Ecoando Marilena
Texto escrito por Marcio Meirelles em 10 de dezembro de 2007.
“Quem habita este planeta não é o Homem, mas os homens. A pluralidade é a lei da Terra”
Hannah Arendt
Marilena Chauí, por ocasião de sua vinda à Bahia para o Fórum Internacional: Mídia, Poder e Democracia , realizou esta conferência sobre “Cultura e Democracia”, integrando a programação da II Conferência Municipal de Cultura e, por ser absolutamente convergente com a proposta política desta Secretaria de Cultura, pareceu ser um eco iluminado do que foi a II Conferência Estadual de Cultura, recentemente realizada. O evento, ocorrido no dia 11 de novembro, no Teatro Castro Alves, foi uma iniciativa da Fundação Gregório de Mattos, apoiada pela SECULT.
O resultado foi surpreendente: aproximadamente 1500 pessoas lotaram o Teatro Castro Alves, em plena tarde de domingo, para refletir sobre a cultura e seus necessários entrelaçamentos com a democracia. Embora seja inegável o fascínio que a pensadora causa nas pessoas, me perguntei se o processo de participação impulsionado pela realização das Conferências Municipal e Estadual de Cultura não teria alguma coisa a ver com tamanho interesse.
Estamos inaugurando na Bahia um novo tipo de relação entre governo e sociedade. Relação honesta, sincera e transparente. Como afirma em seu discurso o governador Jaques Wagner, esta gestão tem como regra o diálogo e a participação social. Temos posto em prática novas possibilidades de convivência, fundadas no debate de idéias, incorporando democraticamente a divergência e o conflito.
Para tanto, é necessária uma mudança de nossa cultura política, da forma como lidamos com o poder na Bahia. Trocamos o pensamento único pela diversidade de idéias; trocamos a imposição arrogante e a resignação silenciosa pela possibilidade de discordância, pela construção negociada de consensos. Enfim, nas palavras de Marilena Chauí: “uma nova política cultural precisa começar como cultura política nova, cuja viga mestra é a idéia e a prática de participação”.
Foi com esse espírito que a Secretaria de Cultura deflagrou em 2007 o processo de debate sobre a cultura no estado, que percorreu 390 municípios baianos e envolveu aproximadamente 42 mil pessoas.
A participação, entretanto, não é um processo que se encerra. Ao contrário, efetiva-se apenas enquanto prática cotidiana. A II Conferência de Cultura não expressa o fim de uma jornada, mas seu início, o ponto zero de uma nova cultura da cultura na Bahia.
Novamente, como afirma a própria Marilena, “a cultura é um direito do cidadão, direito de acesso aos bens e obras culturais, direito de fazer cultura e de participar das decisões sobre a política cultural”. O processo de elaboração de uma política cultural pressopõe uma reflexão sobre a própria cultura.
É preciso, portanto, qualificar cada vez mais o diálogo em torno da gestão da cultura na Bahia. Isso significa aprimorar o processo e as instâncias de mediação; aprender com os erros, que não serão poucos; seduzir a própria burocracia governamental para a beleza e a riqueza da construção coletiva. Significa também aprofundar conhecimentos, refletir sobre a imensa diversidade de interpretações que a prótospria noção de cultura nos apresenta.
Marilena Chauí, com propriedade e precisão, interpreta as várias idéias de cultura e explicita como foram historicamente construídas. Relaciona cada uma delas com a nossa forma de organização em sociedade, explicitando como essa mesma sociedade está organizada para a carência e o privilégio, impossibilitando a implementação de políticas culturais democráticas. Enfatiza, sobretudo, a indissociabilidade entre a cidadania cultural e cultura da cidadania.
Este livreto em forma de cartilha é o registro dos pensamentos e análises com que fomos brindados no Teatro Castro Alves e que Marilena generosamente permitiu que publicássemos para compartilhar com muitos mais. É o primeiro de uma série que colocaremos nas mãos de muitos, cumprindo nosso propósito de ajudar a Bahia a retomar seu lugar de, além de celeiro de produção de muitas culturas, um lugar de reflexão sobre ela. Um lugar onde se cultiva a união indissociável de cultura e democracia.
Gostaria de solicitar a você, leitor, que também atue como propagador das reflexões propostas por Marilena Chauí nesta publicação. Seja através do repasse deste livretos a amigos e colegas, seja através de fervorosos debates e de ações cotidianas.
Boa leitura!