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Bando de Teatro Olodum

Texto escrito por Marcos Uzel

 

CRIAÇÃO
O surgimento do Bando de Teatro Olodum na Cidade do Salvador, em outubro de 1990, contribuiu de forma expressiva para o fortalecimento de uma temática social e política na vida cultural baiana pelo viés do teatro. Com seu elenco formado por atores e atrizes negros, a companhia residente no Teatro Vila Velha manteve um elo com iniciativas anteriores de grande importância cultural surgidas no Brasil, como o Teatro Experimental do Negro, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial, o bloco afro-baiano Ilê Aiyê e o próprio Grupo Cultural Olodum, que em paralelo à formidável capacidade de expansão de sua música no começo dos anos 1990, passou a trabalhar com outras manifestações artísticas, aproximando-se das artes cênicas.

Através do Bando, feridas escondidas foram expostas no palco para o público, utilizando a experiência artística como condutora do processo criativo. Sua produção militante tornou-se teatralmente sustentada pelas mãos dos diretores fundadores Marcio Meirelles e Chica Carelli, do coreógrafo Zebrinha e do diretor musical Jarbas Bittencourt. Eles formaram os alicerces que dão base estética e de linguagem ao grupo e fortalecem a sua identidade artística. O Bando atravessou 19 anos de trabalhos quase ininterruptos. Apresentou-se em várias cidades brasileiras, viajou para países como Inglaterra, Portugal e Angola, e solidificou uma história vigorosa dentro da produção teatral de Salvador com repercussão nacional.

DRAMATURGIA
A dramaturgia sólida do Bando de Teatro Olodum possui como foco principal as questões da afrodescendência. Aliada à releitura de clássicos e à utilização de temáticas universais, tem como uma de suas bases mais vigorosas a capacidade de transformar em teatro o que existe de riqueza nos gestos, na sonoridade e nos significados de baianidade, sem esvaziar o conteúdo da realidade cotidiana do povo baiano. Seus temas transitam entre a beleza da vida (as elaborações corporais e sonoras enraizadas no carnaval, a força sagrada do candomblé, as cores e a vitalidade das ruas) e a urgência de um posicionamento contundente sobre a pobreza, a marginalidade e o racismo.

Esta postura cênica se manteve de forma coerente desde a criação da companhia, que aprimorou a sua pesquisa de linguagem em constante diálogo com a população de Salvador, cidade onde o grupo nasceu e que sempre foi uma fonte e um espelho das suas criações.

O trabalho se consolidou como um instrumento eficaz de mobilização, fazendo da arte um fator de inclusão social e atraindo um público, até então, distante das platéias do teatro baiano. Do repertório do grupo surgiram mais de uma dezena de textos inéditos. Entraram em cena trabalhos impagáveis, a exemplo das três peças da Trilogia do Pelô (a inaugural Esta é nossa praia, a cinematográfica Ó pai, ó! e a tragicômica Bai bai Pelô, todas tendo o mundo vário, pitoresco e dramático do Pelourinho como fonte de inspiração) e o grande sucesso Cabaré da Rrrrrraça, um extraordinário fenômeno de popularidade na história do teatro baiano, em cartaz há mais de uma década. Através de sua dramaturgia, somada ao vigor cênico de seu elenco e diretores, o Bando desenvolveu um projeto de expressão coletiva de idéias marcadas pelo posicionamento espontâneo, bem-humorado e reflexivo, firmando-se como a companhia teatral negra de maior visibilidade em ação nas artes cênicas baianas e uma das mais conhecidas e respeitadas do Brasil. Um prestígio nacional que lhe levou a garantir espaço, também, no cinema e na televisão.

FORMAÇÃO
Desde sua origem, o Bando se caracteriza pela vocação formadora. O espetáculo Zumbi Está Vivo e Continua Lutando, de 1995, é um bom exemplo desta iniciativa. A superprodução, apresentada ao ar livre, foi fruto de uma série de oficinas que acabou por reunir, em cena, cerca de 150 adolescentes de diversos bairros pobres de Salvador numa grande homenagem a Zumbi dos Palmares, herói da resistência negra à escravidão.

A companhia também se caracteriza por promover oficinas relacionadas aos temas de suas montagens, o que permite o ingresso de novos integrantes. Além disso, realiza oficinas de intercâmbio pelos lugares por onde circula, apresentando seu método de trabalho na criação de espetáculos. Os integrantes do elenco também têm incluído em suas atividades constantes aulas de dança e música (percussão, canto etc).

