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ESSE GLAUBER

 

glauber rocha

Creio ser Glauber o interlocutor ideal neste momento.

É para quem quero falar, formular questões, expor conceitos, pensamentos e de quem gostaria de ouvir respostas, idéias, frases, palavras, perguntas. Com quem gostaria de discutir o Brasil.

Discutir ética, estética e politicamente o Brasil.

Glauber continua a ser, talvez, o mais brasileiro dos nossos artistas e continua a ser necessário repensar este país, reconstruí-lo, representa-lo, reapresenta-lo para nós mesmos. Para que entendendo o que está se passando possaos andar, mudar, restaurar. Por isso a idéia de dialogar com Glauber.

Essa idéia nos veio nos últimos ensaios de A CASA DA MINHA ALMA. Rita [Assemani] e João Sanchez tinham assistido a DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL e ficado alucinados. Nos prometemos fazer um próximo espetáculo com/para/por Glauber.

O que fazer, o tempo nos diria.

Nos reunimos, Aninha [Franco], Rita, Diogo [Lopes], João, Jarbas [Bittencourt] e eu, durante dias discutindo esse Glauber, o nosso Glauber, como seria. O título apareceu logo, mas quase um ano se passou nessa discussão. Lemos Glauber, vimos Glauber ouvimos Glauber.

Um dia, personagens antigos me revisitaram: os cordeiros.

Aqueles que durante o carnaval separam e protegem os que têm dos que não tem. Aqueles animais do sacrifício que são alugados para segurar a corda e se responsabilizar pelo limite entre os que se apropriam da rua, do espaço publico, sem pagar aluguel, daqueles que são, como eles – cordeiros – sacrificados todos os dias em favor da boa vida dos protegidos. Eles são aquele muro invisível para os que podem se divertir do lado de dentro e uma muralha intransponível para os seus iguais que estão do lado de fora, excluídos.

Ah, se os cordeiros fossem cabritos, bons cabritos, e berrassem… Mas cordeiro não berra, bale.

Enfim os cordeiros chegaram, vieram de uma idéia, anterior á CASA. Vieram de um espetáculo sobre o carnaval em que o Brasil se tornou. Onde alguns assistem a tudo de camarote, prostituem, corrompem, compram e vendem almas, bens, dignidade, corpos, prazer, ilusões, onde alguns consomem o mundo como mercadoria e se instalam, protegidos da massa que não tem brioches para matar a fome de pão, temporariamente.

Vieram em trajes de Stragon e Vladimir a espera de um Godot que lhes pagará o soldo pelos serviços prestados, se chegar.

Eram os personagens ideais para dialogar com Glauber, que não os conheceu com essa cara, mas com muitas outras – que, nesse mundo, sempre cordeiros existiram para matar a fome dos lobos.

Mas se sempre existiram cordeiros e lobos, pra que falar deles? Pra que falar das coisas que sempre estiveram aí, se elas não mudam? Ainda acreditamos haver alguma utilidade nisso? Não sei, mas não sei fazer diferente. Não sou cordeiro, sou cabrito. Não sei se bom, mas não vou parar de berrar.

marcio meirelles

Salvador, 16 de novembro de 2004

Texto escrito para o programa do espetáculo ESSE GLAUBER – peça  com texto de Aninha Franco, música de Jarbas Bittencourt, com Rita Assemani e Diogo Lopes no elenco. Estreada no  Teatro XVIII em 2004.

Publicado em 16/11/2004 | nenhum comentário

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