OS MOVIMENTOS DO VILADANÇA
O Viladança foi criado em abril de 1998. Em maio o Teatro Vila Velha, renovado e ampliado, reabria suas portas para o público. E nesse mesmo ano, o grupo recebia o Prêmio de revelação concedido pelo Ministério da Cultura para a primeira coreografia – Sagração da vida toda – criada para ele por sua diretora e inventora, Cristina Castro.
É o primeiro grupo de dança residente do Vila Velha, teatro que completa 40 anos de atividades, sem que essa linguagem tivesse tido grande força e representação entre as atividades desenvolvidas sob seu teto. Apesar de ter sido o berço de muitos artistas e movimentos culturais – Gilberto Gil, Caetano Veloso, Tom Zé, Maria Bethânia e, consequentemente, o Tropicalismo, Othon Bastos, Virgínia Rodrigues, Lázaro Ramos, o Teatro de Cordel, a renovação do Teatro de Rua, e outros mais; apesar de ter estado também associado, para além da vanguarda estética, à vanguarda política, cumprindo inclusive importante papel de resistência durante a ditadura militar, nas décadas de 60 e 70; apesar de tudo isso, além de ter abrigado alguns importantes projetos da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (primeira de nível superior do Brasil), estranhamente, o Vila não tinha contribuído significativamente com a dança até o final dos anos 90, com a criação do grupo.
Aqui é importante mencionar que o grupo foi gestado por um projeto anterior, também coordenado por Cristina Castro em colaboração com as dançarinas Rita Brandi e Selma França. Por um ano, grupos amadores e profissionais das mais diversas tendências, procedências, estilos e orientações passaram pelo palco do Vila num programa que incluía, além da mostra, a participação interativa da platéia e uma homenagem aos construtores da dança na Bahia.
Com a criação e as atividades do Viladança, Cristina Castro nos mostra que é possível uma renovação estética na dança, a partir de um olhar atento para as tradições culturais locais e da descoberta de sua contemporaneidade. E, a cada nova produção, a cada participação em eventos nacionais e internacionais, o grupo vem mostrando a capacidade de recriar a própria linguagem, sem se acomodar a fórmulas que deram certo em seu próprio repertório ou no vocabulário da dança contemporânea. Seus dançarinos se reciclam em técnicas diversas que vão do balé clássico à capoeira, danças regionais, canto, atletismo, teatro, percussão. E participam ativamente no processo criativo de sua diretora/coreógrafa, num diálogo continuo. Diálogo que se estende a outros artistas, de diferentes linguagens, colaboradores de suas peças.
O Viladança mostra sobretudo que é possível um grupo independente sobreviver no Brasil fora do eixo Rio/São Paulo, criar e ser reconhecido e respeitado. Para isso contou apenas com o apoio institucional do Teatro Vila Velha e alguns patrocínios pontuais para projetos, vindos de empresas ou de editais públicos de órgãos governamentais. Somente em seu quinto ano de atuação conseguiu o apoio financeiro da Secretaria de Cultura e Turismo do Estado da Bahia, no valor mensal de R$10.000,00. O que o move de fato, e o mantém, é o desejo de falar coisas através do movimento e o compromisso com as coisas que fala.
O Viladança surgiu não apenas com a preocupação de unir expressões artísticas e construir um discurso estético a partir da dinâmica cultural da cena local em uma perspectiva contemporânea. O grupo propõe a diluição de fronteiras não apenas no plano das linguagens, mas também no político e social. Com a criação de projetos de interação com a comunidade, diminui as diferenças sociais através da fruição do prazer estético e da reflexão sobre o nosso mundo. E tem trazido para a platéia do Vila Velha pessoas que nunca tinham ido ao teatro ou visto dança contemporânea. Pessoas que só conseguem entender essa linguagem a partir dos sentidos, sem um conhecimento prévio de seus vocabulários. Ao perceber isto, o grupo elaborou um espetáculo que mostra, para alunos e professores do primeiro e segundo graus, a dança por dentro, sua história e sua gramática.
A dança, portanto, se instala definitivamente no Teatro Vila Velha com a criação do Viladança. E, de alguma forma, o grupo mantém sua herança genética: de um lado, um grato olhar ao passado, à tradição, a interação com o aqui agora e a pluralidade cultural que a Bahia abriga, herdados do Bailavila, projeto que o gerou; de outro, a postura política, o comportamento ético, o pensamento crítico e a crença no novo, do Vila Velha, teatro que o abriga, e de outro ainda, a inquietação intelectual e artística, a sensibilidade e a fibra de sua criadora definem os passos do Viladança.
marcio meirelles
salvador, 2004