São, portanto, atores de muitas competências: dançam, cantam, tocam, representam e produzem suas peças. Dentre os nomes formados pelo Bando está o de Lázaro Ramos, que estreou na companhia baiana em 1994, na peça Bai bai Pelô, ainda adolescente. Hoje, Lázaro é um dos nomes mais prestigiados da nova geração de artistas brasileiros, com atuações de grande destaque no cinema, no teatro e na televisão.

Outro exemplo importante deste trabalho de formação tem sido o Fórum Nacional de Performance Negra, cuja realização é uma parceria entre o Bando de Teatro Olodum (BA) e a Cia. Dos Comuns (RJ), com patrocínio da Funarte e Fundação Cultural Palmares. Palestras, debates, grupos de trabalho, oficinas e apresentações de artistas de todo o Brasil dedicados à valorização da cultura afrodescendente compõem a programação do evento.

Além da troca de experiências sobre o desenvolvimento e a produção artística de estética negra, o fórum propõe a discussão a respeito de políticas culturais, o mapeamento das atividades e dos grupos nacionais envolvidos na realização de produções artísticas de matrizes negras e a criação de alternativas de divulgação e políticas de estímulos à continuidade destes trabalhos.

NO BRASIL E NO MUNDO
Depois de várias apresentações pelo interior do estado, o Bando estreou com sucesso a sua primeira temporada fora da Bahia no Verão de 1992, no Rio de Janeiro, onde ficou em cartaz durante um mês apresentando para o público carioca três peças do seu repertório. Era o início da bem-sucedida trajetória da companhia baiana longe das fronteiras de sua cidade natal.

A primeira viagem ao exterior aconteceu em junho de 1996, quando o Bando pisou em Londres para apresentar Xirê – Erê pra toda a vida, um comovente espetáculo dedicado às crianças vitimadas pela Chacina da Candelária, no Rio, em 1993. A encenação integrou a programação do Lift – London International Festival of Theatre, com boa repercussão na imprensa inglesa.

Durante a última década, a trupe teatral baiana ganhou a estrada. Foi uma das atrações do prestigiado festival carioca Carlton Dance; lançou sua biografia em cidades como Brasília e São Paulo; participou do Festival de Teatro de Curitiba, o mais importante do país; viajou em turnê por várias cidades do Nordeste; participou da Cena Lusófona em Coimbra, Portugal; pisou nos palcos de Angola com o Cabaré da Rrrrraça e representou o Brasil na Copa da Cultura, na Alemanha, dentre outros eventos.

O REPERTÓRIO
O farto repertório do Bando conta com mais de 25 montagens teatrais. Além dos textos assinados pela própria companhia, reúne também neste leque encenações inspiradas em grandes obras da dramaturgia universal, a exemplo dos espetáculos Woyzeck, Medeamaterial, Ópera de Três Mirréis e Um Tal de Dom Quixote. Algumas montagens permanecem até hoje no repertório do grupo, retornando com freqüência a cartaz, sempre com expressivo número de espectadores em suas temporadas. São elas:

Ó Pai, Ó!: Um dos maiores êxitos da trajetória do Bando, com adaptações para o cinema e a televisão. Tragicômica, a peça centra foco na intimidade dos moradores que habitavam os cortiços do Maciel-Pelourinho, Centro Histórico de Salvador, no início dos anos 1990. Acaba por retratar um universo pitoresco e dramático, de onde saíram personagens de grande apelo popular, como o motorista de táxi Reginaldo, o travesti Yolanda e a beata Dona Joana.

Cabaré da Rrrrrraça: Verdadeiro cartão-postal do repertório da companhia. Tem como tema central a discussão sobre negritude e consumo, mesclando contundência e bom humor. Concebido cenicamente como um misto de passarela de moda e talk-show televisivo, o Cabaré discute questões de grande relevância, a exemplo da discriminação racial no trabalho, o direito à liberdade religiosa e o mito da sexualidade negra.

Sonho de uma Noite de Verão: Inspirada no clássico de William Shakespeare, a peça recebeu o Prêmio Braskem de Teatro na categoria melhor espetáculo adulto de 2006. O público se diverte com os personagens desta comédia autenticamente marcada pela representação embaraçosa das loucuras do amor, numa viagem onírica pelo mundo das fadas, dos duendes e dos amantes deste saboroso enredo shakespeareano.

Áfricas: Primeira montagem infanto-juventil do Bando de Teatro Olodum, entrou em cena sob a luz dos erês para mostrar ao público mirim a diversidade e a riqueza de signos do continente africano. Ao invés das habituais fábulas e personagens eurocêntricos dos textos dedicados às crianças, Áfricas se nutre de contos da herança negra que atravessaram séculos graças à força da linguagem oral.

Publicado em 11/09/2009 | nenhum comentário

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