que importa é que você chegue a algum lugar. A narrativa da trajetória estará presente na sua chegada. Será fácil saber aonde você chegou, se chegou cedo ou tarde, se está cansada ou não, se foi difícil, se você está bem, e tudo o mais.

Assim é quando você dirige um espetáculo, igualzinho.

Toda ação humana é política. Mesmo quando você decide não se envolver em política, por qualquer razão, esta razão e este fato são atos políticos.

Assim também a direção de um espetáculo sempre existirá desde que exista um diretor e sempre será um fato político. Também será sempre uma causa nobre e política o fato de pessoas se reunirem para discutir coletivamente e em público o seu estar no mundo, como uma tentativa de corrigi-lo, ou, de pelo menos fazer um diagnóstico e dar a sua opinião sobre ele.

Você pode analisar qualquer coisa isolando-a de seu contexto, talvez seja mais científico, mais objetivo, mas corre o risco de ser mais pobre, menos humano. Quando começam a surgir as ligações que tem uma coiasa com o universo ela ganha outra dimensão e a vida começa a fazer sentido, porque nada está só no mundo. Tudo tem laços e todas as coisas estão inseparavelmente ligadas entre si.

Uma peça pode ser vista como um todo absoluto. Mas também pode ser analisada como um pequeno fragmento da obra de um artista, ou parte de um todo que se está construindo naquele momento. Quando você analisa uma peça como parte de uma obra você ganha outra perspectiva, outros pontos de vista, que talvez clareiem as partes aparentemente sombrias do que seja o processo criativo de um artista. Neste caso alguns equívocos a respeito de suas pretensões, propósitos e métodos são desfeitos e todo um sistema de trabalho começa a surgir claro como algo palpável e , então, a obra do artista e do crítico começam a dialogar e serem úteis uma à outra e ambas ao mundo.

Minha obra passa por minha fase de artista plástico, pelo teatro universitário, pelo Avelãz y Avestruz, pela Fábrica, pela Charanga Lítero Musical Amigos de Pagu, pelo Projeto Teatro, pelo Teatro Castro Alves, pelo Bando de Teatro, pelo Teatro Vila Velha e por todos os trabalhos que tenho feito em teatro, dança e música.

No momento dirijo o Teatro Vila Velha, coordenando sua programação e projetos, como Baila Vila, Quem manda é nós e outros e, também o Bando de Teatro, com quem estou começando a dirigir um novo espetáculo o Cabaré da Rrrrraça. Além disso tenho três espetáculos em cartaz: Esmeralda, A Vampira Fetichista; Barba Azul e A Mais Forte, objeto de sua crítica.

Com isso, longe de querer exibir um currículo, quero mostrar que, A Mais Forte faz parte de um todo e de um momento.

Com o Bando de Teatro foi criada uma marca que é tão forte e está tão presente, que, mesmo quando este grupo participa de trabalhos de outros diretores, ela aparece. No Cabaré da Rrrrraça, que estamos começando a ensaiar, discutimos a relação entre a mídia, o consumo e o negro.

Com o resultado de uma oficina, como é o caso do Barba Azul, com um grupo de atores jovens sem uma longa trajetória, ou de não atores que estão se iniciando, a marca da direção se faz presente de uma maneira muito forte. Lançamos mão de todo o arsenal que temos para construir poesia, para ajudar a essas pessoas que estão iniciando um caminho a darem os primeiros passos. Emprestamos nossa vida profissional para que elas criem referências para traçar sua própria trajetória. Com esse Barba Azul, estamos discutindo as relações de amor, o equilíbrio entre os diversos.

Com Esmeralda, A Vampira Fetichista, um divertimento, para praça pública, me aliei ao talento de uma autora, uma coreógrafa, um músico e bons comediantes para falar da relação de uma pessoa com o seu desejo, e da manipulação desse desejo pelos outros.

E por aí vai.

Com A Mais Forte queria discutir as relações humanas do ponto de vista da luta pelo poder, mostrando a absurda crença de que deve existir sempre um mais forte e um mais fraco, um vitorioso e um vencido. Tinha para isso duas atrizes maravilhosas com quem, para trabalhar, um diretor precisa estar preparado, atento e, principalmente, seguro de que elas são mais fortes. Por serem atrizes, por serem mulheres e por serem quem são. E um texto maravilhosamente bem construído.

Decidi então me render à tentação de mostrá-las e ao texto na sua nudez mais completa, e a construir o suporte para isso. Chamei então Eduardo Torres para tocar ao piano músicas que selecionamos juntos, Jorginho de Carvalho para fazer uma luz que mostrasse toda aquela maravilha que tínhamos nas mãos. Chamei Neyde Moura para construir a garçonete que serve às duas e ela o fez. Serviu tão bem ao talento das duas que seu trabalho aparece límpido e tranquilo sem a angústia de querer parecer mais forte. Decidí que o cenário seria somente o bar do Cabaré dos Novos, sem maiores maquiagens, como ele é. Definí as cores das roupas das duas: vermelho para a palavra, branco para o silêncio. Discuti com as duas o sentido do texto e o espetáculo que queríamos fazer dele, aonde queríamos chegar. Assim, com esse objetivo, essa máquina, essa urgência e esse estado de espírito, defini o caminho e os atalhos para chegar. Chegamos. Estou feliz.

Quando um diretor aparentemente não imprime sua marca pessoal pode não ser falta de cuidado. Pode não ser falta de alinhavo num projeto artístico em torno do qual se uniram artistas por motivos nobres e urgentes. Pode não ser porque o diretor já não sabe fazer teatro ou está cheio de tarefas ou se intimidou diante da grandeza do material que ele tinha nas mãos.

Quando um diretor não imprimiu sua marca pessoal num espetáculo pode ser exatamente porque a grandeza do que ele tinha nas mãos era mais importante do que ele. E acho que aprendi isso com Strindberg, exatamente porque em suas peças ele sempre mostra o oposto. Aprendi a não lutar para mostrar que sou mais forte, mas a reconhecer a força do outro e, por também reconhecer a minha, não me tornar seu inimigo, mas seu aliado.

Fátima, me despeço aqui com todo o carinho e respeito que tenho por você, e, reconhecendo a sua força como mulher, como atriz e como imprensa/duradoura, também reconheço a minha como homem, como diretor e como teatro/efêmero.

Um beijo.

marcio meirelles

salvador, 30/05/1997


 

Publicado em 30/05/1997 | nenhum comentário

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